quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Quantas tardes e noites maquinando duas mil teorias a respeito da vida ao som de Coleman Hawkins e Fela Kuti? Nos drogamos (o que não é droga nesse planetinha azul alucinado?) o suficiente para saber que toda sabedoria nasce da terra. O velho Barcelar, O BARDO NATALENSE DO SÉC. XXI, HERDEIRO DE OUTROS TANTOS BARDOS DO PASSADO, dizia que “a sabedoria é um troço complicado, ela sobe da terra rumo aos céus tipo fumaça, bicho, tipo fumaça”, para depois soltar uma grande gargalhada a lá Exu Tiriri e sumir na neblina de areia e e da Praça das Mangueiras. Tínhamos muito forte em mente: “A única coisa sagrada é a terra, a terra, a terra e quem sabe o mar...” Além de obstinados, éramos cafonas – com todo direito a sê-lo.
A gente disputou uma quantidade razoável de peladas para saber que o futebol é o supremo laboratório da vida. (Meu último gol em terras potiguares foi com passe seu, você lembra, um lançamento que eu escorei de cabeça, canto esquerdo do goleiro.) A gente suportou a ressaca de 51 com guaraná dore e não foram poucas as vezes que o velho Cosme Emanuel – Cocó para os íntimos – nos apareceu com um santo cálice de suco de goiaba enquanto vomitávamos até a consciência. Dessa merda não podem nos acusar: nunca refutamos a sabedoria alcoólica dos mais velhos (alcoólatras com mais tempo de casa) e sempre conversamos com todos, todos, jamais viramos o rosto para ninguém e isso não é pouca merda.
Você sabe, às vezes bate uma saudade fodida e eu penso em longas partidas de xadrez e no Fiat Uno (um dos maiores carros da história da humanidade) de Flávio, o cretino Bittencourt, e penso em vodka com fanta laranja e sapupara sabor limão e penso em Carlinhos, o asceta, em Djair, o andarilho, e nosso irmão Gustavo, e Breno, o motoqueiro metafísico, e Chorão, e tantos e tantos que putamerda, cara!
A cachaça nos ensinou um bocado. A marijuana foi o adoçante de nossa amizade. Os cigarros se acumularam na calçada de minha velha casa e minha velha casa está cada dia mais velha e nem parece a mesma. Esse negócio de tempo é um vírus que começa nos ossos e termina na alma.
O puxadinho insignificante de mata atlântica que a especulação imobiliária não jantou e as mulheres e o primeiro retorno da BR-101 destino Pium são testemunhas do afeto e do fracasso retumbante de nossos ancestrais. Ah, que fique claro: o jazz não é mais o mesmo, nós não somos os mesmos, as praias envelheceram e até o Sol, que sempre julgamos imbatível, andou pedindo arrego. A caminhada é longa. A lista de clichês, então, nem se fala. O baseado da vida, porra... o baseado da vida é um pastel carburado há duas décadas pela primeira geração de pintas (em tradução livre: junkies sertanejos) da Praça Central de Parnamoscow, o cemitério do tédio e palco da única juventude que tivemos. Menos mal que a juventude se foi e Natal , essa beldade de 400 anos e um zilhão de amantes, é a única herança que nos deixaram e será o ouro e a lama de nossos filhos.



terça-feira, 12 de setembro de 2017

Não que a vida perto do mar seja mais fácil. Há engarrafamento na orla de João Pessoa. As mulheres também não amam no Cote D'azur. Perto do mar, os juros do Itaú e a TV e o Rádio e as briguinhas de facebook e os mendigos e a Av. Getúlio Vargas... falam todos o mesmo idioma nacional. Perto do mar também se morre. Perto do mar há os que se lançam indefesos em busca da morte salgada. Longe do mar os suicidas citadinos também se atiram do décimo andar de um edifício sem alma. Parafraseando o outro: a morte é a morte e suas circunstancias, certo? Não é mesmo o caso de dizer que a beleza salva. Que a beleza suaviza a manhã e embala a noite. Que a beleza isso e aquilo – que a beleza é um santo remédio, pode apostar que sim, mas não é o caso.
Acontece que tenho me esparramado na rede da sala. Como uma criança sem escrúpulos imaginativos, faço de conta que o céu é o mar – de cabeça pra baixo, porém o mar. As raras nuvens de setembro que volitam o planalto central me parecem as ondas espaçadas do calmo oceano goiano que não existe, meu Deus, mas que há de existir, há de existir!
Às vezes meu corpo sonolento faz do barulho do ventilador Arno três rotações o soluço embriagante das águas que se chocam contra o tempo das falésias.
Esporadicamente acendo um cigarro enquanto tomo banho e de olhos bem fechados é a chuva marítima que me invade o peito ensaboado.
Uma vez ou outra ligo para um parente ou amigo natalense e pergunto meio desinteressado:
- Vem cá... Vem cá... Esse barulho aí no fundo... Esse barulho... É do mar?
Sempre, SEMPRE, “esse barulho é do mar, André, é do mar”.