quinta-feira, 29 de junho de 2017

A primeira morte a gente nunca esquece



Hoje

De repente eu descubro que tudo se trata do velho. Vinte anos ontem da luta Tyson vs. Holyfield. Meu pai era aficionado por boxe, quando ainda nesse mundo havia meu pai e o boxe. Quer dizer, meu pai e o boxe ainda existem, mas os últimos vinte anos aproximaram meu pai e o boxe da morte. Uma aproximação irremissível, porém justa. Meu pai e o boxe se recusaram a fazer parte do séc. XXI. Eles tem – ou devem ter, eu imagino – seus motivos para se refugiaram no passado que os criou e por fatalidade da vida recusou-se a acompanhá-los.



Antes

 O velho passou uma semana falando da luta. No almoço, socava a mesa e dizia:

– O Holyfield não tem chance. Até Jesus foi derrotado uma vez. Duas, impossível. O Holyfield não tem chance.

 O Tyson vinha de uma derrota para o canalha Evander Holyfield. O Tyson era dono de um cartel invejável. O Tyson era o messias que o Deus Muhammad Ali havia prometido ao mundo. Isso o Tyson ainda não sabia, mas a exemplo do verdadeiro messias, ele seria brutalmente assassinado e renegado por aqueles que mais amou. O Pilatos da vez chamava-se Mitch Halpern e usava gravatinha borboleta, à moda dos velhos juízes da WBA. Novamente o Tyson não sabia, mas o dinheiro e o talento são duas mulheres belíssimas que dão para o primeiro cara que encontram.

Até aquela noite, Mike Tyson venceria Aquiles, Spartacus, Joe Lewis, Tarzan, qualquer um. Mike Tyson esmagaria Davi, o rei cruel dos judeus, e nocautearia Golias, o gingantão filisteu que não sabia dançar à la Sonny Liston. Mike Tyson era o que dizia o que tinha a dizer da maneira mais rápida e direta – o Ernest Hemingway dos ringues. Mike Tyson tinha um caso com a eternidade e definitivamente ele não seria preso ou morto por isso. A eternidade o acolheria, assim como o acolheu sempre que calçou as luvas e se deixou consumir pela fúria.



Durante

Quando da luta, o velho acordou meu irmão mais velho, que por sua vez me acordou. O velho fez café e fumou quantos cigarros sua ansiedade exigiu. O velho nos pediu encarecidamente que fizéssemos – meu irmão, eu e Platão, o cachorro da casa – silêncio.

– Esse é o tipo de coisa que a gente assiste em silêncio, vocês entenderam? Vocês estão vendo esses animais que pagaram uma fortuna para assistir a luta nas primeiras cadeiras? Vê como eles gritam e urram? Vê como é ridículo? Só um insensível, um verdadeiro ignorante, é capaz de gritar enquanto uma luta desse tamanho acontece. Onde eles pensam que estão? No Coliseu? Esses animais pensam que o Bill Clinton é o Júlio Cesar, percebe? Eles precisam de uma aula de como fazer silêncio. Se eu soubesse inglês, eu até poderia ensiná-los a ficar em silêncio.


A Luta

A luta começou e o Tyson mais parecia uma múmia. Apático, lento, desgovernado, inábil etc. etc. 

O primeiro round se foi e o Tyson continuou parado, incapaz sequer de ultrapassar a linha de cintura. Meu pai e meu irmão estavam embasbacados – silenciosamente embasbacados. Era um milagre às avessas. Um milagre do demônio contra as forças do bem, contra o Tyson. O segundo round veio e Evander Holyfield acertou um direto na barriga do Tyson. Tyson avançou e caiu nos braços do Holyfield. O canalha, então, passou a deferir cabeçadas na testa do Tyson. Mitch Halpern, nosso Pôncio Pilatos, lavou as mãos.

Quando o grande Mike Tyson abocanhou a orelha do canalha Evander Holyfield, meu pai rompeu seu voto de silêncio e praguejou como um daqueles "animais que pensam que o Bill Clinton é o Júlio Cesar". Meu pai havia apostado uma grana na vitória do Tyson.



Depois

Meu pai refugiou-se no quintal. Não havia sentido que um lutador do quilate do Tyson fosse capaz de tal. O velho estava inconformado. Inutilmente, meu irmão tentou consolá-lo:

– Calma, pai, o Tyson vai derrotar o Holyfield um dia.

– Não fale besteira, garoto. Você ainda não conhece a vida. Um dia você vai aprender que um lutador como o Tyson é incapaz de lidar com a derrota. Isso que você acabou de assistir foi a morte de um homem. Vá se acostumado. Eles morrem todos os dias e dê graças aos céus que eles morrem.

Meu irmão e eu entramos. Fazia um frio insuportável e nós precisávamos dormir. Mesmo quando um homem morre, mesmo quando alguém tem a orelha arrancada, as crianças precisam dormir. E nós dormimos.


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