quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Palavrear


Fui à Palavrear. Precisava encontrar um velho amigo. Um velho amigo é uma caixa de coisas enferrujadas. O passado, as estórias, os conhecidos em comum que o tempo arrastou para o deserto do esquecimento. 

Na vida, montamos algumas trincheiras. Ou isso ou definhamos no campo aberto das desilusões. A Palavrear é uma trincheira. A minha trincheira. Uma trincheira povoada de generais: Borges, Jorge Amado, Hemingway, Bandeira, Whitman, Lorca, Marquez, Drummond, O velho Braga... 

Alguns lugares nos protegem como se estivéssemos no útero materno.  Pequenas cavernas onde nos abrigamos da chuva. Protegidos, descansamos da ruína - pessoal e coletiva. Esquecemos o infortúnio individual e o infortúnio de todas as gentes. Porém, uma livraria não é apenas uma trincheira. Uma livraria é uma igreja. Para cada poeta, um cigarro aceso. Em cada verso uma oração. O paraíso de Milton. Os labirintos de Borges. Os castelos de Celine. Deuses e filósofos no mesmo banquete de ossos. 

Certa vez, após brigar com minha esposa, saí de casa - ou fui expulso? Já não lembro mais. O fato é que fiz as malas e fui embora. Mas não havia para onde ir.  Eu vivia na Rua 18, entre o Lyceu e o nada.  No calor da indecisão, peguei as malas e me mandei pra Palavrear. Do meu apartamento à Palavrear, cinco minutos de caminhada. Lá, entre os livros, eu descobriria pra onde ir. Lá, à sombra dos generais, eu encontraria a resposta. Após cinco horas flanando pela livraria, lendo para esquecer, esquecendo para viver, tudo acabou bem. Voltei pra casa. Minha amada estava a minha espera. Mas a Palavrear foi meu porto seguro. Agora imagine a cena: um imbecil com uma camisa florida, após brigar com a esposa, arrastando duas malas pelas orelhas, adentrando a livraria como um retirante da própria solidão. 

A Palavrear é uma ilha de esperança e pureza. Entre o Leste Universitário dos feridos e o Setor Central dos fantasmas. 

domingo, 25 de novembro de 2018

Goiânia Nordestina

Há uma ilha de afeto no peito do nordestino que parte. O corpo do nordestino é um arquipélago azul. Ilhas que flutuam num oceano de luzes e sangue. Sua memória, uma península de saudade. A maresia encrustada nos dentes. O suor salgado que escorre em ondas. Mas há uma ilha de afeto no coração do nordestino. A solidão é um náufrago e a ilha é seu reino. Reino de desolação. Reino de antigas serestas que o tempo silenciou. Reino de morenas submersas e ruivas flutuantes. Reino de um só homem e um só rei. O rei solidão não tem herdeiros. O rei solidão mata a sede com água da chuva. Carrega o frio da noite tatuado na pele descascada de sol. Quando bate a fome, uma criança cheia de caprichos, a solidão a engana com estórias de um continente distante. A fome simplesmente adormece e sonha acarajés, buchadas, tapiocas e lagostas aladas.  

***

O nordestino é um personagem esmagado na paisagem colorida de um pintor. Paralisado na moldura do tempo. Portinari ou Deus, tanto faz. O nordestino é um cubo mutilado de Picasso. O nordestino é uma tormenta de Turner; uma mulata de DiCavalcanti e um monstro aberração de Tarsila.

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O poeta nos alertou e nós, os nordestinos, esquecemos: “O Nordeste é uma ficção, o nordeste nunca houve.”

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O nordestino que parte não é o mesmo que chega. A viagem, por mais fuleira, exerce sobre o nordestino um fascínio quase infantil. A euforia dos ingênuos. A estrada é a Disney do retirante. Frentistas como Mickeys adormecidos. Um vira-lata de três pernas lembra o Pluto. O banco duro do ônibus, uma grande montanha russa – escalando cordilheiras e no trotando no espinhaço negro do asfalto.  Não há comida de mãe que chegue aos pés do PF, frio e sem sabor, do Bar do Marcão. A paisagem sorri para o nordestino. A paisagem é um canastrão e a estrada é um filme.
Onde termina a BR-101, começa a eternidade.  Onde acaba a eternidade, começa o Sul do país.

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Às vezes o nordeste e eu nos encontramos. É estranho encontrá-lo assim de repente. Ele aparece no refrão de uma canção da Billy Holiday que toca na casa de alguém. Aparece na música de uma palavra e no rótulo das cervejas. Às vezes o nordeste é um garçom chamado Fábio. Mãos ágeis para fatiar a picanha da churrascaria gaúcha. Fábio diz desse jeitinho “Meu sonho sempre foi trabalhar com picanha, moço. Desde menino eu admiro picanha e hoje realizei o sonho. É bom viver o sonho, né, moço?” Fabio nasceu em Imperatriz-MA, e lá mesmo nunca topou um Imperador, um Príncipe Regente, um Sarney que fosse, nada; Imperatriz-MA, acho, é uma cidade só de súditos.   
Não creio que meu conterrâneo Fabio seja pobre de ambição. Acontece que há certa nobreza e abundância de vida na simplicidade que Imperadores, Coronéis e Sarneys embalsamados jamais entenderão.

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A simplicidade é a própria lucidez. Não se chega à liberdade, sem antes passar pela simplicidade. Há uma cerimônia de futilidade e demência. A futilidade é um entorpecente perigoso. Demência é refresco. Mas há drogados por toda parte. Eles querem coisas. Eles estão sempre atrás de algo. Carros, iates, mulheres, nelores, iphones, empregos, banheiras, igrejas, doce de leite, jornais, políticos, esperança, dentistas, promoções, múmias carbonizadas, um cigarro picado à meia noite na última distribuidora do Setor Aeroporto e heróis sem carisma. Eles estão loucos o suficiente para não sacar absolutamente nada.

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Neuza é baiana. Ela não se considera baiana. Mudou com a mãe há trinta anos. O objetivo era Brasília, mas o destino quis Goiânia. O mundo era outro, apesar de ser o mesmo. Neuza tem quarenta e cinco anos. Trabalha na limpeza de um shopping. Neuza é aquela mulher que recolhe as bandejas e varre os corredores. O sotaque baiano se perdeu ou foi esquecido. Neuza usa o uniforme da equipe de limpeza. Um uniforme feito para torná-la invisível.  
–João Nogueira tem uma musica chamada Neuza. É uma canção muito bonita, Neuza.
– Não sou muito de música.
A noite se fez e Neuza ainda não viu a cor noite. O teto cheio de coisas modernas do shopping impede que Neuza saiba que é noite.
– A gente passa tanto tempo aqui dentro, que quando vê, o tempo passou e já é noite.
A noite é tão natural quanto o sotaque perdido de Neuza. Diferente das liquidações, a noite é de verdade. É noite em Goiânia. É noite na Bahia irrecuperável de Neuza. A noite é a mesma no Brasil, embora o Brasil não seja o mesmo.
Beijo-lhe a mão. Neuza não está acostumada a ter a mão beijada. Ela não sabe, mas beijar mão de baiana “chama a sorte”.
– Você é de onde?
– Natal.
– Então a partir de hoje beijar mão de natalino também é sorte. Posso?
– Por favor, Neuza.
Ela me beija a mão. Nos despedimos, cada qual com sua fortuna e lá no fundo, ela sabe, e eu sei, que a noite se fez. A sorte nos pegou de jeito.  

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Agora que a chuva voltou, prometo mudar completamente. Mudar de vida, de penteado, de marca de cigarro e até de religião. Prometo esquecer o mal que me fizeram no tempo que não chovia em Goiânia. Prometo esquecer o sol incansável em sua rotina de agressão. Prometo amar mais a chuva que a preguiça. Mais os mendigos que os santos. Pra quando a chuva for embora, prometo cuidar de ti, Goiânia, como só um filho cuidaria da mãe louca que agoniza marchando pra morte.

***

Porém, a chuva caiu e não foi em vão. Agora que a esperança se fez líquida, desde já e até segunda ordem, volto a acreditar em Baudeleire, Rimbaud e no cavaquinho de Waldir Azevedo em Pedacinhos do Céu. Uma vez mais, serei o ingênuo. Ingenuamente, serei atropelado. Perdoarei as piores baixarias e pronunciarei baixinho o nome de Deus em vão. Ensopado dos pés a cabeça, cantarei uma velha canção chuvosa. Goiânia & eu seremos aqueles dois de sorriso fácil atravessando sem pressa o corredor polonês das ruas alagadas. 

É bom que tenha voltado a chover. Foram dias difíceis. Também se a chuva não voltasse, não secariam apenas os açudes e não só o João Leite morreria de inanição aquática, mas o câncer da chuva apodreceria o coração dos homens como um peixe encalhado na lama dura e esquartejada  de um riachinho assassinado. 

A ausência da chuva quase levou à loucura a garota que o namorado abandonou. Por muito pouco o calor não trucidou multidões de adolescentes que desaprenderam a chorar. A ausência da chuva pôs termo a mil cento e cinquenta e oito casamentos. Vocês esqueceram, mas quando não chovia o mundo era outro e as pessoas andavam meio esquisitas.

Nos homens a melancolia e nas mulheres a tristeza. Nos homens o tédio e nas mulheres o peso do sexo. Nos homens as mãos inchadas e nas mulheres os lábios rachados. Tudo porque não chovia. Mas gora que a chuva voltou, os casais que se separaram, súbito, descobriram o peso da distância.  A garota que quase enlouqueceu recobrou a razão. Mesmo os adolescentes, que da vida sabem quase nada, reaprenderam a chorar e não me perguntem como.


***


Um Buda gordo. Um orixá valente. Um messias sacrificado. Em nome deles e de todos os profetas mundanos, prometi que mudaria. Depois da chuva, a mudança. Promessa de chuva é dívida. E ela apareceu. Sem aviso prévio nem nada, saltou das nuvens, tocou a campainha e entrou.  Contudo, atenção: recebam a chuva com elegância. Preparem um banquete. Ofereçam um banho quente, sabonete, toalha branca, cama asseada, essas coisas. Afinal, a chuva em Goiânia é o filho que retornou ao velho lar dos pais em busca do impreterível perdão. Afinal, que pai ou mãe negaria o perdão ao filho? Afinal, que filho pode passar sem o perdão dos pais?

A chuva voltou e dizem os meteorologistas, cartomantes do destino da chuva, que ela está só de passagem. Ninguém sabe aonde ela vai. Ninguém sabe quando ela volta. Porém, ela está entre nós. E não é todo dia. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A gente sempre sobrevive . Sobrevivemos nas acrópoles atenienses sem internet, mas envolvidos numa trama peculiar chamada filosofia. Sobrevivemos como escravos babilônios há 2500 anos e mesmo Nabucodonosor, manda chuva na terra da Babilônia, Fidel Castro de antigamente, sobreviveu. Já houve quem foi centurião romano, center-four do XV de Piracicaba ou poeta simbolista e todos eles sobreviveram. Sobreviveram índios e jesuítas. Torturados e torturadores. Lunáticos do Oiapoque e imbecis do Chuí. Sobreviver é imperioso. Sobrevive o impulso sexual na moça virgem. Sobrevive a dor invisível no amputado. A fome no viciado. A loucura nos santos. O cheiro de vida nos peixes envenenados. Tucanos e lulistas, pecuaristas e black blocs, delatores e delatados – todos eles, sem exceção, invictos em vida, profissionais da sobrevivência. Entre a indiferença e a piada pronta, os canalhas passam ao largo da morte. 
Do lado de cá da ilha de solidão tupiniquim, apesar dos safadões e da suruba sertaneja e do cativeiro onde meteram o passado e dos zumbis do centro de Goiânia e do calor infernal, sobreviver é água com açúcar. Porquanto, é possível sobreviver de todas as formas, exceto sem amigos. Os amigos são um alento – sobretudo os que ainda não aterrissaram no Facebook ou já morreram ou desapareceram ad eternum na cortina de fumaça dos bares. Um amigo morto é a prova viva que sobreviver a morte é mais fácil do que parece.
Nessa vidinha, tudo tem jeito, tudo se renova, tudo tem um preço, um fiador e um otário em 10x sem juros; tudo se fode para depois se foder outra vez e finalmente, após uma sequência harmoniosa de fodas kármicas e fodas casuais , os homens e as coisas tropeçam no princípio de tudo e sobrevivem.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Não que a vida perto do mar seja mais fácil. Há engarrafamento na orla de João Pessoa. As mulheres também não amam no Cote D'azur. Perto do mar, os juros do Itaú e a TV e o Rádio e as briguinhas de facebook e os mendigos e a Av. Getúlio Vargas... falam todos o mesmo idioma nacional. Perto do mar também se morre. Perto do mar há os que se lançam indefesos em busca da morte salgada. Parafraseando o outro: a morte é a morte e suas circunstancias, certo? Não é sequer o caso de dizer que a beleza salva. Que a beleza suaviza a manhã e embala a noite. Que a beleza isso ou aquilo – que ela é um santo remédio, pode apostar que sim, mas não é o caso.
Acontece que tenho me esparramado na rede da sala. Como uma criança sem escrúpulos imaginativos, faço de conta que o céu é o mar – de cabeça pra baixo, porém o mar. As raras nuvens de setembro que volitam o planalto central me parecem as ondas espaçadas do calmo oceano goiano que não existe, meu Deus, mas que há de existir, há de existir!
Às vezes meu corpo sonolento faz do barulho do ventilador Arno três rotações o soluço embriagante das águas que se chocam contra o tempo das falésias.
Esporadicamente acendo um cigarro enquanto tomo banho e de olhos bem fechados é a chuva marítima que me invade o peito ensaboado.
Uma vez ou outra ligo para um parente ou amigo natalense e pergunto meio desinteressado:
- Vem cá... Vem cá... Esse barulho aí no fundo... Esse barulho... É do mar?
Sempre, SEMPRE, “esse barulho é do mar, André, é do mar”.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Escrever uma história, taí minha única ambição. Uma história que comovesse o coração secreto das mulheres. O coração das mulheres é uma trincheira alemã e não se pode descer uma trincheira com tulipas e boas intenções. Uma história mentirosa, irreal, delirante, mas que estivesse próxima o suficiente da vida a ponto de imitá-la. 
Quando a verdade, por puro capricho, atormenta a vida de qualquer artista (por mais bundão o artista), ela é como um quadro de Modigliani: pescoço alongado e olhos vazados, corpo nu e alma arrebatada.
Uma história que fosse minha e não precisasse de mim. Talvez um mito. Quem sabe a lenda de um amor medieval sacaneado pelas circunstâncias de seu tempo. Um amor que nunca aconteceu e jamais acontecerá.
Assim como os homens, as histórias que contamos tem endereço certo: o esquecimento -- única agonia e único consolo.
O esquecimento é a garota que jamais nos abandonará. O esquecimento é a estrada de ferro por onde passam todas as histórias. O esquecimento é uma canção de despedida do Nelson Cavaquinho. Um enterro sem mulatas. Um samba sem adeus.
O esquecimento e a capacidade de contar histórias são as únicas coisas que nos ligam aos deuses.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Devia ser uma noite normal. Uma noite onde o porteiro dorme, o Bonner dá seu “boa noite” e os mendigos engolem o frio das calçadas. Uma noite sem começo, mas com fim. Como se tratava de uma noite normal, também fui a normalidade: Bebi. Fumei. Conversei. Gastei o castelhano e conjurei o francês. Mas o que me atormenta fala o idioma português e está na filosofia dos corpos desconhecidos. 
E em português eu articulo pela última vez na noite essa ausência que fuma dos meus cigarros.


Eu não sei bem o que é. Acho que ressaca. Talvez o sexto dia seguido fumando que só. A caixinha de Marlboro , pequena lembrança da McLaren do Prost. Hiltons alongados como os dedos da última amante russa do último Czar, meu brother Nikolay Alexandrovich. Quem sabe a ausência de uma mulher que não sei bem quem é. Ou a falta dos amigos que conheço  até demais. Possivelmente o ducentésimo segundo aniversário da batalha de Waterloo. Vocês já experimentaram morrer em Waterloo? Nem tentem. É uma merda. Ou o Chet Baker solitário que preenche a sala de jantar onde raramente se janta. (Por falta de diagnóstico ou doença que justifique um diagnóstico, Chet Baker em What's New está fora de cogitação). Pode ter sido o excesso de anúncios de shampoo para caspa ou os congelados da perdigão. Vinho chileno ou Jaggershit, só pode. Não descarto a vitória do Flamengo, que sempre me fode a alma, ou a distância do nordeste, meu oceano e minha cicuta. Há quem diga que a culpa está nas estrelas, mas os cientistas não sabem mais que as cartomantes, e as cartomantes de hoje escorregaram na Tamburello: profissionalizaram-se.
Olha, se eu pudesse e o dinheiro desse, mataria no peito e sairia jogando , mas não é assim que a banda toca, chicos.
Acontece, meu bem. Às vezes é simplesmente inevitável, filho meu. Como proceder? Com a palavra, Manuel Bandeira: "A única coisa a fazer é tocar um tango argentino."

sábado, 12 de agosto de 2017

A MULHER MAIS BONITA DA CIDADE

A MULHER MAIS BONITA DA CIDADE

1

A mulher mais bonita da cidade. Ela caminhava. Parava. Sentava. Levantava. Voltava a caminhar. Paisagem: a porção seca de areia e o mar quando amanhece e os corais pontiagudos e os caranguejos abilolados – tudo era ela, e eu me apaixonei.
Eu tinha cinco anos. Meu pai subornava meu irmão mais velho com uma nota gorda de dez (isso em 1997) e dia sim, dia não, meu irmão me levava à praia. Ele, meu irmão, também não desgrudava dela, a mulher mais bonita da cidade. Eu era todo ciúmes. Ciúmes do meu irmão que a desejava sem amor, dos picolezeiros, dos gringos e dos peixes que saltavam para vê-la; ciúmes do sol que a assediava sem pudor e ciúmes do vento soprando em seu corpo moreno o áspero sal das falésias.  
Todos a desejavam, mas ela não dava a menor bola. Ela era a indiferença bronzeada.
Vejam: – A beleza é naturalmente indiferente. Assim como o mar não se envaidece ante a prece agônica dos afogados, ela ignorava a própria beleza e a cobiça dos homens.
Ninguém sabia uma vírgula de sua vida, nada, absolutamente nada, a não ser que era a mulher mais bonita da cidade.
Isso bastava.

2

Um toró miserável caía sobre a Praia do Cotovelo.
A praia deserta. Um pescador , sua viagem perdida, meu irmão e eu. E ela, claro, porque ela habitava todas as praias da cidade. Sem ela, a cidade era uma noite fracassada de réveillon. A cerveja acabou, as crianças dormiram e os fogos só fazem barulho e nenhuma luz.
Chovia e ela caminhava. Meu irmão buscou abrigo num quiosque abandonado. Os que não amam fogem da chuva e a chuva não perdoa os que não amam. Esses não herdarão o reino chuvoso dos céus, mas um quiosque abandonado nos confins do inferno. Por sua vez, ela permaneceu lá. Caminhando. O olhar distante divisando a costa remota da África, do outro lado do oceano e do tempo.
O que tanto ela olhava?
De repente, sentou na areia molhada que lhe sugou quadris-coxas-joanetes rumo ao núcleo desconhecido da Terra.
Se vocês não conhecem Natal ou nunca foram à Praia do Cotovelo, atenção: quando chove, toda areia é movediça e toda tristeza é pouca.

3

Em meio à chuva, eu a observava. Maravilhado. Quase às lágrimas. Não chorei porque as crianças só choram de dor ou despeito, e não era dor, tampouco despeito, o que sentia.
Se Galileu Galilei encontrasse a mulher mais bonita da cidade caminhando pela praia achatada, diria: “A Terra é plana”.
Em seguida, acenderia uma fogueira e guardaria em chamas o segredo de sua ciência.

4

Nunca choveu tanto. Meu irmão veio me buscar. Cortesmente, o mandei pentear macaco. Ele não gostou muito da ideia e avançou com aquele olhar animalesco que os adultos lançam quando desafiados por um moleque petulante. (No meu caso, substituam petulância por paixão pela mulher mais bonita da cidade, e dá na mesma).  
– Vá pentear macaco, seu ditador da vida dos outros – repeti uma vez mais e corri, corri, corri como jamais correu o jamaicano Bolt para o recorde mundial. Corri como só uma criança consegue correr. Quando querem, as crianças são mais rápidas que qualquer antílope africano fugindo da morte.
Enfim: corri como nunca e escorreguei como sempre. Foi quando percebi que quanto mais corria, mais me afastava dela.
Apavorado, voltei. Ela não estava mais lá. Ela nunca mais esteve lá. E aquela foi a última vez.

5

A única beleza que não termina em tragédia é aquela que tem consciência de si.
Um vulcão só explode porque ainda não se descobriu vulcão. Se soubesse, confessaria os traumas de sua infância paleolítica no divã rochoso da psicanálise vulcânica.
Os pardais e as gaivotas não se atiram em queda livre. Na existência aeroespacial dos pássaros, não existe suicídio.

6

Estávamos no trapiche da Praia de Pirangi, meu irmão e eu, disputando uma partida de arremesso de pedras ao mar. Era impossível vencê-lo em condições normais, a não ser quando minha pedra era muito grande e a dele muito pequena. Não bastasse a desvantagem física, meu irmão sempre me deixava com as piores pedras.  
Um amigo do meu irmão o avistou e correu até o trapiche. Estava animado, eufórico com a notícia que trazia. O infeliz mal nos alcançou e foi logo abrindo o berreiro:
– Sabe aquela morena? Encontraram ontem. O mar cuspiu. Só reconheceram pela tatuagem. Até agora não apareceu família, nada, porra nenhuma. Esquisito, né? Tão dizendo que se matou. Se jogou no mar, a louca. Bonita daquele jeito, mas sem um pingo na cabeça.  Eu bem que desconfiava, eu bem que desconfiava... Calada daquele jeito, coisa boa não era.

7

Meus amigos se lançam ao mar. São sete e brincam com uma bola de vôlei. O mar está calmo e o sol é o termômetro das ondas. Se a vida não fosse uma besteira, eu brincaria de bola. Se a vida não fosse essa, juro por Deus, eu jogaria bola com meus amigos.
Permaneço sentado exatamente onde ela esteve... pela última vez. É questão de tempo: um dia o mar terá consciência de si. Consciente, se arrependerá. Arrependido, recuará. Recuará até que a cidade do Natal adquira dimensões continentais.
Então, construiremos uma ponte ligando a Praia do Cotovelo à costa da África.
Será a maior ponte da história da humanidade. Algum imbecil batizará com nome de político a maior ponte da história da humanidade, mas popularmente será conhecida como: ESTRADA DOS AFOGADOS.

8

Ninguém jamais desconfiará que ela foi/é a gênese dos mares. O estopim do mundo do futuro. A última musa do Atlântico Nordeste. Aquela que foi engolida pelo mar. Sem família, sem sossego, sem identidade. Apenas ela e a sinfonia imantada das ondas. A mulher mais bonita da cidade.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A primeira morte a gente nunca esquece



Hoje

De repente eu descubro que tudo se trata do velho. Vinte anos ontem da luta Tyson vs. Holyfield. Meu pai era aficionado por boxe, quando ainda nesse mundo havia meu pai e o boxe. Quer dizer, meu pai e o boxe ainda existem, mas os últimos vinte anos aproximaram meu pai e o boxe da morte. Uma aproximação irremissível, porém justa. Meu pai e o boxe se recusaram a fazer parte do séc. XXI. Eles tem – ou devem ter, eu imagino – seus motivos para se refugiaram no passado que os criou e por fatalidade da vida recusou-se a acompanhá-los.



Antes

 O velho passou uma semana falando da luta. No almoço, socava a mesa e dizia:

– O Holyfield não tem chance. Até Jesus foi derrotado uma vez. Duas, impossível. O Holyfield não tem chance.

 O Tyson vinha de uma derrota para o canalha Evander Holyfield. O Tyson era dono de um cartel invejável. O Tyson era o messias que o Deus Muhammad Ali havia prometido ao mundo. Isso o Tyson ainda não sabia, mas a exemplo do verdadeiro messias, ele seria brutalmente assassinado e renegado por aqueles que mais amou. O Pilatos da vez chamava-se Mitch Halpern e usava gravatinha borboleta, à moda dos velhos juízes da WBA. Novamente o Tyson não sabia, mas o dinheiro e o talento são duas mulheres belíssimas que dão para o primeiro cara que encontram.

Até aquela noite, Mike Tyson venceria Aquiles, Spartacus, Joe Lewis, Tarzan, qualquer um. Mike Tyson esmagaria Davi, o rei cruel dos judeus, e nocautearia Golias, o gingantão filisteu que não sabia dançar à la Sonny Liston. Mike Tyson era o que dizia o que tinha a dizer da maneira mais rápida e direta – o Ernest Hemingway dos ringues. Mike Tyson tinha um caso com a eternidade e definitivamente ele não seria preso ou morto por isso. A eternidade o acolheria, assim como o acolheu sempre que calçou as luvas e se deixou consumir pela fúria.



Durante

Quando da luta, o velho acordou meu irmão mais velho, que por sua vez me acordou. O velho fez café e fumou quantos cigarros sua ansiedade exigiu. O velho nos pediu encarecidamente que fizéssemos – meu irmão, eu e Platão, o cachorro da casa – silêncio.

– Esse é o tipo de coisa que a gente assiste em silêncio, vocês entenderam? Vocês estão vendo esses animais que pagaram uma fortuna para assistir a luta nas primeiras cadeiras? Vê como eles gritam e urram? Vê como é ridículo? Só um insensível, um verdadeiro ignorante, é capaz de gritar enquanto uma luta desse tamanho acontece. Onde eles pensam que estão? No Coliseu? Esses animais pensam que o Bill Clinton é o Júlio Cesar, percebe? Eles precisam de uma aula de como fazer silêncio. Se eu soubesse inglês, eu até poderia ensiná-los a ficar em silêncio.


A Luta

A luta começou e o Tyson mais parecia uma múmia. Apático, lento, desgovernado, inábil etc. etc. 

O primeiro round se foi e o Tyson continuou parado, incapaz sequer de ultrapassar a linha de cintura. Meu pai e meu irmão estavam embasbacados – silenciosamente embasbacados. Era um milagre às avessas. Um milagre do demônio contra as forças do bem, contra o Tyson. O segundo round veio e Evander Holyfield acertou um direto na barriga do Tyson. Tyson avançou e caiu nos braços do Holyfield. O canalha, então, passou a deferir cabeçadas na testa do Tyson. Mitch Halpern, nosso Pôncio Pilatos, lavou as mãos.

Quando o grande Mike Tyson abocanhou a orelha do canalha Evander Holyfield, meu pai rompeu seu voto de silêncio e praguejou como um daqueles "animais que pensam que o Bill Clinton é o Júlio Cesar". Meu pai havia apostado uma grana na vitória do Tyson.



Depois

Meu pai se refugiou no quintal. Não havia sentido que um lutador do quilate do Tyson fosse capaz de tal. O velho estava inconformado. Inutilmente, meu irmão tentou consolá-lo:

– Calma, pai, o Tyson vai derrotar o Holyfield um dia.

– Não fale besteira, garoto. Você ainda não conhece a vida. Um dia você vai aprender que um lutador como o Tyson é incapaz de lidar com a derrota. Isso que você acabou de assistir foi a morte de um homem. Vá se acostumado. Eles morrem todos os dias e dê graças aos céus que eles morrem.

Meu irmão e eu entramos. Fazia um frio insuportável e nós precisávamos dormir. Mesmo quando um homem morre, mesmo quando alguém tem a orelha arrancada, as crianças precisam dormir. E nós dormimos.


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Ela sorriu como um animal suado dentro da noite. Regou com vinho o cansaço do corpo. Trouxe-me o cigarro consumido pela metade. Apoiou-se no parapeito da janela e como uma estrela esquecida do rádio murmurou uma canção doce e imperceptível. Ligou a TV. Desligou a TV. O mundo, outra vez, dispensável e colorido. Disse "agora eu preciso de música e creio que você também", e a música se fez. De joelhos, pronunciou sua oração libidinosa e repetitiva. Depois de tudo, seu corpo amolecido de animal resgatou a pureza dos anjos que só veem os loucos e os poetas. Sonolenta, dançou. Quando saiu o sol da masmorra noturna de poeira e calor, pediu-me as horas. Rapidamente, abandonou o universo finito do quarto e voltou com suco, pão e o jornal mal escrito que ninguém mais lê, exceto o homem velho e insignificante que há em mim. "Preciso dormir", ela disse. "Durma", eu respondi, e como se seu espirito se desprendesse do corpo para percorrer solitário um caminho de alucinógena felicidade, ela dormiu.
Agora sou eu o animal e disputo com a insônia a possibilidade do sono, do sonho e da felicidade que não existe, nunca existiu, e que nós grotescamente despertamos em sonho. É uma luta vil, e a insônia me vence. Permaneço acordado... e escrevo.

domingo, 21 de agosto de 2016

Durante muito tempo tive uma única inspiração e toda minha vida foi um ensaio mesquinho e desesperado, uma fome, uma sede, sei lá, toda minha vida foi a tentativa fracassada de abandoná-la, ela, ela, a inspiração, ela, Natal – a cidade dos saqueadores, dos padres, dos cafajestes sem fé, dos maconheiros, das castas blindadas, do oceano infinito e dos aviões que voam com o combustível nas últimas e dos cavalos de aço que desfilam pela Av. Prudente de Morais. Vai, sim, me deixa ser franco: por que me atormentas, Natal? Por que me persegues como o espírito torpe da vítima persegue o assassino? Por acaso outros também não te mataram, outros também não fodem contigo e somem no dia seguinte? Gastei quatro relógios fugindo de tuas esquinas, Nova Amsterdã. Quatro  relógios me esquivando da paisagem. Becos e vielas de um passado faminto. Por um segundo, juguei que te havia superado. Ledo engano. Hoje, exilado, esqueci-me que te havia esquecido, e tomei carona na recordação de tua vasta cabeleira esparramada sobre as dunas de indiferença e calor. Sabe, Natal, penso que ainda há muita vida em ti. Vida em teus quadris esburacados. Vida em teus calvos morros de areia. Vida nos de meu sangue que há quatrocentos anos agonizam presos à correnteza do hálito marítimo. A promessa é de mais quatrocentos anos de amor, angustia e esquecimento. Oh, cidade fantasma, lancei ao mar meus sonhos de porcelana. O estômago do mar é um baú de sonhos e afogados. Cedo ou tarde, mandarei ao prelo o livro que te devo. O livro que prometi aos exus de tua última encruzilhada. O livro que me roubou quatro anos e uma dezena de amigos e um coleção de vícios. O livro que preciso para seguir em frente – seguir em frente, infelizmente, significa outro livro. O que são cem mil palavras na vida de um infeliz, me diz, doce senhora? Falta pouco. Mais um mês, y cambio de religión. Depois, Natal, te farei novamente realidade. Depois, depois...

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Sorte de quem escreve o mesmo texto a vida inteira. O tempo é um funcionário público cuja repartição é o Caos. O tempo, diferente das amantes que somem no meio da noite, nunca sacou o batom rosa-choque e escreveu uma balada de despedida no espelho do banheiro. O tempo não sabe de cor nenhuma canção do Bob Dylan. O tempo nunca leu Os Irmãos Karamázov sentado no último banco do último ônibus Natal-João Pessoa. O tempo nos levou à cruz, mas também foi a mão invisível e pesada que nos trouxe ao mundo. Meia dúzia de milhões o chamam de Deus. Outros, em vão, tentam relativizá-lo. Semana passada, ganhei um aquário. Comprei três peixes e um mergulhador de plástico. Ah, se eu pudesse alimentar os peixes do aquário da sala com o tempo desperdiçado. Oh, se o mergulhador de plástico preso ao universo não definido do minúsculo aquário fosse capaz de uma poesia. Urge o envio de duas garrafas de cachaça via sedex para um velho amigo, uma de minhas setenta e sete promessas pendentes. Urge terminar o livro que há dois anos e cem mil palavras depois me persegue pelas esquinas. O livro que está nos lábios rachados das mulheres goianas. O livro que me acompanha à tarde, à noite, e à madrugada violenta ele bebe e fuma e canta como se o mundo fosse apenas ele e seu gosto musical. O Nordeste, vocês não sabem?, é um estado de espírito hipnotizante e brutal. Cada parágrafo de meu livro é um amigo esquecido. Cada capítulo é um amor sepultado numa geleira de sol e calor, fome e delírio. Pirangi, Cotovelo & Ponta Negra: essas são as putas que tentaram me afogar e fracassaram. Se há um bonde chamado desejo, há uma praia chamada desolação. O egoísmo, certamente, é o único vício do qual ainda não me recuperei. 


domingo, 5 de junho de 2016

Piazzolla, cretino, quem te disse que é sagrado o tempo? Piazzolla, mira: envelheci como vinho esmaecido no porão de um navio sepultado, entre fantasmas nordestinos e tubarões obesos. Piazzolla, meu querido amigo, se Buenos Aires ainda existisse, palavra de honra como tomaria o primeiro avião Congonhas-Ezeiza. Chegando lá, uma linda dançarina argentina, um coma alcoólico e quem sabe um último pedido. Mas Buenos Aires é passado. E o passado, em se tratando de América do Sul, é mais um livro de traças na prateleira empoeirada. Portanto, está fora de questão. Piazzolla, quem sou eu para te ensinar qualquer coisa , o mais velho dos cachorros velhos, mas aqui vai: no tango e na vida, felicidade é supérfluo.Felicidade, por aqui, só para disfarçar a tristeza e olhe lá. Assim no tango como no céu, a tristeza nossa de cada dia nos dai hoje. Abração, Astor – até que a sorte nos separe.

domingo, 1 de maio de 2016

Preciso, e o quanto antes, da emoção de criança quando encontrei “Lumar”, o Tubarão-cadáver ainda intacto e prestes a ser devorado pelo tempo – Cotovelo, 1998. Lumar foi como resolvi chamá-lo. Fui uma criança prodigiosa em batismos. Todavia, não vem ao caso. Preciso, se não for pedir muito, da razão que perdi – a troco de quê, ainda não descobri – quando lancei meu primeiro-único-e-fracassado livro no distante ano de 2010. 2010 reside numa viela do passado triste, escura e inabitável. Nelson Rodrigues e a velha frase: “Nada mais distante que o passado-recente.” Em 1998 eu me infiltrava entre os poucos livros de meu pai, sorrateiramente guardados na estante da sala, como um móvel inútil a enfeitar o tédio gelatinoso da casa, e bem... eu já sabia ler e lia/li em letras garrafais “Nelson Rodrigues, Literatura Comentada”, e aquele livrinho foi o brinquedo mais precioso de minha infância. Eu era como um pequeno bezerro hipnotizado pela imagem do Nelson – gordo, macilento e de suspensórios, com um cigarro na mão, fazendo cara de sério para eternidade. Aquele homem desconhecido e aquele nome “Nelson Rodr...” tinha algo a me dizer, mas eu ainda não sabia o quê. Não muito tempo depois, resolvi investigar o que havia para além da imagem do autor. Abri o livro. Li o livro – no banco de trás do Chevette verde de meu pai, escondido dos habitantes da casa. E o resultado: Álbum de Família, Anjo Negro e Senhora dos Afogados – minha introdução à literatura foi através do Nelsão e, ironicamente, do teatro. Sem sombra de dúvida, aquilo mudou minha vida – não sei se pra melhor, mas mudou. Em 2010, quando do lançamento do meu Oxum da rua de trás, outra de suas frases me fisgou de jeito e me acompanha desde então: “O artista quer ser gênio para alguns, e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor”.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O primeiro impulso de um jovem escritor é o sofrimento. Sofrem quanto mais duvidam e se entregam a um mundo libertino endossado pela solidão. Sentem que estão à parte do mundo. Revoltados e solitários, buscam conforto na filosofia, na poesia, nos grandes romances, no quer que imite a vida a ponto de transformá-la. Aí, dá-se o confronto definitivo do jovem escritor com o mundo incompleto que é seu primeiro inimigo mortal. Em tudo, a solidão faz-se presente. Ela, a solidão, é o sol da madrugada.
O segundo impulso do jovem escritor é transportar-se para uma terra escura e risória, uma ilha de ilusão apartada do mundo tépido que o gerou. Funda a gênese da razão em terreno íngreme – num sopro, tudo pode desabar. Por outro lado, os grandes devaneios – estes que nos salvam do tédio ordinário da vida – tem por base os melhores alicerces, escorados que são pela essência divina que há no homem, em qualquer homem, de criar e gozar da criação. Assim o faz o jovem escritor. A fim de conceber uma realidade estritamente pessoal capaz de salvá-lo da ignorância e da solidão, ilude-se na tentativa de estancar a dor. O homem que se abstém de criar é uma criatura mutilada. O jovem escritor, egoísta como um anjo preterido por Deus, percebe, antes de tudo, que sofrimento e criação pertencem ao mesmo processo excruciante. Para depois da criação e do gozo, a morte. Antes da morte, tudo.
Naturalmente, as pessoas carregam a ânsia de contar suas histórias, não interessa o quão desinteressantes elas sejam. E quando elas começavam, é impossível fazê-las parar: nos cafés, nos bares, nas ruas, nos leitos de hospital, nos manicômios. Alguns entre milhares de psicopatas, motoristas, ex-presidentes, advogados falidos, por mais patéticos, descobrem-se escritores. Me parecem garotinhas recém-menstruadas: não se cansam de admirar o próprio sangue frouxo e acreditam que a partir daí tornaram-se mulheres completas. Uma vez dentro do baile, promovem-se com a maciez dos publicitários de sabão em pó. Vendem suas ideias como artigos de primeira necessidade, solventes da impureza humana. Ora, um escritor não pode vender desinfetante, considerando que é um negociante prático da sujeira do mundo. Um homem que não alimentou os porcos com a própria carne não pode dizer que conhece o chiqueiro.
Roubei uma quantidade admirável de livros da biblioteca – mais tarde percebi o quão nefasto é assaltar uma biblioteca, mas já era tarde. Roubava pra abater a mensalidade cara que meus pais desembolsavam. Já que eu não fazia uso do sábio conhecimento descartável dos professores, nada mais justo que compensar aumentando minha biblioteca particular. Li pouquíssimo Jack London antes de roubar todos os dez exemplares da obra do London disponíveis na biblioteca – não sei muito bem porque escolhi, entre tantos livros, a obra do London sem nunca tê-lo lido. Atração magnética, talvez. Uma vez concretizado o furto, li e reli apaixonadamente a obra do grande mestre Jack London, esse que atravessou a América de carona nos velhos trens e passou fome e mendigou e foi ao Alasca e lutou sozinho contra oito piratas africanos e morreu empanturrado de uísque de péssima qualidade. Tive a impressão, um tanto doentia, de que passara a conhecer aquele homem mais do que a mim. Ou, pelo menos, os personagens de seus livros. Tratava-se da mesma hipnose insustentável de imaginar-me encarnado em outra pele, outra vida – no entanto, entre essa vida e a outra, apenas o limbo do desejo, das recordações forjadas, urdidas em devaneios emborrachados. Tudo falso como uma nota de trinta. Afinal, literatura não é isso? Não é a mentira dita de maneira sublime a ponto de tornar-se verdadeira? Porquanto, satisfazia-me com a falsificação. Inventar-se ou descobrir-se, dava na mesma, contanto que algo de novo pintasse no front. É assim, intercalando falsificações, que se dá a invenção de cada homem. Comigo não foi diferente.
Os homens da prateleira adquiriram a importância do próprio Deus. De um Deus acessível que não sonhasse dia e noite com bajulação. De um Deus bondoso cuja única vítima de sua invenção fosse ele mesmo. Prisioneiro e carcereiro do mesmo sonho.
Só encontrava verdadeiro prazer na leitura e na escrita – e na maconha, a divina companheira. O resto era o intervalo entre as duas coisas. Não obstante, a necessidade me levou ao trabalho, à disciplina. A necessidade me levou a enxergar, insipidamente, cada banalidade e desgraça contida na vida como uma dádiva comestível. A necessidade é o motor que move os homens para o desconhecido. E lá estava eu, escrevendo duas mil palavras por dia por pura e resoluta necessidade. Pela primeira vez, a dor e o lixo da vida me pareciam um presente. Estava, também, disposto a romper com a dor e o lixo. Este rompimento equivalia a reter em mim mais dor e mais lixo. Evoluir não é abandonar os problemas, mas aperfeiçoá-los – com o máximo de estoicismo que nossos ombros frágeis possam suportar. Não acreditava, e até hoje não acredito, que a coragem tenha se manifestado em minha carne senão através da caneta e do papel.
Ela, a literatura, era, de uma vez, o mundo, a vida, a beleza e o infortúnio. Era a ilusão de ter a verdade em mãos, como um sabonete molhado e escorregadio, cantando no chuveiro.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Morreria – quixotada clássica – tranquilamente por amor. Morreria satisfeito e resolvido, como quem acaba de almoçar e acende um cigarro. Morreria de frio no Chile e de infecção alimentar no México, se em Santiago e Guadalajara o amor se encontrasse. Morreria plasmado por mil demônios e anestesiado no ombro das ondas, se no inferno e no mar alguém me confessasse uma tormenta de amor.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

De Ponta Negra à Redinha

Como uma mulher esparramada sobre a cama a espera do amante, assim é Natal. De Ponta Negra à Redinha, duas conduções e um entra-e-sai de biquínis, bêbados, ambulantes, crianças etc. Da janela, é nítido e até ridículo: pouca coisa mudou. Penso em minha avó, que viveu na Redinha nos anos 60 e que há vinte, trinta anos não faz esse caminho. Enclausurou-se em Parnamirim – e lá morrerá. Certamente, não reconheceria as ruas que deixou, não reconheceria o trapiche em ruínas da velha praia e acharia a ponte Newton Navarro uma extravagância visual.

De Ponta Negra à Redinha, parando na Ribeira apenas para alongar o caminho – desejoso que ando de todas as ruas que guardam um pouco de mim –, Natal parece ter se perdido dentro dela mesma. Durante os três anos e quatro meses que passei fora, fiz do Centro e da Ribeira o que de mais puro e impermisto havia em mim – como o cenário velho de uma peça que não sai de cartaz. Conheci cidades, conversei com o povo desconhecido dessas cidades desconhecidas, mas nada, absolutamente nada, me conduz ao passado como as ruínas abandonadas à morte da antiga Natal.

Descendo a Junqueira Aires, atual Câmara Cascudo, imagino quantas tardes meus bisavós, avós e pais suaram e sofreram enquanto atravessavam essa rua – Quantas, afinal, meu Deus? – Quantas vezes sob o mesmo sol invencível? – De frente para este oceano enraizado no horizonte – Bebendo a água do mesmo rio – Amando as mulheres da mesma raça – Todas as mulheres desta terra que são a mesma – No final das contas, acabaremos no Alecrim.

Em Ponta Negra, acolchoaram de pedras o calçadão. A erosão e a maré têm fome, uma fome inesgotável. À primeira vista, a engenhoca de pedras está funcionando. Ao meu lado, um casal de turistas. Pelo atropelo de Je Veux e J'aime e Merci e os biquinhos intermináveis e redondos, são franceses. Dois franceses pálidos em sua primeira noite em Ponta Negra. O rapazinho (vinte anos, se muito) agarra a namoradinha pela cintura e gasta com ela um bom verbo. A namoradinha, assim perdida de si, retribui o abraço com um beijo demorado ao luar. Só há beleza nos clichês para quem ama e é amado. Ah, se eu falasse francês... seria um idioma, não uma solução.

Na Redinha, um mulatinho de seus dez, onze anos, vende picolés. Grita no melhor potiguara aportuguesado sabores, preços e, entre um e outro, avisa que faz calor na terra. “Olha, olha, olha o picolé... Enfrente o sol com um picolé, meu boy... O sol é foda... Mas eu tenho picolé... picolé, meu boy...” Compro um de cajá e lhe deixo com o miúdo do troco. Agradece e continua sua marcha infantil de picolezeiro, pois o calor que combate é o mesmo que lhe põe de comer.

De Ponta Negra à Redinha, Natal é uma, duas, três, quatro cidades distintas. Onde começa a ilusão, termina a mentira. Enleado ao mar da Redinha, despeço-me de meus mortos. Saúdo-os como se fossem eles minha pátria, minha cidade, minha religião errática – saúdo-os porque sei que os mortos que aqui pereceram, cedo ou tarde, voltarão para nova vida em Natal. De frente para o mar, exilado em meu próprio chão, nunca um poeta e um verso me foi tão real quanto “O Natal na terra!” de Rimbaud. 

Para além das praias e dos montes, Rimbaud, excederemos os demônios, os tiranos e a superstição. Tuas vertigens continuarão fixadas, andarilho de Charleville, e teus silêncios e noites percorrerão em sonho a cidade do futuro solapada sobre as dunas movediças do passado.

Sento na areia quente da praia e me pego sem forças para continuar minha Natal Revisited – Natal que não é Lisboa, mas que “Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.” Duas doses de cachaça são o suficiente para me restabelecer. Por via das dúvidas, desço três, porque é melhor remediar do que prevenir. Restabelecido, deixo que a paisagem me consuma. Meu espírito é nostálgico porque fraco. Meus erros andam tão fáceis de entender que acertar parece não fazer sentido. Fatidicamente, meu esgoto corre para o mar. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Noite de Ano

(LIVRO)
Escreva amanhã de manhã como se fosse a última vez, meu amor, ela cochicha. Beba, fume, coma, cante como se o mundo estivesse para morrer. Até porque hora ou outra um viaduto de impossibilidades desabará sobre nossas cabeças e você só se dará conta do atoleiro que se meteu quando for tarde demais, e é sempre tarde demais, eu tô cansada de saber disso. Tarde demais para que, eu pergunto, e ela responde Tarde demais para dar o fora de tudo, mas que se dane, hoje eu só quero relaxar e ver os fogos explodirem no céu, você sabe o quanto amo fogos de artifício, você sabe que eu me amarro em tudo quanto é artificial nesse mundo,  e estou para nascer hoje à noite uma vez mais, uma vez mais e não pela última vez.  

Ela ameaça chorar, porque quando bêbada ela arranja um motivo duro e impossível para chorar, e aí se debate, grita, e duas doses depois já está feliz e acesa novamente, mas dessa vez ela não chora, e nós nos sentamos no sofá branco rasgado de três anos de uso e fodas e sintonizamos Cartola como uma britadeira sacolejando as paredes do apartamento, e também para que as pessoas lá fora saibam que hoje estamos felizes, ou pelo menos que maquiamos um clima qualquer de felicidade – e as luzinhas de Natal ainda piscam amarradas a árvore de palitinhos e pano dourado que ela mesma confeccionou.

A champanhota vagabunda não chega para onde planejamos ir, e logo passamos para Vodka com Pepsi, torramos um quarto-zagueiro, daí para Vodka pura um pulo, e de Cartola para Elis Regina e de Elis para Bob Dylan, sempre ele, o mesmo Dylan que cantou Like a Rolling Stone também disse Leave your stepping stones behind, something calls for you, forget the dead you've left, they will not follow you. Que em tradução aleatória para o português vulgaris quer dizer Deixe suas pedras para trás, alguém o chama, esqueça os mortos que você abandonou, eles não o seguirão.

O mundo, ela me diz enquanto levanta o terceiro copo de Absolut, o mundo vive uma merda de decadência romântica, e o que as pessoas são em suas socialnetworks de araque é muito do piegas, chato, pedante, malcheiroso, e aí ligamos a TV para conferir o sorteio da mega-sena e definitivamente não estamos milionários. Rasgamos os bilhetes de loteria, atiramos o papel picado pela janela e ainda da nossa janela, nono andar, Rua 18, Centro de Goiânia, são dez e dez da noite e podemos ver um mar de gente pobre e calcinada rasgando a Araguaia em direção à Praça Cívica, onde o show de fogos acontecerá, e todas elas tão solitárias de si, gente desse solo arruinado do virtuoso Estado de Goiás, essa terra ondulada e louca que eu aprendi a amar – e é impossível não pensar que faltam apenas quinze dias para eu me mandar daqui.

Não é fácil abandonar três anos juntos vivendo sob o mesmo teto, dividindo a cama, a alucinação incoercível a par de todas as iguarias possíveis, a dor, o tédio, a dança e, claro, as contas. Não é fácil abandonar e por isso mesmo, por não se tratar de uma tarefa fácil, é que vale à pena. Bem, cresci numa casa de nordestinos pegajosos e nunca lidei verdadeiramente com a solidão. Quer dizer, sempre fui um solitário, mas nunca estive só. Agora, é uma questão de tempo. Basta sentar e esperar.

Descemos a Av. Araguaia, falta precisamente um minuto para o ano novo estourar na consciência das pessoas e os fogos de artificio pintarem o céu sem estrelas da capital do pequi, estamos abraçados, eu com uma garrafa escorregadia de espumante na mão e ela tentando ligar para os pais antes que o ano novo seja oficialmente decretado pelas autoridades do mundo, mas ela não consegue falar com os pais e a garrafa gela em minhas mãos, faltam agora alguns segundos, nos olhamos, nos beijamos, e vivemos a cena que ao longo da vida assistimos duas mil vezes repetida no cinema – o locutor do espetáculo puxa a contagem regressiva, dez, nove... cinco, quatro... três, dois, um... e o ano novo chega – ah, pobres dos que  tem consciência do fim ou do começo de qualquer coisa – a esses chamamos profetas e merecem todos, sem exceção, a fogueira, a guilhotina e por que não um caso de amor fracassado? Onde está o cotidiano, ela me pergunta, onde está o cotidiano a essa hora da vida para nos salvar do fim, amor?

Sim, meu bem, não pude e/ou consegui dizer antes, mas o faço agora: o cotidiano não existe, o que há é a inércia dos nossos sonhos ultrapassados, o convite para viver a vida que não planejamos – pois nenhuma vida é digna o suficiente para ser planejada. Improvisemos, meu amor, improvisemos como o comediante que esqueceu o fim da piada, improvisemos porque a vida é uma anedota velha, gasta, sem graça, improvisemos porque viver é essencialmente sofrer, e porra, uai! não foi você quem me apresentou toneladas de livros budistas e indianos e teorias do amor impermanente e tântrico e cósmico e a putaqueopariu na esperança de que a ressaca não nos encontrasse na manhã seguinte?

Dentro do taxi, rumo à festa de ano novo de um amigo em sua casa nova, quintal gigantesco, bebida e carne, e as mesmas velhas pessoas que abraçaremos como se fossem outras, Ana é só alegria, sorri baratinada para a cidade da janela do carro e eu me contorço todo de êxtase movido pelo álcool, pelo clima, situação, hora, data, local, tudo, e damos a mão enquanto o taxista toma o caminho mais longo e confuso – e o que seria de mim se não fosse enganado uma vez mais pela vida, agora condignamente representada pelo taxista em sua odisseia contínua com o taxímetro?

O taxímetro aponta trinta e quatro reais e já estamos no Jardim América, Viviane nos recebe, abraço Rodrigo e saco o charuto cubano Romeo y Julieta que comprei para ele, ele me dá uma caneca do Corinthians que aliás esqueci em sua casa após nove ou dez doses de vodka com energético, e sentamos na última mesa vaga da festa, em frente à churrasqueira comandada por um carioca amigo de Rodrigo que teve o pai fuzilado por cinco tiros de tauros na porta de casa, ele faz questão de dizer, cinco tiros de P.T., meu pai morto sem chance, e ele, o carioca comandante da churrasqueira, o filho do pai morto, esteve em Natal, sim, esteve e adorou a cidade e nunca viu coisa mais bela, assim são os turistas no buraco solar onde nasci, e ele me chama de Potiguar e eu me sinto verdadeiramente lisonjeado, afinal o Rio Grande do Norte é praticamente a capital do Brasil, e conversamos sobre a praia de Genipabu, dromedários e passeios de Bugre, e a vodka corre, corre solta em meu sangue coalhado, Ana reclama da areia molhada do quintal que manchou seu salto de camurça bege, minha família liga e eu choro e grito e xingo, falo com minhas três sobrinhas que ainda não sabem porra nenhuma da vida – e é por isso que as adoro, por não saberem porra nenhuma da vida –, falo com meu irmão mais novo que é como o filho que eu não quero ter, e a festa segue, segue com a banda de Rodrigo no palco armado no começo do alpendre gigantesco e eles executam sutilmente: “Se alguém por mim perguntar, diga que só vou voltar, depois que me encontrar.”

As coisas mudam de lugar, mas Cartola continua o mesmo. Cartola que aos cinquenta anos lavava carros em Ipanema. E aos cinquenta, meu amor, onde estaremos? Em quais ruas tristes e salgadas lavaremos nossos carros? Se disser que espero estar morto, minto. Não é de hoje que só digo mentiras a respeito da morte. No entanto, não interessa. Há sempre uma muleta ao alcance de todos e as minhas estão na prateleira, e hoje, primeiro de janeiro, minha muleta é Rimbaud, que longe de Deus pode anunciar: “Na imensa mansão de vidros ainda gotejantes, meninos de luto admiram imagens maravilhosas (...) Tudo é um tédio! E a Rainha, a Feiticeira que acende sua brasa num pote de barro, não vai querer jamais nos contar tudo o que sabe, e que nós ignoramos.”

Em frente à churrasqueira, Ana e eu nos reconciliados com o mundo. Por um instante, ela lembra que eu estou indo embora e chora (o que, ultimamente, tem acontecido a cada dez minutos), balbucia como pode que me ama e chora novamente. A maquiagem que ela demorou meia hora em frente ao espelho bolando já foi para o beleléu. Escorre como água suja de seus olhos manchados. É esquisito pensar que se dormimos quinze noites separados ao longo de três anos, foi muito. Se passamos um único dia sem nos falar, foi demasiado. E agora planejamos a ausência total um do outro. Ela com nosso apartamento que será só seu. Eu com minha vida que agora será só minha – só minha até que Deus me anistie do compromisso de consciência e sofrimento e humildade tacanha que fantasio para mim.

O dia chega às sete da matina, estamos nós dois e mais cinco pessoas de uma festa de quarenta na última mesa de sobreviventes de vodka, uísque e cerveja quente, e Ana já cantou no improviso Ovelha Negra, Levava uma vida sosseeeeeegada, gostava de sombra e água frescaaaaaa, Meu Deus, quanto tempo eu passeeeeei sem saber,  e eu Tudo Outra Vez, Até parece que foi ontem minhaaaa mocidade, com diploma de sofrer de outra universidadeeeee, minha fala nordestina, quero esquecer o francês...

Dizer o que se pensa é uma arte fácil – ainda que não seja grande coisa. Basta falar instintivamente, utilizar-se das palavras como companhias indistintas a vontade e ao pensamento. Dizer o que se pensa é a arte do homem que não tem nada a perder – e se tivesse, de que adiantaria manter o que se tem em nome de uma falcatrua impossível?

Voltamos pra casa levados novamente por um taxista que prefere o caminho mais difícil. Ah, longe de mim me queixar dos caminhos que os outros escolhem em meu nome. Antes do banho, fodemos a primeira foda do ano que é sempre a melhor. Cansada, desaba ainda vestida na cama e esquece o chuveiro. Linda, irresistivelmente linda.

Me sinto revigorado e atônito da vida que me espera como uma cortesã mascarada – não me esqueço do banho e vou para ele com uma taça de vinho passado que encontro na geladeira. A água está fria. O sol já alto me lembra que há vida lá fora, vida desconhecida nas avenidas, ruas, becos, vida que continuará aconteça o que acontecer comigo, com Ana, com os amigos que há tempos não encontro e tão cedo não reencontrarei – inclusive convosco, leitor, inclusive convosco que é como um fantasma camuflado na luz evanescida do mundo. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Meus dias em Goiânia estão chegando ao fim. Escrevi, reescrevi e trescrevi esse mesmo lero ao longo das ultimas semanas. Exaustivamente, reproduzo cenas, abraços, despedidas, imagens, frases, sons, impressões que dizem mais do passado que do futuro-provável. A única história que me interessa é a minha em Goiânia. Em minha cabeça só há espaço para o turbilhão que essa cidade foi e o que ela será para mim depois de minha partida. Que as coisas continuam com ou sem nossa presença, que as pessoas seguem adiante e as paisagens e os carros, é o óbvio e será sempre assim. O importante é como o passado nos possui, ainda de sua distancia. 

Prestes a deixar a prisão, penso-a como nunca dantes. Alcatraz é Goiânia. Não possuo estômago, nem disposição para correr atrás de outro assunto. É assim na vida, é assim na escrita. O que significa que dando no pé ou não é sobre isso que escreverei... fatidicamente. É incrível que durante dois anos e meio acoplado aos arranha-céus GYNianos e à noite pura e selvagem e às pessoas... eu tenha escrito, essencialmente, pouquíssimas páginas sobre o que se passou comigo aqui. Comigo fumado da cabeça aos pés. Comigo com o bolso cheio. Comigo repleto de impressões. Comigo ao lado de Ana. Comigo estorricado de sol. Comigo paranoico. Comigo fodido e mal pago... Meu olhar estava sempre voltado para a ficção, para o passado (em breve, lá estará minha exuberante e caustica Goiânia), para o que, então, eu considerava inalienável.

Sinceramente, me pergunto: com o que me preocupo mais: A vida ou a escrita? Viver para escrever, como  disse o outro? Escrever para continuar de pé, atento, desengonçadamente preparado? Viver para que, uma vez escravo da vida, ela forneça ao escritor material verdadeiro e autêntico? Escrever para que a vida não se amofine como um vira-lata cansado de comer do lixo? Penso que é impossível separar uma da outra, lalalá. Mas são duas coisas distintas, por mais que tentemos juntá-las como irmãs siamesas que comem do mesmo prato. 

A vida, quando passada aqui no papel, quase nunca é insuportável. Os acontecimentos adquirem novos ritmos, as sombras ganham corpo, os olhos alcançam o que raramente percebemos quando em ação. Ao passo que Ao Vivo, só para manjar Belchior, é muito pior. Sofrimento e felicidade andam de mãos dadas, o mesmo instinto impulsivo trabalhando sobre os homens... Amando-os, fodendo-os indiscriminadamente, arquitetando-os insustentáveis, para que um dia acabem todos vítimas do mesmo carrasco. E nada é uma questão de sorte... nada.