sexta-feira, 29 de julho de 2016

Sorte de quem escreve o mesmo texto a vida inteira. O tempo é um funcionário público cuja repartição é o Caos. O tempo, diferente das amantes que somem no meio da noite, nunca sacou o batom rosa-choque e escreveu uma balada de despedida no espelho do banheiro. O tempo não sabe de cor nenhuma canção do Bob Dylan. O tempo nunca leu Os Irmãos Karamázov sentado no último banco do último ônibus Natal-João Pessoa. O tempo nos levou à cruz, mas também foi a mão invisível e pesada que nos trouxe ao mundo. Meia dúzia de milhões o chamam de Deus. Outros, em vão, tentam relativizá-lo. Semana passada, ganhei um aquário. Comprei três peixes e um mergulhador de plástico. Ah, se eu pudesse alimentar os peixes do aquário da sala com o tempo desperdiçado. Oh, se o mergulhador de plástico preso ao universo não definido do minúsculo aquário fosse capaz de uma poesia. Urge o envio de duas garrafas de cachaça via sedex para um velho amigo, uma de minhas setenta e sete promessas pendentes. Urge terminar o livro que há dois anos e cem mil palavras depois me persegue pelas esquinas. O livro que está nos lábios rachados das mulheres goianas. O livro que me acompanha à tarde, à noite, e à madrugada violenta ele bebe e fuma e canta como se o mundo fosse apenas ele e seu gosto musical. O Nordeste, vocês não sabem?, é um estado de espírito hipnotizante e brutal. Cada parágrafo de meu livro é um amigo esquecido. Cada capítulo é um amor sepultado numa geleira de sol e calor, fome e delírio. Pirangi, Cotovelo & Ponta Negra: essas são as putas que tentaram me afogar e fracassaram. Se há um bonde chamado desejo, há uma praia chamada desolação. O egoísmo, certamente, é o único vício do qual ainda não me recuperei. 


domingo, 5 de junho de 2016

Piazzolla, cretino, quem te disse que é sagrado o tempo? Piazzolla, mira: envelheci como vinho esmaecido no porão de um navio sepultado, entre fantasmas nordestinos e tubarões obesos. Piazzolla, meu querido amigo, se Buenos Aires ainda existisse, palavra de honra como tomaria o primeiro avião Congonhas-Ezeiza. Chegando lá, uma linda dançarina argentina, um coma alcoólico e quem sabe um último pedido. Mas Buenos Aires é passado. E o passado, em se tratando de América do Sul, é mais um livro de traças na prateleira empoeirada. Portanto, está fora de questão. Piazzolla, quem sou eu para te ensinar qualquer coisa , o mais velho dos cachorros velhos, mas aqui vai: no tango e na vida, felicidade é supérfluo.Felicidade, por aqui, só para disfarçar a tristeza e olhe lá. Assim no tango como no céu, a tristeza nossa de cada dia nos dai hoje. Abração, Astor – até que a sorte nos separe.

domingo, 1 de maio de 2016

Preciso, e o quanto antes, da emoção de criança quando encontrei “Lumar”, o Tubarão-cadáver ainda intacto e prestes a ser devorado pelo tempo – Cotovelo, 1998. Lumar foi como resolvi chamá-lo. Fui uma criança prodigiosa em batismos. Todavia, não vem ao caso. Preciso, se não for pedir muito, da razão que perdi – a troco de quê, ainda não descobri – quando lancei meu primeiro-único-e-fracassado livro no distante ano de 2010. 2010 reside numa viela do passado triste, escura e inabitável. Nelson Rodrigues e a velha frase: “Nada mais distante que o passado-recente.” Em 1998 eu me infiltrava entre os poucos livros de meu pai, sorrateiramente guardados na estante da sala, como um móvel inútil a enfeitar o tédio gelatinoso da casa, e bem... eu já sabia ler e lia/li em letras garrafais “Nelson Rodrigues, Literatura Comentada”, e aquele livrinho foi o brinquedo mais precioso de minha infância. Eu era como um pequeno bezerro hipnotizado pela imagem do Nelson – gordo, macilento e de suspensórios, com um cigarro na mão, fazendo cara de sério para eternidade. Aquele homem desconhecido e aquele nome “Nelson Rodr...” tinha algo a me dizer, mas eu ainda não sabia o quê. Não muito tempo depois, resolvi investigar o que havia para além da imagem do autor. Abri o livro. Li o livro – no banco de trás do Chevette verde de meu pai, escondido dos habitantes da casa. E o resultado: Álbum de Família, Anjo Negro e Senhora dos Afogados – minha introdução à literatura foi através do Nelsão e, ironicamente, do teatro. Sem sombra de dúvida, aquilo mudou minha vida – não sei se pra melhor, mas mudou. Em 2010, quando do lançamento do meu Oxum da rua de trás, outra de suas frases me fisgou de jeito e me acompanha desde então: “O artista quer ser gênio para alguns, e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor”.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O primeiro impulso de um jovem escritor é o sofrimento. Sofrem quanto mais duvidam e se entregam a um mundo libertino endossado pela solidão. Sentem que estão à parte do mundo. Revoltados e solitários, buscam conforto na filosofia, na poesia, nos grandes romances, no quer que imite a vida a ponto de transformá-la. Aí, dá-se o confronto definitivo do jovem escritor com o mundo incompleto que é seu primeiro inimigo mortal. Em tudo, a solidão faz-se presente. Ela, a solidão, é o sol da madrugada.
O segundo impulso do jovem escritor é transportar-se para uma terra escura e risória, uma ilha de ilusão apartada do mundo tépido que o gerou. Funda a gênese da razão em terreno íngreme – num sopro, tudo pode desabar. Por outro lado, os grandes devaneios – estes que nos salvam do tédio ordinário da vida – tem por base os melhores alicerces, escorados que são pela essência divina que há no homem, em qualquer homem, de criar e gozar da criação. Assim o faz o jovem escritor. A fim de conceber uma realidade estritamente pessoal capaz de salvá-lo da ignorância e da solidão, ilude-se na tentativa de estancar a dor. O homem que se abstém de criar é uma criatura mutilada. O jovem escritor, egoísta como um anjo preterido por Deus, percebe, antes de tudo, que sofrimento e criação pertencem ao mesmo processo excruciante. Para depois da criação e do gozo, a morte. Antes da morte, tudo.
Naturalmente, as pessoas carregam a ânsia de contar suas histórias, não interessa o quão desinteressantes elas sejam. E quando elas começavam, é impossível fazê-las parar: nos cafés, nos bares, nas ruas, nos leitos de hospital, nos manicômios. Alguns entre milhares de psicopatas, motoristas, ex-presidentes, advogados falidos, por mais patéticos, descobrem-se escritores. Me parecem garotinhas recém-menstruadas: não se cansam de admirar o próprio sangue frouxo e acreditam que a partir daí tornaram-se mulheres completas. Uma vez dentro do baile, promovem-se com a maciez dos publicitários de sabão em pó. Vendem suas ideias como artigos de primeira necessidade, solventes da impureza humana. Ora, um escritor não pode vender desinfetante, considerando que é um negociante prático da sujeira do mundo. Um homem que não alimentou os porcos com a própria carne não pode dizer que conhece o chiqueiro.
Roubei uma quantidade admirável de livros da biblioteca – mais tarde percebi o quão nefasto é assaltar uma biblioteca, mas já era tarde. Roubava pra abater a mensalidade cara que meus pais desembolsavam. Já que eu não fazia uso do sábio conhecimento descartável dos professores, nada mais justo que compensar aumentando minha biblioteca particular. Li pouquíssimo Jack London antes de roubar todos os dez exemplares da obra do London disponíveis na biblioteca – não sei muito bem porque escolhi, entre tantos livros, a obra do London sem nunca tê-lo lido. Atração magnética, talvez. Uma vez concretizado o furto, li e reli apaixonadamente a obra do grande mestre Jack London, esse que atravessou a América de carona nos velhos trens e passou fome e mendigou e foi ao Alasca e lutou sozinho contra oito piratas africanos e morreu empanturrado de uísque de péssima qualidade. Tive a impressão, um tanto doentia, de que passara a conhecer aquele homem mais do que a mim. Ou, pelo menos, os personagens de seus livros. Tratava-se da mesma hipnose insustentável de imaginar-me encarnado em outra pele, outra vida – no entanto, entre essa vida e a outra, apenas o limbo do desejo, das recordações forjadas, urdidas em devaneios emborrachados. Tudo falso como uma nota de trinta. Afinal, literatura não é isso? Não é a mentira dita de maneira sublime a ponto de tornar-se verdadeira? Porquanto, satisfazia-me com a falsificação. Inventar-se ou descobrir-se, dava na mesma, contanto que algo de novo pintasse no front. É assim, intercalando falsificações, que se dá a invenção de cada homem. Comigo não foi diferente.
Os homens da prateleira adquiriram a importância do próprio Deus. De um Deus acessível que não sonhasse dia e noite com bajulação. De um Deus bondoso cuja única vítima de sua invenção fosse ele mesmo. Prisioneiro e carcereiro do mesmo sonho.
Só encontrava verdadeiro prazer na leitura e na escrita – e na maconha, a divina companheira. O resto era o intervalo entre as duas coisas. Não obstante, a necessidade me levou ao trabalho, à disciplina. A necessidade me levou a enxergar, insipidamente, cada banalidade e desgraça contida na vida como uma dádiva comestível. A necessidade é o motor que move os homens para o desconhecido. E lá estava eu, escrevendo duas mil palavras por dia por pura e resoluta necessidade. Pela primeira vez, a dor e o lixo da vida me pareciam um presente. Estava, também, disposto a romper com a dor e o lixo. Este rompimento equivalia a reter em mim mais dor e mais lixo. Evoluir não é abandonar os problemas, mas aperfeiçoá-los – com o máximo de estoicismo que nossos ombros frágeis possam suportar. Não acreditava, e até hoje não acredito, que a coragem tenha se manifestado em minha carne senão através da caneta e do papel.
Ela, a literatura, era, de uma vez, o mundo, a vida, a beleza e o infortúnio. Era a ilusão de ter a verdade em mãos, como um sabonete molhado e escorregadio, cantando no chuveiro.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Morreria – quixotada clássica – tranquilamente por amor. Morreria satisfeito e resolvido, como quem acaba de almoçar e acende um cigarro. Morreria de frio no Chile e de infecção alimentar no México, se em Santiago e Guadalajara o amor se encontrasse. Morreria plasmado por mil demônios e anestesiado no ombro das ondas, se no inferno e no mar alguém me confessasse uma tormenta de amor.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

De Ponta Negra à Redinha

Como uma mulher esparramada sobre a cama a espera do amante, assim é Natal. De Ponta Negra à Redinha, duas conduções e um entra-e-sai de biquínis, bêbados, ambulantes, crianças etc. Da janela, é nítido e até ridículo: pouca coisa mudou. Penso em minha avó, que viveu na Redinha nos anos 60 e que há vinte, trinta anos não faz esse caminho. Enclausurou-se em Parnamirim – e lá morrerá. Certamente, não reconheceria as ruas que deixou, não reconheceria o trapiche em ruínas da velha praia e acharia a ponte Newton Navarro uma extravagância visual.

De Ponta Negra à Redinha, parando na Ribeira apenas para alongar o caminho – desejoso que ando de todas as ruas que guardam um pouco de mim –, Natal parece ter se perdido dentro dela mesma. Durante os três anos e quatro meses que passei fora, fiz do Centro e da Ribeira o que de mais puro e impermisto havia em mim – como o cenário velho de uma peça que não sai de cartaz. Conheci cidades, conversei com o povo desconhecido dessas cidades desconhecidas, mas nada, absolutamente nada, me conduz ao passado como as ruínas abandonadas à morte da antiga Natal.

Descendo a Junqueira Aires, atual Câmara Cascudo, imagino quantas tardes meus bisavós, avós e pais suaram e sofreram enquanto atravessavam essa rua – Quantas, afinal, meu Deus? – Quantas vezes sob o mesmo sol invencível? – De frente para este oceano enraizado no horizonte – Bebendo a água do mesmo rio – Amando as mulheres da mesma raça – Todas as mulheres desta terra que são a mesma – No final das contas, acabaremos no Alecrim.

Em Ponta Negra, acolchoaram de pedras o calçadão. A erosão e a maré têm fome, uma fome inesgotável. À primeira vista, a engenhoca de pedras está funcionando. Ao meu lado, um casal de turistas. Pelo atropelo de Je Veux e J'aime e Merci e os biquinhos intermináveis e redondos, são franceses. Dois franceses pálidos em sua primeira noite em Ponta Negra. O rapazinho (vinte anos, se muito) agarra a namoradinha pela cintura e gasta com ela um bom verbo. A namoradinha, assim perdida de si, retribui o abraço com um beijo demorado ao luar. Só há beleza nos clichês para quem ama e é amado. Ah, se eu falasse francês... seria um idioma, não uma solução.

Na Redinha, um mulatinho de seus dez, onze anos, vende picolés. Grita no melhor potiguara aportuguesado sabores, preços e, entre um e outro, avisa que faz calor na terra. “Olha, olha, olha o picolé... Enfrente o sol com um picolé, meu boy... O sol é foda... Mas eu tenho picolé... picolé, meu boy...” Compro um de cajá e lhe deixo com o miúdo do troco. Agradece e continua sua marcha infantil de picolezeiro, pois o calor que combate é o mesmo que lhe põe de comer.

De Ponta Negra à Redinha, Natal é uma, duas, três, quatro cidades distintas. Onde começa a ilusão, termina a mentira. Enleado ao mar da Redinha, despeço-me de meus mortos. Saúdo-os como se fossem eles minha pátria, minha cidade, minha religião errática – saúdo-os porque sei que os mortos que aqui pereceram, cedo ou tarde, voltarão para nova vida em Natal. De frente para o mar, exilado em meu próprio chão, nunca um poeta e um verso me foi tão real quanto “O Natal na terra!” de Rimbaud. 

Para além das praias e dos montes, Rimbaud, excederemos os demônios, os tiranos e a superstição. Tuas vertigens continuarão fixadas, andarilho de Charleville, e teus silêncios e noites percorrerão em sonho a cidade do futuro solapada sobre as dunas movediças do passado.

Sento na areia quente da praia e me pego sem forças para continuar minha Natal Revisited – Natal que não é Lisboa, mas que “Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.” Duas doses de cachaça são o suficiente para me restabelecer. Por via das dúvidas, desço três, porque é melhor remediar do que prevenir. Restabelecido, deixo que a paisagem me consuma. Meu espírito é nostálgico porque fraco. Meus erros andam tão fáceis de entender que acertar parece não fazer sentido. Fatidicamente, meu esgoto corre para o mar. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Noite de Ano

(LIVRO)
Escreva amanhã de manhã como se fosse a última vez, meu amor, ela cochicha. Beba, fume, coma, cante como se o mundo estivesse para morrer. Até porque hora ou outra um viaduto de impossibilidades desabará sobre nossas cabeças e você só se dará conta do atoleiro que se meteu quando for tarde demais, e é sempre tarde demais, eu tô cansada de saber disso. Tarde demais para que, eu pergunto, e ela responde Tarde demais para dar o fora de tudo, mas que se dane, hoje eu só quero relaxar e ver os fogos explodirem no céu, você sabe o quanto amo fogos de artifício, você sabe que eu me amarro em tudo quanto é artificial nesse mundo,  e estou para nascer hoje à noite uma vez mais, uma vez mais e não pela última vez.  

Ela ameaça chorar, porque quando bêbada ela arranja um motivo duro e impossível para chorar, e aí se debate, grita, e duas doses depois já está feliz e acesa novamente, mas dessa vez ela não chora, e nós nos sentamos no sofá branco rasgado de três anos de uso e fodas e sintonizamos Cartola como uma britadeira sacolejando as paredes do apartamento, e também para que as pessoas lá fora saibam que hoje estamos felizes, ou pelo menos que maquiamos um clima qualquer de felicidade – e as luzinhas de Natal ainda piscam amarradas a árvore de palitinhos e pano dourado que ela mesma confeccionou.

A champanhota vagabunda não chega para onde planejamos ir, e logo passamos para Vodka com Pepsi, torramos um quarto-zagueiro, daí para Vodka pura um pulo, e de Cartola para Elis Regina e de Elis para Bob Dylan, sempre ele, o mesmo Dylan que cantou Like a Rolling Stone também disse Leave your stepping stones behind, something calls for you, forget the dead you've left, they will not follow you. Que em tradução aleatória para o português vulgaris quer dizer Deixe suas pedras para trás, alguém o chama, esqueça os mortos que você abandonou, eles não o seguirão.

O mundo, ela me diz enquanto levanta o terceiro copo de Absolut, o mundo vive uma merda de decadência romântica, e o que as pessoas são em suas socialnetworks de araque é muito do piegas, chato, pedante, malcheiroso, e aí ligamos a TV para conferir o sorteio da mega-sena e definitivamente não estamos milionários. Rasgamos os bilhetes de loteria, atiramos o papel picado pela janela e ainda da nossa janela, nono andar, Rua 18, Centro de Goiânia, são dez e dez da noite e podemos ver um mar de gente pobre e calcinada rasgando a Araguaia em direção à Praça Cívica, onde o show de fogos acontecerá, e todas elas tão solitárias de si, gente desse solo arruinado do virtuoso Estado de Goiás, essa terra ondulada e louca que eu aprendi a amar – e é impossível não pensar que faltam apenas quinze dias para eu me mandar daqui.

Não é fácil abandonar três anos juntos vivendo sob o mesmo teto, dividindo a cama, a alucinação incoercível a par de todas as iguarias possíveis, a dor, o tédio, a dança e, claro, as contas. Não é fácil abandonar e por isso mesmo, por não se tratar de uma tarefa fácil, é que vale à pena. Bem, cresci numa casa de nordestinos pegajosos e nunca lidei verdadeiramente com a solidão. Quer dizer, sempre fui um solitário, mas nunca estive só. Agora, é uma questão de tempo. Basta sentar e esperar.

Descemos a Av. Araguaia, falta precisamente um minuto para o ano novo estourar na consciência das pessoas e os fogos de artificio pintarem o céu sem estrelas da capital do pequi, estamos abraçados, eu com uma garrafa escorregadia de espumante na mão e ela tentando ligar para os pais antes que o ano novo seja oficialmente decretado pelas autoridades do mundo, mas ela não consegue falar com os pais e a garrafa gela em minhas mãos, faltam agora alguns segundos, nos olhamos, nos beijamos, e vivemos a cena que ao longo da vida assistimos duas mil vezes repetida no cinema – o locutor do espetáculo puxa a contagem regressiva, dez, nove... cinco, quatro... três, dois, um... e o ano novo chega – ah, pobres dos que  tem consciência do fim ou do começo de qualquer coisa – a esses chamamos profetas e merecem todos, sem exceção, a fogueira, a guilhotina e por que não um caso de amor fracassado? Onde está o cotidiano, ela me pergunta, onde está o cotidiano a essa hora da vida para nos salvar do fim, amor?

Sim, meu bem, não pude e/ou consegui dizer antes, mas o faço agora: o cotidiano não existe, o que há é a inércia dos nossos sonhos ultrapassados, o convite para viver a vida que não planejamos – pois nenhuma vida é digna o suficiente para ser planejada. Improvisemos, meu amor, improvisemos como o comediante que esqueceu o fim da piada, improvisemos porque a vida é uma anedota velha, gasta, sem graça, improvisemos porque viver é essencialmente sofrer, e porra, uai! não foi você quem me apresentou toneladas de livros budistas e indianos e teorias do amor impermanente e tântrico e cósmico e a putaqueopariu na esperança de que a ressaca não nos encontrasse na manhã seguinte?

Dentro do taxi, rumo à festa de ano novo de um amigo em sua casa nova, quintal gigantesco, bebida e carne, e as mesmas velhas pessoas que abraçaremos como se fossem outras, Ana é só alegria, sorri baratinada para a cidade da janela do carro e eu me contorço todo de êxtase movido pelo álcool, pelo clima, situação, hora, data, local, tudo, e damos a mão enquanto o taxista toma o caminho mais longo e confuso – e o que seria de mim se não fosse enganado uma vez mais pela vida, agora condignamente representada pelo taxista em sua odisseia contínua com o taxímetro?

O taxímetro aponta trinta e quatro reais e já estamos no Jardim América, Viviane nos recebe, abraço Rodrigo e saco o charuto cubano Romeo y Julieta que comprei para ele, ele me dá uma caneca do Corinthians que aliás esqueci em sua casa após nove ou dez doses de vodka com energético, e sentamos na última mesa vaga da festa, em frente à churrasqueira comandada por um carioca amigo de Rodrigo que teve o pai fuzilado por cinco tiros de tauros na porta de casa, ele faz questão de dizer, cinco tiros de P.T., meu pai morto sem chance, e ele, o carioca comandante da churrasqueira, o filho do pai morto, esteve em Natal, sim, esteve e adorou a cidade e nunca viu coisa mais bela, assim são os turistas no buraco solar onde nasci, e ele me chama de Potiguar e eu me sinto verdadeiramente lisonjeado, afinal o Rio Grande do Norte é praticamente a capital do Brasil, e conversamos sobre a praia de Genipabu, dromedários e passeios de Bugre, e a vodka corre, corre solta em meu sangue coalhado, Ana reclama da areia molhada do quintal que manchou seu salto de camurça bege, minha família liga e eu choro e grito e xingo, falo com minhas três sobrinhas que ainda não sabem porra nenhuma da vida – e é por isso que as adoro, por não saberem porra nenhuma da vida –, falo com meu irmão mais novo que é como o filho que eu não quero ter, e a festa segue, segue com a banda de Rodrigo no palco armado no começo do alpendre gigantesco e eles executam sutilmente: “Se alguém por mim perguntar, diga que só vou voltar, depois que me encontrar.”

As coisas mudam de lugar, mas Cartola continua o mesmo. Cartola que aos cinquenta anos lavava carros em Ipanema. E aos cinquenta, meu amor, onde estaremos? Em quais ruas tristes e salgadas lavaremos nossos carros? Se disser que espero estar morto, minto. Não é de hoje que só digo mentiras a respeito da morte. No entanto, não interessa. Há sempre uma muleta ao alcance de todos e as minhas estão na prateleira, e hoje, primeiro de janeiro, minha muleta é Rimbaud, que longe de Deus pode anunciar: “Na imensa mansão de vidros ainda gotejantes, meninos de luto admiram imagens maravilhosas (...) Tudo é um tédio! E a Rainha, a Feiticeira que acende sua brasa num pote de barro, não vai querer jamais nos contar tudo o que sabe, e que nós ignoramos.”

Em frente à churrasqueira, Ana e eu nos reconciliados com o mundo. Por um instante, ela lembra que eu estou indo embora e chora (o que, ultimamente, tem acontecido a cada dez minutos), balbucia como pode que me ama e chora novamente. A maquiagem que ela demorou meia hora em frente ao espelho bolando já foi para o beleléu. Escorre como água suja de seus olhos manchados. É esquisito pensar que se dormimos quinze noites separados ao longo de três anos, foi muito. Se passamos um único dia sem nos falar, foi demasiado. E agora planejamos a ausência total um do outro. Ela com nosso apartamento que será só seu. Eu com minha vida que agora será só minha – só minha até que Deus me anistie do compromisso de consciência e sofrimento e humildade tacanha que fantasio para mim.

O dia chega às sete da matina, estamos nós dois e mais cinco pessoas de uma festa de quarenta na última mesa de sobreviventes de vodka, uísque e cerveja quente, e Ana já cantou no improviso Ovelha Negra, Levava uma vida sosseeeeeegada, gostava de sombra e água frescaaaaaa, Meu Deus, quanto tempo eu passeeeeei sem saber,  e eu Tudo Outra Vez, Até parece que foi ontem minhaaaa mocidade, com diploma de sofrer de outra universidadeeeee, minha fala nordestina, quero esquecer o francês...

Dizer o que se pensa é uma arte fácil – ainda que não seja grande coisa. Basta falar instintivamente, utilizar-se das palavras como companhias indistintas a vontade e ao pensamento. Dizer o que se pensa é a arte do homem que não tem nada a perder – e se tivesse, de que adiantaria manter o que se tem em nome de uma falcatrua impossível?

Voltamos pra casa levados novamente por um taxista que prefere o caminho mais difícil. Ah, longe de mim me queixar dos caminhos que os outros escolhem em meu nome. Antes do banho, fodemos a primeira foda do ano que é sempre a melhor. Cansada, desaba ainda vestida na cama e esquece o chuveiro. Linda, irresistivelmente linda.

Me sinto revigorado e atônito da vida que me espera como uma cortesã mascarada – não me esqueço do banho e vou para ele com uma taça de vinho passado que encontro na geladeira. A água está fria. O sol já alto me lembra que há vida lá fora, vida desconhecida nas avenidas, ruas, becos, vida que continuará aconteça o que acontecer comigo, com Ana, com os amigos que há tempos não encontro e tão cedo não reencontrarei – inclusive convosco, leitor, inclusive convosco que é como um fantasma camuflado na luz evanescida do mundo.