Sorte de quem escreve o mesmo texto a vida inteira. O tempo é
um funcionário público cuja repartição é o Caos. O tempo, diferente das amantes
que somem no meio da noite, nunca sacou o batom rosa-choque e escreveu uma balada
de despedida no espelho do banheiro. O tempo não sabe de cor nenhuma canção do
Bob Dylan. O tempo nunca leu Os Irmãos Karamázov sentado no último banco do
último ônibus Natal-João Pessoa. O tempo nos levou à cruz, mas também foi a mão
invisível e pesada que nos trouxe ao mundo. Meia dúzia de milhões o chamam de
Deus. Outros, em vão, tentam relativizá-lo. Semana passada, ganhei um aquário.
Comprei três peixes e um mergulhador de plástico. Ah, se eu pudesse alimentar
os peixes do aquário da sala com o tempo desperdiçado. Oh, se o mergulhador de
plástico preso ao universo não definido do minúsculo aquário fosse capaz de uma
poesia. Urge o envio de duas garrafas de cachaça via sedex para um velho amigo,
uma de minhas setenta e sete promessas pendentes. Urge terminar o livro que há dois
anos e cem mil palavras depois me persegue pelas esquinas. O livro que está nos
lábios rachados das mulheres goianas. O livro que me acompanha à tarde, à
noite, e à madrugada violenta ele bebe e fuma e canta como se o mundo fosse
apenas ele e seu gosto musical. O Nordeste, vocês não sabem?, é um estado de
espírito hipnotizante e brutal. Cada parágrafo de meu livro é um amigo esquecido.
Cada capítulo é um amor sepultado numa geleira de sol e calor, fome e delírio. Pirangi,
Cotovelo & Ponta Negra: essas são as putas que tentaram me afogar e fracassaram.
Se há um bonde chamado desejo, há uma praia chamada desolação. O egoísmo, certamente,
é o único vício do qual ainda não me recuperei.
sexta-feira, 29 de julho de 2016
domingo, 5 de junho de 2016
Piazzolla, cretino, quem te disse que é sagrado o tempo? Piazzolla, mira: envelheci como vinho esmaecido no porão de um navio sepultado, entre fantasmas nordestinos e tubarões obesos. Piazzolla, meu querido amigo, se Buenos Aires ainda existisse, palavra de honra como tomaria o primeiro avião Congonhas-Ezeiza. Chegando lá, uma linda dançarina argentina, um coma alcoólico e quem sabe um último pedido. Mas Buenos Aires é passado. E o passado, em se tratando de América do Sul, é mais um livro de traças na prateleira empoeirada. Portanto, está fora de questão. Piazzolla, quem sou eu para te ensinar qualquer coisa , o mais velho dos cachorros velhos, mas aqui vai: no tango e na vida, felicidade é supérfluo.Felicidade, por aqui, só para disfarçar a tristeza e olhe lá. Assim no tango como no céu, a tristeza nossa de cada dia nos dai hoje. Abração, Astor – até que a sorte nos separe.
domingo, 1 de maio de 2016
Preciso, e o quanto antes, da emoção de criança
quando encontrei “Lumar”, o Tubarão-cadáver ainda intacto e prestes a ser
devorado pelo tempo – Cotovelo, 1998. Lumar foi como resolvi chamá-lo. Fui uma
criança prodigiosa em batismos. Todavia, não vem ao caso. Preciso, se não for
pedir muito, da razão que perdi – a troco de quê, ainda não descobri – quando
lancei meu primeiro-único-e-fracassado livro no distante ano de 2010. 2010 reside
numa viela do passado triste, escura e inabitável. Nelson Rodrigues e a velha
frase: “Nada mais distante que o passado-recente.” Em 1998 eu me infiltrava
entre os poucos livros de meu pai, sorrateiramente guardados na estante da
sala, como um móvel inútil a enfeitar o tédio gelatinoso da casa, e bem... eu
já sabia ler e lia/li em letras garrafais “Nelson Rodrigues, Literatura
Comentada”, e aquele livrinho foi o brinquedo mais
precioso de minha infância. Eu era como um pequeno bezerro hipnotizado pela
imagem do Nelson – gordo, macilento e de suspensórios, com um cigarro na mão,
fazendo cara de sério para eternidade. Aquele homem desconhecido e aquele nome “Nelson
Rodr...” tinha algo a me dizer, mas eu ainda não sabia o quê. Não muito tempo
depois, resolvi investigar o que havia para além da imagem do autor. Abri o
livro. Li o livro – no banco de trás do Chevette verde de meu pai, escondido
dos habitantes da casa. E o resultado: Álbum de Família, Anjo Negro e Senhora
dos Afogados – minha introdução à literatura foi através do Nelsão e,
ironicamente, do teatro. Sem sombra de dúvida, aquilo mudou minha vida – não sei
se pra melhor, mas mudou. Em 2010, quando do lançamento do meu Oxum da rua de
trás, outra de suas frases me fisgou de jeito e me acompanha desde então: “O
artista quer ser gênio para alguns, e imbecil para outros. Se puder ser imbecil
para todos, melhor”.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
O primeiro impulso de um jovem
escritor é o sofrimento. Sofrem quanto mais duvidam e se entregam a um mundo
libertino endossado pela solidão. Sentem que estão à parte do mundo. Revoltados
e solitários, buscam conforto na filosofia, na poesia, nos grandes romances, no
quer que imite a vida a ponto de transformá-la. Aí, dá-se o confronto
definitivo do jovem escritor com o mundo incompleto que é seu primeiro inimigo
mortal. Em tudo, a solidão faz-se presente. Ela, a solidão, é o sol da
madrugada.
O segundo impulso do jovem
escritor é transportar-se para uma terra escura e risória, uma ilha de ilusão
apartada do mundo tépido que o gerou. Funda a gênese da razão em terreno
íngreme – num sopro, tudo pode desabar. Por outro lado, os grandes devaneios –
estes que nos salvam do tédio ordinário da vida – tem por base os melhores
alicerces, escorados que são pela essência divina que há no homem, em qualquer
homem, de criar e gozar da criação. Assim o faz o jovem escritor. A fim de
conceber uma realidade estritamente pessoal capaz de salvá-lo da ignorância e
da solidão, ilude-se na tentativa de estancar a dor. O homem que se abstém de
criar é uma criatura mutilada. O jovem escritor, egoísta como um anjo preterido
por Deus, percebe, antes de tudo, que sofrimento e criação pertencem ao mesmo
processo excruciante. Para depois da criação e do gozo, a morte. Antes da
morte, tudo.
Naturalmente, as pessoas
carregam a ânsia de contar suas histórias, não interessa o quão
desinteressantes elas sejam. E quando elas começavam, é impossível fazê-las
parar: nos cafés, nos bares, nas ruas, nos leitos de hospital, nos manicômios.
Alguns entre milhares de psicopatas, motoristas, ex-presidentes, advogados
falidos, por mais patéticos, descobrem-se escritores. Me parecem garotinhas
recém-menstruadas: não se cansam de admirar o próprio sangue frouxo e acreditam
que a partir daí tornaram-se mulheres completas. Uma vez dentro do baile,
promovem-se com a maciez dos publicitários de sabão em pó. Vendem suas ideias
como artigos de primeira necessidade, solventes da impureza humana. Ora, um
escritor não pode vender desinfetante, considerando que é um negociante prático
da sujeira do mundo. Um homem que não alimentou os porcos com a própria carne
não pode dizer que conhece o chiqueiro.
Roubei uma quantidade admirável
de livros da biblioteca – mais tarde percebi o quão nefasto é assaltar uma
biblioteca, mas já era tarde. Roubava pra abater a mensalidade cara que meus
pais desembolsavam. Já que eu não fazia uso do sábio conhecimento descartável
dos professores, nada mais justo que compensar aumentando minha biblioteca
particular. Li pouquíssimo Jack London antes de roubar todos os dez exemplares
da obra do London disponíveis na biblioteca – não sei muito bem porque escolhi,
entre tantos livros, a obra do London sem nunca tê-lo lido. Atração magnética,
talvez. Uma vez concretizado o furto, li e reli apaixonadamente a obra do
grande mestre Jack London, esse que atravessou a América de carona nos velhos
trens e passou fome e mendigou e foi ao Alasca e lutou sozinho contra oito
piratas africanos e morreu empanturrado de uísque de péssima qualidade. Tive a
impressão, um tanto doentia, de que passara a conhecer aquele homem mais do que
a mim. Ou, pelo menos, os personagens de seus livros. Tratava-se da mesma
hipnose insustentável de imaginar-me encarnado em outra pele, outra vida – no
entanto, entre essa vida e a outra, apenas o limbo do desejo, das recordações
forjadas, urdidas em devaneios emborrachados. Tudo falso como uma nota de
trinta. Afinal, literatura não é isso? Não é a mentira dita de maneira sublime
a ponto de tornar-se verdadeira? Porquanto, satisfazia-me com a falsificação.
Inventar-se ou descobrir-se, dava na mesma, contanto que algo de novo pintasse
no front. É assim, intercalando falsificações, que se dá a invenção de cada homem.
Comigo não foi diferente.
Os homens da prateleira
adquiriram a importância do próprio Deus. De um Deus acessível que não sonhasse
dia e noite com bajulação. De um Deus bondoso cuja única vítima de sua invenção
fosse ele mesmo. Prisioneiro e carcereiro do mesmo sonho.
Só
encontrava verdadeiro prazer na leitura e na escrita – e na maconha, a divina
companheira. O resto era o intervalo entre as duas coisas. Não obstante, a
necessidade me levou ao trabalho, à disciplina. A necessidade me levou a
enxergar, insipidamente, cada banalidade e desgraça contida na vida como uma
dádiva comestível. A necessidade é o motor que move os homens para o
desconhecido. E lá estava eu, escrevendo duas mil palavras por dia por pura e
resoluta necessidade. Pela primeira vez, a dor e o lixo da vida me pareciam um
presente. Estava, também, disposto a romper com a dor e o lixo. Este rompimento
equivalia a reter em mim mais dor e mais lixo. Evoluir não é abandonar os
problemas, mas aperfeiçoá-los – com o máximo de estoicismo que nossos ombros
frágeis possam suportar. Não acreditava, e até hoje não acredito, que a coragem
tenha se manifestado em minha carne senão através da caneta e do papel.
Ela,
a literatura, era, de uma vez, o mundo, a vida, a beleza e o infortúnio. Era a
ilusão de ter a verdade em mãos, como um sabonete molhado e escorregadio,
cantando no chuveiro.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Morreria – quixotada
clássica – tranquilamente por amor. Morreria satisfeito e resolvido, como quem
acaba de almoçar e acende um cigarro. Morreria de frio no Chile e de infecção
alimentar no México, se em Santiago e Guadalajara o amor se encontrasse.
Morreria plasmado por mil demônios e anestesiado no ombro das ondas, se no
inferno e no mar alguém me confessasse uma tormenta de amor.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
De Ponta Negra à Redinha
Como uma mulher esparramada sobre a cama a espera do
amante, assim é Natal. De Ponta Negra à Redinha, duas conduções e um
entra-e-sai de biquínis, bêbados, ambulantes, crianças etc. Da janela, é nítido
e até ridículo: pouca coisa mudou. Penso em minha avó, que viveu na Redinha nos
anos 60 e que há vinte, trinta anos não faz esse caminho. Enclausurou-se em
Parnamirim – e lá morrerá. Certamente, não reconheceria as ruas que deixou, não
reconheceria o trapiche em ruínas da velha praia e acharia a ponte Newton
Navarro uma extravagância visual.
De Ponta Negra à Redinha, parando na Ribeira apenas para
alongar o caminho – desejoso que ando de todas as ruas que guardam um pouco de
mim –, Natal parece ter se perdido dentro dela mesma. Durante os três anos e quatro
meses que passei fora, fiz do Centro e da Ribeira o que de mais puro e
impermisto havia em mim – como o cenário velho de uma peça que não sai de
cartaz. Conheci cidades, conversei com o povo desconhecido dessas cidades
desconhecidas, mas nada, absolutamente nada, me conduz ao passado como as
ruínas abandonadas à morte da antiga Natal.
Descendo a Junqueira Aires, atual Câmara Cascudo, imagino
quantas tardes meus bisavós, avós e pais suaram e sofreram enquanto
atravessavam essa rua – Quantas, afinal, meu Deus? – Quantas vezes sob o mesmo
sol invencível? – De frente para este oceano enraizado no horizonte – Bebendo a
água do mesmo rio – Amando as mulheres da mesma raça – Todas as mulheres desta
terra que são a mesma – No final das contas, acabaremos no Alecrim.
Em Ponta Negra, acolchoaram de
pedras o calçadão. A erosão e a maré têm fome, uma fome inesgotável. À primeira
vista, a engenhoca de pedras está funcionando. Ao meu lado, um casal de
turistas. Pelo atropelo de Je Veux e J'aime e Merci e os biquinhos
intermináveis e redondos, são franceses. Dois franceses pálidos em sua primeira
noite em Ponta Negra. O rapazinho (vinte anos, se muito) agarra a namoradinha
pela cintura e gasta com ela um bom verbo. A namoradinha, assim perdida de si,
retribui o abraço com um beijo demorado ao luar. Só há beleza nos clichês para
quem ama e é amado. Ah, se eu falasse francês... seria um idioma, não uma
solução.
Na Redinha, um mulatinho de seus dez, onze anos, vende
picolés. Grita no melhor potiguara aportuguesado sabores, preços e, entre um e
outro, avisa que faz calor na terra. “Olha, olha, olha o picolé... Enfrente o
sol com um picolé, meu boy... O sol é foda... Mas eu tenho picolé... picolé,
meu boy...” Compro um de cajá e lhe deixo com o miúdo do troco. Agradece e continua
sua marcha infantil de picolezeiro, pois o calor que combate é o mesmo que lhe
põe de comer.
De Ponta Negra à Redinha, Natal é uma, duas, três, quatro
cidades distintas. Onde começa a ilusão, termina a mentira. Enleado ao mar da
Redinha, despeço-me de meus mortos. Saúdo-os como se fossem eles minha pátria,
minha cidade, minha religião errática – saúdo-os porque sei que os mortos que
aqui pereceram, cedo ou tarde, voltarão para nova vida em Natal. De frente para
o mar, exilado em meu próprio chão, nunca um poeta e um verso me foi tão real
quanto “O Natal na terra!” de Rimbaud.
Para além das praias e dos montes,
Rimbaud, excederemos os demônios, os tiranos e a superstição. Tuas vertigens
continuarão fixadas, andarilho de Charleville, e teus silêncios e noites
percorrerão em sonho a cidade do futuro solapada sobre as dunas movediças do
passado.
Sento na areia quente da praia e me pego sem forças para
continuar minha Natal Revisited – Natal
que não é Lisboa, mas que “Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me
sinta.” Duas doses de cachaça são o suficiente para me restabelecer. Por via
das dúvidas, desço três, porque é melhor remediar do que prevenir. Restabelecido,
deixo que a paisagem me consuma. Meu espírito é nostálgico porque fraco. Meus
erros andam tão fáceis de entender que acertar parece não fazer sentido. Fatidicamente,
meu esgoto corre para o mar.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Noite de Ano
(LIVRO)
Escreva amanhã
de manhã como se fosse a última vez, meu amor, ela cochicha. Beba, fume, coma, cante
como se o mundo estivesse para morrer. Até porque hora ou outra um viaduto de impossibilidades desabará sobre nossas cabeças e você só se dará conta do atoleiro que se meteu quando for tarde demais, e é sempre tarde demais, eu tô cansada de saber
disso. Tarde demais para que, eu pergunto, e ela responde Tarde demais para dar
o fora de tudo, mas que se dane, hoje eu só quero relaxar e ver os fogos
explodirem no céu, você sabe o quanto amo fogos de artifício, você sabe que eu
me amarro em tudo quanto é artificial nesse mundo, e estou para nascer hoje à noite uma vez
mais, uma vez mais e não pela última vez.
Ela ameaça
chorar, porque quando bêbada ela arranja um motivo duro e
impossível para chorar, e aí se debate, grita, e duas doses depois já está
feliz e acesa novamente, mas dessa vez ela não chora, e nós nos sentamos no
sofá branco rasgado de três anos de uso e fodas e sintonizamos Cartola como uma
britadeira sacolejando as paredes do apartamento, e também para que as pessoas
lá fora saibam que hoje estamos felizes, ou pelo menos que maquiamos um clima
qualquer de felicidade – e as luzinhas de Natal ainda piscam amarradas a árvore
de palitinhos e pano dourado que ela mesma confeccionou.
A champanhota
vagabunda não chega para onde planejamos ir, e logo passamos para Vodka com
Pepsi, torramos um quarto-zagueiro, daí para Vodka pura um pulo, e de Cartola
para Elis Regina e de Elis para Bob Dylan, sempre ele, o mesmo Dylan que cantou
Like a Rolling Stone também disse Leave your stepping stones behind, something calls
for you, forget the dead you've left, they will not follow you. Que em tradução aleatória para o português vulgaris quer dizer Deixe suas pedras para trás, alguém o
chama, esqueça os mortos que você abandonou, eles não o seguirão.
O mundo, ela me
diz enquanto levanta o terceiro copo de Absolut, o mundo vive uma merda de
decadência romântica, e o que as pessoas são em suas socialnetworks de araque é
muito do piegas, chato, pedante, malcheiroso, e aí ligamos a TV para conferir o
sorteio da mega-sena e definitivamente não estamos milionários. Rasgamos os
bilhetes de loteria, atiramos o papel picado pela janela e ainda da nossa
janela, nono andar, Rua 18, Centro de Goiânia, são dez e dez da noite e podemos
ver um mar de gente pobre e calcinada rasgando a Araguaia em direção à Praça
Cívica, onde o show de fogos acontecerá, e todas elas tão solitárias de si,
gente desse solo arruinado do virtuoso Estado de Goiás, essa terra ondulada e
louca que eu aprendi a amar – e é impossível não pensar que faltam apenas
quinze dias para eu me mandar daqui.
Não é fácil
abandonar três anos juntos vivendo sob o mesmo teto, dividindo a cama, a alucinação
incoercível a par de todas as iguarias possíveis, a dor, o tédio, a dança e,
claro, as contas. Não é fácil abandonar e por isso mesmo, por não se tratar de
uma tarefa fácil, é que vale à pena. Bem, cresci numa casa de nordestinos
pegajosos e nunca lidei verdadeiramente com a solidão. Quer dizer, sempre fui
um solitário, mas nunca estive só. Agora, é uma questão de tempo. Basta sentar
e esperar.
Descemos a Av. Araguaia,
falta precisamente um minuto para o ano novo estourar na consciência das
pessoas e os fogos de artificio pintarem o céu sem estrelas da capital do pequi,
estamos abraçados, eu com uma garrafa escorregadia de espumante na mão e ela
tentando ligar para os pais antes que o ano novo seja oficialmente decretado
pelas autoridades do mundo, mas ela não consegue falar com os pais e a garrafa
gela em minhas mãos, faltam agora alguns segundos, nos olhamos, nos beijamos, e
vivemos a cena que ao longo da vida assistimos duas mil vezes repetida no
cinema – o locutor do espetáculo puxa a contagem regressiva, dez, nove...
cinco, quatro... três, dois, um... e o ano novo chega – ah, pobres dos que tem consciência do fim ou do começo de
qualquer coisa – a esses chamamos profetas e merecem todos, sem exceção, a
fogueira, a guilhotina e por que não um caso de amor fracassado? Onde está o
cotidiano, ela me pergunta, onde está o cotidiano a essa hora da vida para nos
salvar do fim, amor?
Sim, meu bem, não
pude e/ou consegui dizer antes, mas o faço agora: o cotidiano não existe, o que
há é a inércia dos nossos sonhos ultrapassados, o convite para viver a vida que
não planejamos – pois nenhuma vida é digna o suficiente para ser planejada.
Improvisemos, meu amor, improvisemos como o comediante que esqueceu o fim da
piada, improvisemos porque a vida é uma anedota velha, gasta, sem graça,
improvisemos porque viver é essencialmente sofrer, e porra, uai! não foi você
quem me apresentou toneladas de livros budistas e indianos e teorias do amor impermanente
e tântrico e cósmico e a putaqueopariu na esperança de que a ressaca não nos
encontrasse na manhã seguinte?
Dentro do taxi,
rumo à festa de ano novo de um amigo em sua casa nova, quintal gigantesco,
bebida e carne, e as mesmas velhas pessoas que abraçaremos como se fossem
outras, Ana é só alegria, sorri baratinada para a cidade da janela do carro e
eu me contorço todo de êxtase movido pelo álcool, pelo clima, situação, hora,
data, local, tudo, e damos a mão enquanto o taxista toma o caminho mais longo e
confuso – e o que seria de mim se não fosse enganado uma vez mais pela vida,
agora condignamente representada pelo taxista em sua odisseia contínua com o
taxímetro?
O taxímetro
aponta trinta e quatro reais e já estamos no Jardim América, Viviane nos recebe, abraço Rodrigo e saco o charuto cubano
Romeo y Julieta que comprei para ele, ele me dá uma caneca do Corinthians que
aliás esqueci em sua casa após nove ou dez doses de vodka com energético, e
sentamos na última mesa vaga da festa, em frente à churrasqueira comandada por
um carioca amigo de Rodrigo que teve o pai fuzilado por cinco tiros de tauros
na porta de casa, ele faz questão de dizer, cinco tiros de P.T., meu pai morto
sem chance, e ele, o carioca comandante da churrasqueira, o filho do pai morto,
esteve em Natal, sim, esteve e adorou a cidade e nunca viu coisa mais bela,
assim são os turistas no buraco solar onde nasci, e ele me chama de Potiguar e
eu me sinto verdadeiramente lisonjeado, afinal o Rio Grande do Norte é
praticamente a capital do Brasil, e conversamos sobre a praia de Genipabu,
dromedários e passeios de Bugre, e a vodka corre, corre solta em meu sangue coalhado,
Ana reclama da areia molhada do quintal que manchou seu salto de camurça bege,
minha família liga e eu choro e grito e xingo, falo com minhas três sobrinhas
que ainda não sabem porra nenhuma da vida – e é por isso que as adoro, por não
saberem porra nenhuma da vida –, falo com meu irmão mais novo que é como o
filho que eu não quero ter, e a festa segue, segue com a banda de Rodrigo no palco
armado no começo do alpendre gigantesco e eles executam sutilmente: “Se alguém
por mim perguntar, diga que só vou voltar, depois que me encontrar.”
As coisas mudam
de lugar, mas Cartola continua o mesmo. Cartola que aos cinquenta anos lavava
carros em Ipanema. E aos cinquenta, meu amor, onde estaremos? Em quais ruas
tristes e salgadas lavaremos nossos carros? Se disser que espero estar morto,
minto. Não é de hoje que só digo mentiras a respeito da morte. No entanto, não
interessa. Há sempre uma muleta ao alcance de todos e as minhas estão na
prateleira, e hoje, primeiro de janeiro, minha muleta é Rimbaud, que longe de
Deus pode anunciar: “Na imensa mansão de vidros
ainda gotejantes, meninos de luto admiram imagens maravilhosas (...) Tudo é um
tédio! E a Rainha, a Feiticeira que acende sua brasa num pote de barro, não vai
querer jamais nos contar tudo o que sabe, e que nós ignoramos.”
Em frente à
churrasqueira, Ana e eu nos reconciliados com o mundo. Por um instante, ela
lembra que eu estou indo embora e chora (o que, ultimamente, tem acontecido a
cada dez minutos), balbucia como pode que me ama e chora novamente. A maquiagem
que ela demorou meia hora em frente ao espelho bolando já foi para o beleléu. Escorre
como água suja de seus olhos manchados. É esquisito pensar que se dormimos
quinze noites separados ao longo de três anos, foi muito. Se passamos
um único dia sem nos falar, foi demasiado. E agora planejamos a ausência total
um do outro. Ela com nosso apartamento que será só seu. Eu com minha vida
que agora será só minha – só minha até que Deus me anistie do compromisso de
consciência e sofrimento e humildade tacanha que fantasio para mim.
O dia chega às
sete da matina, estamos nós dois e mais cinco pessoas de uma festa de quarenta
na última mesa de sobreviventes de vodka, uísque e cerveja quente, e Ana já
cantou no improviso Ovelha Negra, Levava
uma vida sosseeeeeegada, gostava de sombra e água frescaaaaaa, Meu Deus, quanto
tempo eu passeeeeei sem saber, e eu
Tudo Outra Vez, Até parece que foi ontem
minhaaaa mocidade, com diploma de sofrer de outra universidadeeeee, minha fala
nordestina, quero esquecer o francês...
Dizer o que se
pensa é uma arte fácil – ainda que não seja grande coisa. Basta falar
instintivamente, utilizar-se das palavras como companhias indistintas a vontade
e ao pensamento. Dizer o que se pensa é a arte do homem que não tem nada a
perder – e se tivesse, de que adiantaria manter o que se tem em nome de uma
falcatrua impossível?
Voltamos pra
casa levados novamente por um taxista que prefere o caminho mais difícil.
Ah, longe de mim me queixar dos caminhos que os outros escolhem em meu nome. Antes
do banho, fodemos a primeira foda do ano que é sempre a melhor. Cansada,
desaba ainda vestida na cama e esquece o chuveiro. Linda, irresistivelmente linda.
Me sinto
revigorado e atônito da vida que me espera como uma cortesã mascarada – não me
esqueço do banho e vou para ele com uma taça de vinho passado que encontro na
geladeira. A água está fria. O sol já alto me lembra que há vida lá fora, vida
desconhecida nas avenidas, ruas, becos, vida que continuará aconteça o que
acontecer comigo, com Ana, com os amigos que há tempos não encontro e tão cedo
não reencontrarei – inclusive convosco, leitor, inclusive convosco que é como
um fantasma camuflado na luz evanescida do mundo.
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