Morreria – quixotada
clássica – tranquilamente por amor. Morreria satisfeito e resolvido, como quem
acaba de almoçar e acende um cigarro. Morreria de frio no Chile e de infecção
alimentar no México, se em Santiago e Guadalajara o amor se encontrasse.
Morreria plasmado por mil demônios e anestesiado no ombro das ondas, se no
inferno e no mar alguém me confessasse uma tormenta de amor.
quarta-feira, 25 de março de 2015
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
De Ponta Negra à Redinha
Como uma mulher esparramada sobre a cama a espera do
amante, assim é Natal. De Ponta Negra à Redinha, duas conduções e um
entra-e-sai de biquínis, bêbados, ambulantes, crianças etc. Da janela, é nítido
e até ridículo: pouca coisa mudou. Penso em minha avó, que viveu na Redinha nos
anos 60 e que há vinte, trinta anos não faz esse caminho. Enclausurou-se em
Parnamirim – e lá morrerá. Certamente, não reconheceria as ruas que deixou, não
reconheceria o trapiche em ruínas da velha praia e acharia a ponte Newton
Navarro uma extravagância visual.
De Ponta Negra à Redinha, parando na Ribeira apenas para
alongar o caminho – desejoso que ando de todas as ruas que guardam um pouco de
mim –, Natal parece ter se perdido dentro dela mesma. Durante os três anos e quatro
meses que passei fora, fiz do Centro e da Ribeira o que de mais puro e
impermisto havia em mim – como o cenário velho de uma peça que não sai de
cartaz. Conheci cidades, conversei com o povo desconhecido dessas cidades
desconhecidas, mas nada, absolutamente nada, me conduz ao passado como as
ruínas abandonadas à morte da antiga Natal.
Descendo a Junqueira Aires, atual Câmara Cascudo, imagino
quantas tardes meus bisavós, avós e pais suaram e sofreram enquanto
atravessavam essa rua – Quantas, afinal, meu Deus? – Quantas vezes sob o mesmo
sol invencível? – De frente para este oceano enraizado no horizonte – Bebendo a
água do mesmo rio – Amando as mulheres da mesma raça – Todas as mulheres desta
terra que são a mesma – No final das contas, acabaremos no Alecrim.
Em Ponta Negra, acolchoaram de
pedras o calçadão. A erosão e a maré têm fome, uma fome inesgotável. À primeira
vista, a engenhoca de pedras está funcionando. Ao meu lado, um casal de
turistas. Pelo atropelo de Je Veux e J'aime e Merci e os biquinhos
intermináveis e redondos, são franceses. Dois franceses pálidos em sua primeira
noite em Ponta Negra. O rapazinho (vinte anos, se muito) agarra a namoradinha
pela cintura e gasta com ela um bom verbo. A namoradinha, assim perdida de si,
retribui o abraço com um beijo demorado ao luar. Só há beleza nos clichês para
quem ama e é amado. Ah, se eu falasse francês... seria um idioma, não uma
solução.
Na Redinha, um mulatinho de seus dez, onze anos, vende
picolés. Grita no melhor potiguara aportuguesado sabores, preços e, entre um e
outro, avisa que faz calor na terra. “Olha, olha, olha o picolé... Enfrente o
sol com um picolé, meu boy... O sol é foda... Mas eu tenho picolé... picolé,
meu boy...” Compro um de cajá e lhe deixo com o miúdo do troco. Agradece e continua
sua marcha infantil de picolezeiro, pois o calor que combate é o mesmo que lhe
põe de comer.
De Ponta Negra à Redinha, Natal é uma, duas, três, quatro
cidades distintas. Onde começa a ilusão, termina a mentira. Enleado ao mar da
Redinha, despeço-me de meus mortos. Saúdo-os como se fossem eles minha pátria,
minha cidade, minha religião errática – saúdo-os porque sei que os mortos que
aqui pereceram, cedo ou tarde, voltarão para nova vida em Natal. De frente para
o mar, exilado em meu próprio chão, nunca um poeta e um verso me foi tão real
quanto “O Natal na terra!” de Rimbaud.
Para além das praias e dos montes,
Rimbaud, excederemos os demônios, os tiranos e a superstição. Tuas vertigens
continuarão fixadas, andarilho de Charleville, e teus silêncios e noites
percorrerão em sonho a cidade do futuro solapada sobre as dunas movediças do
passado.
Sento na areia quente da praia e me pego sem forças para
continuar minha Natal Revisited – Natal
que não é Lisboa, mas que “Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me
sinta.” Duas doses de cachaça são o suficiente para me restabelecer. Por via
das dúvidas, desço três, porque é melhor remediar do que prevenir. Restabelecido,
deixo que a paisagem me consuma. Meu espírito é nostálgico porque fraco. Meus
erros andam tão fáceis de entender que acertar parece não fazer sentido. Fatidicamente,
meu esgoto corre para o mar.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Noite de Ano
(LIVRO)
Escreva amanhã
de manhã como se fosse a última vez, meu amor, ela cochicha. Beba, fume, coma, cante
como se o mundo estivesse para morrer. Até porque hora ou outra um viaduto de impossibilidades desabará sobre nossas cabeças e você só se dará conta do atoleiro que se meteu quando for tarde demais, e é sempre tarde demais, eu tô cansada de saber
disso. Tarde demais para que, eu pergunto, e ela responde Tarde demais para dar
o fora de tudo, mas que se dane, hoje eu só quero relaxar e ver os fogos
explodirem no céu, você sabe o quanto amo fogos de artifício, você sabe que eu
me amarro em tudo quanto é artificial nesse mundo, e estou para nascer hoje à noite uma vez
mais, uma vez mais e não pela última vez.
Ela ameaça
chorar, porque quando bêbada ela arranja um motivo duro e
impossível para chorar, e aí se debate, grita, e duas doses depois já está
feliz e acesa novamente, mas dessa vez ela não chora, e nós nos sentamos no
sofá branco rasgado de três anos de uso e fodas e sintonizamos Cartola como uma
britadeira sacolejando as paredes do apartamento, e também para que as pessoas
lá fora saibam que hoje estamos felizes, ou pelo menos que maquiamos um clima
qualquer de felicidade – e as luzinhas de Natal ainda piscam amarradas a árvore
de palitinhos e pano dourado que ela mesma confeccionou.
A champanhota
vagabunda não chega para onde planejamos ir, e logo passamos para Vodka com
Pepsi, torramos um quarto-zagueiro, daí para Vodka pura um pulo, e de Cartola
para Elis Regina e de Elis para Bob Dylan, sempre ele, o mesmo Dylan que cantou
Like a Rolling Stone também disse Leave your stepping stones behind, something calls
for you, forget the dead you've left, they will not follow you. Que em tradução aleatória para o português vulgaris quer dizer Deixe suas pedras para trás, alguém o
chama, esqueça os mortos que você abandonou, eles não o seguirão.
O mundo, ela me
diz enquanto levanta o terceiro copo de Absolut, o mundo vive uma merda de
decadência romântica, e o que as pessoas são em suas socialnetworks de araque é
muito do piegas, chato, pedante, malcheiroso, e aí ligamos a TV para conferir o
sorteio da mega-sena e definitivamente não estamos milionários. Rasgamos os
bilhetes de loteria, atiramos o papel picado pela janela e ainda da nossa
janela, nono andar, Rua 18, Centro de Goiânia, são dez e dez da noite e podemos
ver um mar de gente pobre e calcinada rasgando a Araguaia em direção à Praça
Cívica, onde o show de fogos acontecerá, e todas elas tão solitárias de si,
gente desse solo arruinado do virtuoso Estado de Goiás, essa terra ondulada e
louca que eu aprendi a amar – e é impossível não pensar que faltam apenas
quinze dias para eu me mandar daqui.
Não é fácil
abandonar três anos juntos vivendo sob o mesmo teto, dividindo a cama, a alucinação
incoercível a par de todas as iguarias possíveis, a dor, o tédio, a dança e,
claro, as contas. Não é fácil abandonar e por isso mesmo, por não se tratar de
uma tarefa fácil, é que vale à pena. Bem, cresci numa casa de nordestinos
pegajosos e nunca lidei verdadeiramente com a solidão. Quer dizer, sempre fui
um solitário, mas nunca estive só. Agora, é uma questão de tempo. Basta sentar
e esperar.
Descemos a Av. Araguaia,
falta precisamente um minuto para o ano novo estourar na consciência das
pessoas e os fogos de artificio pintarem o céu sem estrelas da capital do pequi,
estamos abraçados, eu com uma garrafa escorregadia de espumante na mão e ela
tentando ligar para os pais antes que o ano novo seja oficialmente decretado
pelas autoridades do mundo, mas ela não consegue falar com os pais e a garrafa
gela em minhas mãos, faltam agora alguns segundos, nos olhamos, nos beijamos, e
vivemos a cena que ao longo da vida assistimos duas mil vezes repetida no
cinema – o locutor do espetáculo puxa a contagem regressiva, dez, nove...
cinco, quatro... três, dois, um... e o ano novo chega – ah, pobres dos que tem consciência do fim ou do começo de
qualquer coisa – a esses chamamos profetas e merecem todos, sem exceção, a
fogueira, a guilhotina e por que não um caso de amor fracassado? Onde está o
cotidiano, ela me pergunta, onde está o cotidiano a essa hora da vida para nos
salvar do fim, amor?
Sim, meu bem, não
pude e/ou consegui dizer antes, mas o faço agora: o cotidiano não existe, o que
há é a inércia dos nossos sonhos ultrapassados, o convite para viver a vida que
não planejamos – pois nenhuma vida é digna o suficiente para ser planejada.
Improvisemos, meu amor, improvisemos como o comediante que esqueceu o fim da
piada, improvisemos porque a vida é uma anedota velha, gasta, sem graça,
improvisemos porque viver é essencialmente sofrer, e porra, uai! não foi você
quem me apresentou toneladas de livros budistas e indianos e teorias do amor impermanente
e tântrico e cósmico e a putaqueopariu na esperança de que a ressaca não nos
encontrasse na manhã seguinte?
Dentro do taxi,
rumo à festa de ano novo de um amigo em sua casa nova, quintal gigantesco,
bebida e carne, e as mesmas velhas pessoas que abraçaremos como se fossem
outras, Ana é só alegria, sorri baratinada para a cidade da janela do carro e
eu me contorço todo de êxtase movido pelo álcool, pelo clima, situação, hora,
data, local, tudo, e damos a mão enquanto o taxista toma o caminho mais longo e
confuso – e o que seria de mim se não fosse enganado uma vez mais pela vida,
agora condignamente representada pelo taxista em sua odisseia contínua com o
taxímetro?
O taxímetro
aponta trinta e quatro reais e já estamos no Jardim América, Viviane nos recebe, abraço Rodrigo e saco o charuto cubano
Romeo y Julieta que comprei para ele, ele me dá uma caneca do Corinthians que
aliás esqueci em sua casa após nove ou dez doses de vodka com energético, e
sentamos na última mesa vaga da festa, em frente à churrasqueira comandada por
um carioca amigo de Rodrigo que teve o pai fuzilado por cinco tiros de tauros
na porta de casa, ele faz questão de dizer, cinco tiros de P.T., meu pai morto
sem chance, e ele, o carioca comandante da churrasqueira, o filho do pai morto,
esteve em Natal, sim, esteve e adorou a cidade e nunca viu coisa mais bela,
assim são os turistas no buraco solar onde nasci, e ele me chama de Potiguar e
eu me sinto verdadeiramente lisonjeado, afinal o Rio Grande do Norte é
praticamente a capital do Brasil, e conversamos sobre a praia de Genipabu,
dromedários e passeios de Bugre, e a vodka corre, corre solta em meu sangue coalhado,
Ana reclama da areia molhada do quintal que manchou seu salto de camurça bege,
minha família liga e eu choro e grito e xingo, falo com minhas três sobrinhas
que ainda não sabem porra nenhuma da vida – e é por isso que as adoro, por não
saberem porra nenhuma da vida –, falo com meu irmão mais novo que é como o
filho que eu não quero ter, e a festa segue, segue com a banda de Rodrigo no palco
armado no começo do alpendre gigantesco e eles executam sutilmente: “Se alguém
por mim perguntar, diga que só vou voltar, depois que me encontrar.”
As coisas mudam
de lugar, mas Cartola continua o mesmo. Cartola que aos cinquenta anos lavava
carros em Ipanema. E aos cinquenta, meu amor, onde estaremos? Em quais ruas
tristes e salgadas lavaremos nossos carros? Se disser que espero estar morto,
minto. Não é de hoje que só digo mentiras a respeito da morte. No entanto, não
interessa. Há sempre uma muleta ao alcance de todos e as minhas estão na
prateleira, e hoje, primeiro de janeiro, minha muleta é Rimbaud, que longe de
Deus pode anunciar: “Na imensa mansão de vidros
ainda gotejantes, meninos de luto admiram imagens maravilhosas (...) Tudo é um
tédio! E a Rainha, a Feiticeira que acende sua brasa num pote de barro, não vai
querer jamais nos contar tudo o que sabe, e que nós ignoramos.”
Em frente à
churrasqueira, Ana e eu nos reconciliados com o mundo. Por um instante, ela
lembra que eu estou indo embora e chora (o que, ultimamente, tem acontecido a
cada dez minutos), balbucia como pode que me ama e chora novamente. A maquiagem
que ela demorou meia hora em frente ao espelho bolando já foi para o beleléu. Escorre
como água suja de seus olhos manchados. É esquisito pensar que se dormimos
quinze noites separados ao longo de três anos, foi muito. Se passamos
um único dia sem nos falar, foi demasiado. E agora planejamos a ausência total
um do outro. Ela com nosso apartamento que será só seu. Eu com minha vida
que agora será só minha – só minha até que Deus me anistie do compromisso de
consciência e sofrimento e humildade tacanha que fantasio para mim.
O dia chega às
sete da matina, estamos nós dois e mais cinco pessoas de uma festa de quarenta
na última mesa de sobreviventes de vodka, uísque e cerveja quente, e Ana já
cantou no improviso Ovelha Negra, Levava
uma vida sosseeeeeegada, gostava de sombra e água frescaaaaaa, Meu Deus, quanto
tempo eu passeeeeei sem saber, e eu
Tudo Outra Vez, Até parece que foi ontem
minhaaaa mocidade, com diploma de sofrer de outra universidadeeeee, minha fala
nordestina, quero esquecer o francês...
Dizer o que se
pensa é uma arte fácil – ainda que não seja grande coisa. Basta falar
instintivamente, utilizar-se das palavras como companhias indistintas a vontade
e ao pensamento. Dizer o que se pensa é a arte do homem que não tem nada a
perder – e se tivesse, de que adiantaria manter o que se tem em nome de uma
falcatrua impossível?
Voltamos pra
casa levados novamente por um taxista que prefere o caminho mais difícil.
Ah, longe de mim me queixar dos caminhos que os outros escolhem em meu nome. Antes
do banho, fodemos a primeira foda do ano que é sempre a melhor. Cansada,
desaba ainda vestida na cama e esquece o chuveiro. Linda, irresistivelmente linda.
Me sinto
revigorado e atônito da vida que me espera como uma cortesã mascarada – não me
esqueço do banho e vou para ele com uma taça de vinho passado que encontro na
geladeira. A água está fria. O sol já alto me lembra que há vida lá fora, vida
desconhecida nas avenidas, ruas, becos, vida que continuará aconteça o que
acontecer comigo, com Ana, com os amigos que há tempos não encontro e tão cedo
não reencontrarei – inclusive convosco, leitor, inclusive convosco que é como
um fantasma camuflado na luz evanescida do mundo.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Meus dias em Goiânia estão chegando ao fim. Escrevi, reescrevi e
trescrevi esse mesmo lero ao longo das ultimas semanas. Exaustivamente,
reproduzo cenas, abraços, despedidas, imagens, frases, sons, impressões que
dizem mais do passado que do futuro-provável. A única história que me interessa
é a minha em Goiânia. Em minha cabeça só há espaço para o turbilhão que essa
cidade foi e o que ela será para mim depois de minha partida. Que as coisas
continuam com ou sem nossa presença, que as pessoas seguem adiante e as paisagens
e os carros, é o óbvio e será sempre assim. O importante é como o passado nos
possui, ainda de sua distancia.
Prestes a deixar a prisão, penso-a como nunca dantes. Alcatraz é Goiânia. Não possuo estômago, nem disposição para correr atrás de outro assunto. É assim na vida, é assim na escrita. O que significa que dando no pé ou não é sobre isso que escreverei... fatidicamente. É incrível que durante dois anos e meio acoplado aos arranha-céus GYNianos e à noite pura e selvagem e às pessoas... eu tenha escrito, essencialmente, pouquíssimas páginas sobre o que se passou comigo aqui. Comigo fumado da cabeça aos pés. Comigo com o bolso cheio. Comigo repleto de impressões. Comigo ao lado de Ana. Comigo estorricado de sol. Comigo paranoico. Comigo fodido e mal pago... Meu olhar estava sempre voltado para a ficção, para o passado (em breve, lá estará minha exuberante e caustica Goiânia), para o que, então, eu considerava inalienável.
Sinceramente, me pergunto: com o que me preocupo mais: A vida ou a escrita? Viver para escrever, como disse o outro? Escrever para continuar de pé, atento, desengonçadamente preparado? Viver para que, uma vez escravo da vida, ela forneça ao escritor material verdadeiro e autêntico? Escrever para que a vida não se amofine como um vira-lata cansado de comer do lixo? Penso que é impossível separar uma da outra, lalalá. Mas são duas coisas distintas, por mais que tentemos juntá-las como irmãs siamesas que comem do mesmo prato.
A vida, quando passada aqui no papel, quase nunca é insuportável. Os
acontecimentos adquirem novos ritmos, as sombras ganham corpo, os
olhos alcançam o que raramente percebemos quando em ação. Ao passo que
Ao Vivo, só para manjar Belchior, é muito pior. Sofrimento e felicidade
andam de mãos dadas, o mesmo instinto impulsivo trabalhando sobre os homens...
Amando-os, fodendo-os indiscriminadamente, arquitetando-os insustentáveis, para
que um dia acabem todos vítimas do mesmo carrasco. E nada é uma questão de
sorte... nada.
domingo, 9 de março de 2014
Cap. 07 -
Lá com
meus treze anos... estava pronto pra sair da prisão. Por “pronto” entendam
despreparado. E por “prisão” leiam a única forma de vida que eu conhecia. Como
uma história brasileira de liberdade, o colonizador seria o libertador.
Já
estava cheio, por aqui de crendices. Entalado. Não sentia em mim um simples
estalo de vida verdadeira. Apenas tédio, ilusão, superstições... Esturricado de
superstições. Obviamente, eu estava errado. Errado, sim, ao pensar que tudo o
que vivera até então não era vida, mas uma subvida, uma existência regateada. Indigesta
porque me enfiaram o alimento goela abaixo. De fato, a indigestão não era outra
coisa senão vida. O que fiz? Declarei guerra aos deuses de minha casa. Eu estava
enfadado. Cansado do Deus dos outros. Cansado de cantar a canção que escolheram pra mim. Toda minha existência me parecia uma grande farsa. Qualquer outro, um pouco mais imbecil, mergulharia ainda mais fundo no
rio de merda. Faria do desencanto uma dócil quimera. Do cão raivoso um
pequinês que ladra... mas não morde. Naquelas de tacar fogo no circo, eu disse: “Não acredito em
Deus. Que se foda, ele e o maldito Vaticano onde nasci.” No fundo, ainda
acreditava. Como não acreditar? A blasfêmia é a oração da desesperança - ainda assim, uma oração.
Todo domingo a família se reunia na casa de minha avó. O Deus deles ensinava que a família é uma entidade sagrada. Invariavelmente alguém dava um jeito de por Deus na conversa. Mezzo Nietzsche, mezzo Pedro de Lara, entre uma garfada ou outra de salpicão, eu atravessava: “Deus é
uma farsa, Deus é uma aberração.” Mas era da boca pra fora. Estupidamente, da
boca pra fora. Tentei,
a todo custo, crer na ideia de que Deus não passava de um pesadelo coletivo. Um pesadelo
dispendioso, inverossímil. Um pesadelo concebido numa noite escura de medo e ignorância.
A única maneira possível de não meter Deus no limiar dos acontecimentos seria
esquecê-lo. Evitá-lo. Mas como esquecê-lo, se marcava reunião lá em casa, no cômodo ao lado, com seus macaquinhos, terça, quinta e domingo? E como
desfazer-me dos macaquinhos se eu mesmo urrava, comia banana e coçava o cu como
um chimpanzé? Era impossível me desvencilhar da perdigueira de milagres... Das
duas mil horas de voo a cabo do sobrenatural. Deus, sim, esse me perseguiu. Não
porque tentasse me devolver ao rebanho, não por zelo de criador... Mas
por galhofa, fastio mesmo. Não sei. É provável que tivesse outros cinco bilhões
de pessoas aglutinadas no planeta sob sua supervisão. Gerente de um
empreendimento falido. Ou melhor: pensei, bastante convicto certo tempo, que
Deus inventara um sistema com vida própria capaz de mover as engrenagens do
mundo por si só. Autossuficiente. Que não precisasse de seu auxílio. Também
carecia, ora, O pobre general, O maestro inolvidável, de dias santos, pontos
facultativos, feriados religiosos... É provável que tenha dado vida à vida. Está pouco se
fodendo pro destino dos homens. Que os “filhotes” cresçam débeis e alucinados,
viciados em crack, caixas de supermercado, banqueiros, marxistas, fascistas,
nordestinos, gaúchos, pindamonhangabenses. Eles que façam o próprio destino. Que
modelem no vazio quixotesco da carne a felicidade e a miséria. A infelicidade e
a riqueza. Que aprendam a escrever no próprio idioma. Contudo, há uma mão invisível
acendendo e apagando as luzes. Apertando os torniquetes e decepando as cabeças.
Uma mão sem cor ou cheiro que construiu toda a matéria e luz num lance de
solidão. E a solidão é o presente dos que se atrevem a entender.
Pensando com meus botões... se houvesse criado o universo, da maconha ao salaminho, do maoísmo às
chicas paraguaias, faria igualzinho. Melhor: seria um
pouquinho mais egoísta. Seria, por sua vez, Grego, não Hebreu. Aristóteles, não
Moisés. Confundiria meu sangue com o sangue de belíssimas espécimes. Brancas Gordurosas,
Helenas de Tróia, Rainhas Egípcias, Índias Piauienses, Escravas Angolanas, Mulatas
do Salgueiro, Ninfetinhas do Youtube. Imaginação, creio, é um passatempo que
não faz mal a ninguém. Que dirá aos Deuses, que vivem disso.
Aos
onze anos, comecei a ler qualquer coisa que me caísse às mãos. O que pintasse
eu lia. Li Álbum de Família, Nelson Rodrigues. Saí maravilhado com a podridão
dos personagens. De queixo caído, roçando os calcanhares. Então é possível? Ser
fraco, vil, néscio, avacalhado, profundo, e ainda alcançar a verdade sem
culpa... Despreocupadamente? Escrevo a palavra “verdade” e quase tenho um
acesso de riso. Gargalho... Pronto, já foi. Contenho-me. Preciso continuar a
escrever. O que eu sabia de verdadeiro? Merda nenhuma. Não mais que um babuíno.
Muito embora me dispusesse em mentiras, invencionices, a verdade, já aquela época,
tinha um gostinho especial. Em outras palavras: a verdade era uma puta
inatingível, uma mulher que eu esperaria um tempo mais pra comer.
Ademais,
é um encontro inevitável. O homem babuíno com sua verdade. Se eu fugisse dela,
no final das contas, não encontraria outro monstro senão minha face descabelada
esculpida no espelho embaçado. Não encontraria outro monstro senão... eu.
Na
biblioteca do colégio – isso numa cidade estorricada, litorânea, Natal quente,
Natal de sunga – na biblioteca do colégio o mundo parecia feito de uma substância
em total diferente daquela que eu abandonava minutos antes de cruzar o corredor
lacônico, girar a maçaneta de prata da porta antiga imensa de madeira esculpida
com um cartaz escrito “Não faça barulho, grato. Ass: A direção”... Pra então encontrar
um paraíso silencioso e frio. Um paraíso de prateleiras. Longas mesas
envernizadas. Livros antigos com o carimbo do Gustavo Capanema, ministro do
Getúlio. A biblioteca era gigante, e quanto maior a biblioteca, mais despovoada.
Numa prateleira escura, tropecei em Gaia Ciência. Em três aulas cabuladas,
matei o volume. Conseguinte, O Anticristo e Zaratustra. Nietzsche me ensinou
muito. Tinha o que dizer. E disse, o que é mais importante do que apenas tê-lo
a dizer. Pus na cachola: só vale a pena se houver algo a ser dito. Eu não fazia
ideia do que dizer. No entanto, far-se-ia necessário abrir a boca. Empunhar a
pena bamba, escorregadia. Ser um escritor. Agir como um escritor. E o mais
importante: agir em silêncio como um escritor. O silêncio não era de todo ruim. Naturalmente, um livro me levou a outro.
Certa
vez, roubei um exemplar da poesia completa do Garcia Lorca enfiado dentro da
cueca. Ainda no pátio do colégio, enfureci-me de vida, êxtase, fascinado com os
saiotes que iam e viam movimentando anarquicamente as pernoquinhas luzidias. Lorca
em minha cabeçola tocando a dispneia do prazer. Na contracapa, dizia que era viado, maricon. Paris é uma festa:
talvez o punhal mais profundo daqueles dias de umidade bibliotecária. Paris,
Paris! O que havia naquela cidade que homem nenhum encontraria fora dela? Hemingway
disse: conte sua história. Sim, contarei minha história. Mas que história, se o
que tinha era uma história incompleta? Eu já era um escritor. Lia e escrevia
todos os dias. Arranjei um diário. Enchi o peito: “Quando a ânsia surgir em
mim, como um maremoto arrastando casas, sento e escrevo.” Sentar e escrever,
ponto. Não abri o jogo pra ninguém. Fiz-me de imbecil. Pra passar melhor,
claro. Escondi o tal diário debaixo da cama como se fosse uma magazine pornô. Quando
a tal ânsia surgia, que nem um espírito epilético ansioso por se comunicar, eu
sentava e mandava brasa. Inventava uma história sem pé nem cabeça. Deixava
minha impressão sobre as histórias de outros escritores, geralmente o que havia
lido pela manhã. Narrava, tão somente, o aspecto físico das pessoas que me
rodeavam, sobretudo as mulheres. Eternamente as mulheres. Em geral, era mais um
pintor do que um escritor. Descrevia o estado bruto das coisas, não as ideias.
Meu
discurso de garotão, então, uma colcha de retalhos. Recitava, imitava, plagiava os figurões que lia a ponto de sabê-los de cor – à noite, dormia com
o pensamento no que leria no dia seguinte... Pensando, também, numa história
inédita, uma história que nenhum outro homem jamais escreveu. Pus na cabeça...
meio zureta: Uma história original. Preciso de uma história original.
Exasperado,
entre a esperança e o torpor... Eu escrevia. Abandonava-me à insônia. Sentava
no chão frio. Apoiava o caderno na cama amarrotada. Em transe, escrevia uma,
duas, três horas. Por fim, relia o primeiro parágrafo. Achava tudo bastante descartável.
Uma bela bosta. Como quem dá aquela olhadinha de soslaio na merda que acaba de
soltar e puxa a descarga. Reler o primeiro parágrafo era o bastante. Rasgava o
que havia escrito e dormia em paz.
terça-feira, 4 de março de 2014
Os cadáveres estão na prisão, e a prisão é foda
"Eu não estou
interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais..."
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais..."
Belchior
O que nos aproximou foi a escrita, a vontade em comum que
tínhamos (não sei se ainda temos, ou pelo menos se eu ainda tenho) de escrever
e ver toda uma vida lúgubre e salgada alforriada pela escrita. Um escritor, quando
não é um completo covarde, é alguém que injeta em si doses de coragem infantil
e estúpida. Infantilizado, está disposto a morrer. Não está preparado para
morrer, mas, digamos... disposto. Antes da morte, o escritor sonha com o
sacrifício. Como um selvagem ruim, sacrifica os “pilares” do mundo ordinário e
obrigatório. Família, dinheiro, amor, religião. E por que o faz? O faz com um
olho na glória, outro em si. O faz por medo da asfixia.
Acredito que o verdadeiro escritor – uma espécie de ser
humano que ainda não existe, ou que existe somente no imaginário heroico dos leitores –
é aquele que está a todo instante prestes a se suicidar ou ser assassinado. Não
digo que morrerá assim ou assado – pouco me importa a situação que um homem é apresentado
ao coveiro. Digo que há uma ferrugem, uma dor psicótica, uma felicidade alcantilada,
uma paranoia corriqueira alojando-se sobre a terra e sob nós. É uma realidade
que cresce da terra, e não dos céus.
Por hora, há um distante gosto de morte em tudo quanto é
vida. Não é um gosto ruim, mas incomodo. Não é um presente dos Deuses, mas uma
benção da carne.
Ele, meu amigo escritor, Rogério Medice, foi o mais infantil
dos homens que conheci. Comportava-se, literalmente, como uma criança aparelhada
de uma inteligência fora do comum, excepcional. Se sorria, sorria pelos mesmos
motivos que levam uma criança a sorrir. Se esperneava, esperneava como uma
criança insatisfeita e bêbada. Se era um homem consciente? Claro, como não? Consciente
e auspicioso, como são os bons escritores; mas seu talento também era o talento
da criança que não sabe onde pisa.
Antes de Rogério Medice, tive alguns amigos “artistas”.
Sobretudo escritores. Enojei-me de todos. Enojei-me porque: ou eram chiques e
refinados, ou faltava talento na negociação. Talento essencial para falar, talento para
beber, talento para andar, talento até para fracassar. Quer dizer, sempre
preferi gente de verdade. Gente que não tem a obrigação espiritualeba de ser
profunda, de aparentar e distribuir profundidade – profundidade, em poder
desses asnos, é confete. Gente que não está preocupada com o individualismo
Kierkegaardiano nem está a par da história de nada. Em resumo: me dou
muitíssimo com os ignorantes, os idiotas assumidos, as bestas feras. Quer
dizer, nem tanto ao sul nem tanto ao norte. Sem dúvida há mais sabedoria nos
manicômios que nas universidades. Nos bares silenciosos que em toda música do
universo. Nas cidades arrasadas pelo tédio que nas metrópoles conquistadas. O
que eu não suporto nesses homens da arte é o mesmo que não suporto em mim: uma superioridade
estoica, virtuosa, forjada em aço. Uma superioridade que é como uma droga
aborrecida. Que é como o mel para abelhas diabéticas.
Quando nos conhecemos, eu era o cara da comparação.
Comparava-me a tudo, do reles ao espetacular: “Será que essa cara escreve
melhor do que eu? Será que é pior?” Desejava-lhe, claro, que fosse um milhão de
vezes pior. Um milhão de vezes mais detestável e abominável... como escritor e
como homem. Tentei acertá-lo na mosca, analisá-lo, mas não era um tipo
qualquer. Esquartejado, verborrágico, mentiroso, dúbio, torpe... capaz mesmo do
mais crédulo e tenro afeto... quando lhe convinha, claro. Em parte pelo que
escrevia, em parte pelo mise-en-scéne que
praticava na mesa de bar, não era uma análise fácil.
Há um infinito de tipos e variedades de escritores. Há os buchas, que sugam tudo de outros escritores, amputados de uma mísera ideia original. Há os fracassados, que sonham objetivamente com a vitória. Há os desgraçados, que só tem olhos para a lama e se alimentam bravamente dela. Há, em menor escala, claro, os dinheiristas, que fariam Shopenhauer levantar do túmulo para uma longa cagada. Há, inclusive, os que escrevem simplesmente para dormir em paz. Que tipo de escritor eu sou? Só o esquecimento dirá. Alegra-me saber que seremos todos esquecidos. Desgraçadamente esquecidos. É um pensamento legal que eu tenho... esse do esquecimento. Dure um ano ou um século, seremos esquecidos. Irremediavelmente apagados da lembrança, do consciente dos homens. Ainda que algo de nós permaneça fincado no solo ruim da eternidade, uma imagem que seja, será essa uma imagem mentirosa, borrada, deturpada. Já sonhei o bastante para saber que os sonhos afastam o homem do conhecimento, da vida propriamente dita. Se sonho com o conhecimento?... É possível.
Dizia que a
escrita nos aproximou. Bem, as almas de verdade estavam todas na prateleira.
Ainda estão, posso garantir. Não tive uma infância triste, mas inusitada. Não
tive uma adolescência claustrofóbica, mas desengonçada e ufanista. Banquei o mini-Dionísio
oitenta e cinco por cento do tempo dopado, viciado, louco pacas. O que me
aproximou dos livros? A sede de despertar. Despertar da vida ou para vida? Tão
insuficiente quanto a vida... são as respostas que arranjamos para justificá-la. O artista é aquele que começa do zero e
começar do zero implica numa série de tratativas e especulações galácticas que
podem enlouquecer ou desabilitar o mais consciente dos homens. Começar do zero
implica em: danação, angustia, catarse... Ademais, há um brilho de felicidade
lunática nessa merda que vale o esforço. Ah! Tempos de insurgente metafísica!
Tempos de Álvaro de Campos! Tempos de naufrágio, dor e alegria desmotivada! É
como se a vida, reinventada, ainda que por um curto período, adquirisse
contorno e ritmo e sentido – por mais patética. Não faço a mínima como vive o
homem incapaz de vida intelectual. Incapaz de comover-se diante da arte – e é
justamente com esse tipo de nego que eu convivo todos os dias. Eles, Os incapazes, são meus seres humanos de
estimação: talvez eu também seja o deles, o cachorrinho que escreve, o filho
pródigo, o vizinho cabeludo, o rapaz sentado ao lado no ônibus apinhado.
Acredito em
Deus, sem dúvida. Enrolei-me pra burro com o Deus inquisidor dos homens que me
apresentaram a Deus. Por fim, criei meu próprio Deus. Dei-lhe regras, tábuas...
fiz dele minha imagem e semelhança. Hoje, ele e eu conseguimos ocupar o mesmo
quarto, o mesmo horizonte perverso. Rimbaud, o homem do “Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade. É o mar misturado ao sol”, ouviu, certa vez, de um padre,
que ele tinha “a maior fé já vista em um homem. Uma fé lúcida e corajosa.” Quis, durante muito tempo, a
fé rimbaudiana. A fé que não é cega, mas que vive envolta em delírios. Quis
essa fé antes mesmo da leitura dos grandes poetas e antes da invenção de meu
próprio Deus justo e sábio – justo e sábio aos meus olhos, claro. A fé genuína
e a grande arte, assim acredito, são a mesma coisa. Ocupam o mesmo pedaço devastado
de terra. Dividem a cama como prostitutas companheiras de quarto após uma noite
de trabalho estafante.
Porra, chega de enrolação. O melhor, sempre, é ir direto ao
ponto: A escrita nos aproximou, sim. Eu era um escritor. Ele, outro. Éramos
dispares e no entanto alimentávamos a mesma insegurança, a mesma ideia mutante
de ganhar o mundo e com ele os... leitores? (sic). “Os leitores, meu amigo, não
existem”, eu disse. Respondeu-me “Não escrevo para eles, escrevo para mim.” Eu
tinha vinte e um. Ele, trinta e três – acho. Crescemos em gerações aberrações diferentes.
Ideias e bitolações diferentes. O artilheiro da minha infância fora o Romário. A
copa perdida de 94. O artilheiro de sua infância: Zico. A copa vencida de 82. Ele
viveu um bocado cego em torno de almas negras e esfumaçadas. Eu vivi um bocado de
olhos abertos entre espíritos de luz inefável e Deuses abastados. Ele cresceu
numa casa sem pai, de mãe carola e irmãos neuróticos e autocentrados. Eu, numa
casa de kardecistitas positivistas, numa família de trezentos anos e trezentos
habitantes. Ele, carioca de cidade dormitório. Eu, nordestino litorâneo. Em
comum, o mar. A presença equidistante do mar. A presença aniquiladora do
Atlântico azulado e suas ondinhas de balada do Tim Maia – o tal infinito indo e
vindo. As praias docemente negadas. As bucetas estrondosamente abertas para o
conhecimento de si, e sim, sim, sim! Porque é nelas que começamos a longa
jornada desértica de miragens: a jornada da perdição. Primeiro, perdemos um
pouco de si; depois, perdemo-las para todo sempre até que nova buceta apareça. É
no outro (bucetas, cus e caralhos, vai do gosto) que ambicionamos, pela
primeira vez, nos enxergamos de relance. No outro está uma parte de nós que nem
toda solidão e iluminação monástica podem alcançar. Dentro de uma caixinha
dourada, muitíssimo bem escondida dentro do outro, está A parte que nos cabe. Ao abrir a caixinha, encontramos pouco, ou
quase nada. No entanto, se não se abre a tal caixinha, corre-se o risco de passar
o resto da vida curioso para saber o que há dentro dela.
Éramos escritores... já disse isso? Em pior das hipóteses:
nos comportávamos como escritores. Bocejávamos e bebíamos como escritores. Durante
algum tempo, elogiávamos um ao outro, porque, em geral, é esse o passaporte da
amizade literária: o elogio mútuo, o intercambio de bajulação para que ambas as
alminhas prossigam sem nenhum sobressalto. Escritores no País das Maravilhas. Como
bons animais de rua, exibimo-nos, contamo-nos, inventamo-nos... senão para
despertar a atenção um do outro, ao menos para nos aceitarmos primariamente.
Trombamos em Goiânia, palco de nossas cruzadas
particulares, palco da dança sem música. Indissociavelmente, estávamos nessa
(Goiânia sertaneja de baixa umidade) por conta e causa de mulheres. Ele com a
dele que o sustentava. Eu com a minha que eu ambicionava sustentar.
– Quer dizer que André, o escritor, acredita em Deus? – foi,
precisamente, a terceira coisa que me perguntou. As duas primeiras não
interessam. Rogério achava Deus um utensilio dispensável. Não concordava que em
meio a criação de um mundo espetacular de livre-arbítrio Deus desencadeara a
dor e a derrota.
– Criado onde eu fui criado, só assim, cara – eu disse,
mostrando-lhe a medalhinha de São Jorge e o anel de prata com a estrela de Davi.
Era minha segunda semana em Goiânia.
Coincidentemente, eu estava de malas prontas para Goiânia
quando Médice, através do Correios & Telégrafos de nosso tempo, a internet,
pediu-me um exemplar de O Oxum da rua de trás (livro que havia acabado de
lançar) e papo vai, papo vem, ficamos de nos encontrar quando de minha chegada
à terra dos planaltos depauperados, a terra da meleca seca.
Sentamos no primeiro pé sujo que encontramos, entre a 3 e a
Araguaia. O sujeito foi logo falando de concursos e isso e aquilo e “em breve
ganharei um concurso literário e lavarei o cu com a grana, bicho, grana boa,
grana publica, grana que interessa.” Eu lhe disse que minha ambição era
escrever um grande livro de verdade e para provar minha real ambição improvisei
umas palavrinhas bonitas como é de costume e assim, através dos falsos sonhos
irrealizáveis... apresentamo-nos. Estávamos, cada um, no limiar de si.
Encruzilhados pela vida e suas circunstancias. A vida, estrepitosamente, nos
carregava, cada um a sua maneira, à escrita, ao encontro inadiável com a
própria voz. A própria voz que para um escritor é como a descoberta de um Deus
justo e sábio entre um milhão de Deuses sortidos. Um escritor só consegue a
própria voz após um longo período imerso em rouquidão. Após gritar como um
desiludido e após digerir um furacão. Havíamos gritado o suficiente? Habitava
um furacão adormecido em nossos estômagos calejados? O certo é que estávamos
próximos... próximos o suficiente para nos julgarmos conscientes, hábeis...
O que não esperávamos – nem de longe, acho – é que essa mesma escrita redentora, essa capacidade de analisar a tudo e emitir opiniões e estilos, essa droga exaustiva e sem volta, desempenhasse também o papel de carrasco. Não digo que nos executaram – ou que ela nos executou. Não digo porque ainda demorará pacas até que saibamos os pormenores de nossa própria gran execução.
Toda história é um prólogo do passado verdadeiro, ou da
impressão do passado. É impossível que a escrita, por mais confessional,
reproduza absolutamente a verdade dos fatos, as vozes, as ideias. Também não é
essa sua função. Que tipo de imbecil confiaria cegamente na verdade? Antes, em lugar da
lucidez do mensageiro, me fosse confiado o dom hipnótico dos videntes. Meu pai
foi um grande vidente, e isso não chega a ser uma novidade. Vivo a espalhá-la
por onde passo. Meu pai nunca foi flor que se cheire. Todavia, o velho me ensinou o que significa realmente santidade. Santidade
falsa, debochada, egoísta, mas santidade. Santidade que mais tarde mostrou-se nitidamente
falsa, debochada e egoísta. Quando percebi o buraco de rato que meu pai se meteu, apaixonei-me duplamente. Pelo santo... e pelo demônio que havia nele. Inegavelmente, a hora e a vez do buraco de rato de qualquer homem é questão de tempo.
Passamos a nos ver diariamente. Certo tempo, encontrava-o
quatro, cinco vezes por semana. Sobretudo em minha época de vadiagem goiana.
Vivia com o pouco que restava de minha vida de jogador de pôquer e com o que
minha família depositava na conta. O suficiente – não mais.
Embora dissesse o contrário, Rogério era um homem de sorte. Era
um escritor em guerra contra o mundo, embora o mundo não fosse sequer um
adversário difícil de bater, mas um lutador que se recusava a lutar.
– Cara, eu não sinto saudade de nada – ele começava. – Eu só
acho que a vida podia ser menos parada. Às vezes eu até consigo alcançar
isso... esse movimento... sabe? Mas todo movimento estanca. Eu não preciso
batalhar nada. Eu tenho tudo na porra das mãos. Talvez seja isso boa parte do
tédio que habita a merda desse décimo sétimo andar. Se eu quero salmão, eu vou
lá e compro. Se eu quero beber um uísque caro, eu vou lá e bebo. Dinheiro não é
problema. Se dinheiro fosse problema, quem sabe eu fosse mais feliz. Mas não é
essa a questão. Eu já fui um cara feliz, um cara normalzão. Eu me pego
imaginando o tempo que eu trabalhava no escritório de contabilidade e eu até
acreditava que aquele escritório iria pra frente. Você tá me entendendo? Eu
acreditava, cara, seja lá no que fosse! Eu acreditava na vida comum, eu
acreditava que fosse possível viver. Mas o foda é que eu não vivia. Chegou um
tempo em que cansei de tudo. Dos amigos, da família, da cocaína, do trabalho,
da cidade, e tudo pesou sobre mim como se eu fosse uma barata suportando o peso
de um elefante de aço. Eu chegava em casa de manhã travadaço de pó e via minha
mãe, minha irmã e minha sobrinha tomando café, e era como se eu houvesse
chegado de uma guerra estúpida. Eu não queria nada, exceto distancia daquilo. À
noite, eu me trancava no quarto e a guerra continuava. O barulho era terrível!
Você tem ideia do barulho que faz uma guerra? Ainda mais uma guerra imaginária?
Eu lhe observava grunhir & grunhir e sua voz era o
gemido bêbado de um gárgula no topo de uma igreja em ruínas, no topo de uma
igreja em ruínas numa cidade abandonada, no topo de uma igreja em ruínas numa
cidade abandonada presa a uma Era fria e esquecida da vida humana.
Chegara a Goiânia em petição de miséria. Viciado, esfolado,
sem um puto no bolso, abanando o próprio rabo. Desembarcara para o matrimonio
com Virginia – que por sinal era sua prima –, boa e solitária o suficiente para
lhe receber de braços e bolsos abertos. Estabilizado em Goiânia, conquistou dos
céus o que a vida, por vezes, demora a ofertar a maioria dos homens: tempo para
escrever, uma mulher para deitar e o anonimato numa cidade desconhecida e
parada. Não havia do que se queixar. Mas ainda era um náufrago achafundando
numa civilização aquém de seus anseios.
Estava a escrever um livro, um diário de arabescos, sobre o
completo e absurdo tédio: Parlamintite. Queria, entre outras coisas, reproduzir
o silêncio da vida comum, porque acreditava ter descoberto a causa de todos os
abismos do mundo: a banalidade, o cotidiano... esse massacre a céu aberto
repetido a exaustão todos os dias da terra. Era um apaixonado pelas engrenagens
da vida comum, ordinária. Afinal, era essa a vida que levava. Engaiolado no
apartamento. Aturdido às três e meia da tarde no bar da esquina. Lendo seus Dostoievskis
e maldizendo a si, ao mundo, a esperança e tudo mais que soasse convencional e,
segundo ele, “a tudo que um dia tentou me destruir”. Em lugar de ser destruído
por outros, destruía-se ele mesmo. Uma
escolha sábia para quem tinha 33 e nenhum patrimônio. Nem carro, casa, moto,
uma bicicleta que fosse. Em seus grandes momentos de insatisfação, fascinava-se
com a vida na rua:
– Se a Virginia um dia me largar, eu vou morar na rua. Eu
penso muito nisso, cara. Viver na rua, não sei fazendo o quê. Dormindo em
praça, catando papelão, não sei. Mas a rua é a melhor opção. Você acha que eu
tenho jeito pra voltar pra casa da minha mãe? Morar com minha irmã? Só a rua
pode me absorver. Ou você acha que eu não sei me virar? – perguntava-me como se
eu duvidasse de toda merda encalacrada que ele viveu até ser abduzido pelo
vidão goiano.
Virginia lhe dera mais que estabilidade e um teto. Dera-lhe a
chance de mergulhar na escrita, de escrever pra valer. Uma cadeira, lápis e papel. Material para
embrutecer um Deus e comida o bastante para engordá-lo como um porco rosa e
peludo. Por outro lado, Virginia não lhe cobrava “resultado”. Não lhe cobrava
que fizesse às vezes de escritor, que vomitasse o que tivesse de vomitar e
ganhasse logo o tal concurso literário. Pelo contrário, deixava-o em paz com o
tédio, com as vacas, com os arranha-céus goianos. No fundo, ela queria o amor.
Queria, também, a sanidade de uma vida a dois. Não era uma mecenas, mas uma
amante cega e satisfeita. De certo, acreditava que cedo ou tarde ganharia algum
crédito pelas grandes obras do primo-marido. Acreditava nele como se acredita
num santo louco e histérico a anunciar o fim de todos os mistérios.
– Eu amo Virginía, cara. Mas, acima de tudo, eu não acredito
no amor. O amor é exigir muito do outro. É possuir e eu não gosto de posses, meu camarada.
– Você ama e não acredita no amor?
– Porra, aquele que pertence ao outro é muito pouco de si.
Enfim...
Arregimentamos alguns fracassos em comum. Planejamos montar
uma peça. Fracasso. Depois, gravamos um curta-metragem que deveria ter três
minutos e acabou em dezessete minutos e quarenta segundos, com Rogério
desesperado e dramático a reclamar da edição. Por fim, a grande cagada:
montamos um jornal alternativo. O jornal até que começou bem. Ideias, ideias,
ideias. Mas, entre outras coisas, Rogério Medice é o maior perito em
autosabotagem da face da terra. Após um chilique de insatisfação homérica com
todos os colaboradores do jornal, da fotografa ao diagramador, Rogério e eu
chegamos a conclusão que, juntos, somos bem piores do que separados. Largamos
mão de projetos, ambições, gentalharada em comum e etc. Passamos uns bons meses
sem nos encontrar, em rigoroso voto de silêncio.
Por puro acaso, meses depois, nos batemos numa locadora de
filmes. Quando o avistei, perdi a voz. Cheguei muito próximo dele e gaguejei
algumas palavras incompreensíveis:
– E aí, preciso te falar uma coisa urgente – eu disse. Não
havia coisa urgente porra nenhuma, mas foi o que me veio a cabeça. Tiramos de
lá pro bar mais próximo. No bar, o de sempre: enchemos a cara, regurgitamos e entre
piadas e filosofias de refugiados, reconciliamo-nos de um distanciamento que
nunca aconteceu de fato. De um distanciamento que nunca aconteceu e que acontecerá
– porque é assim que as coisas são... simplesmente.
Por vezes, acusava-me de perseguir a escrita: – Diferente de
você, eu só escrevo quando preciso. Só escrevo quando há essa cinza
incontrolável querendo sair de mim. Diferente de você, eu não quero nem sou um
escritor, eu apenas escrevo. Eu não sei como você consegue sentar todos os dias
e escrever, escrever ainda que não tenha nada a dizer.
Disciplinei-me – isso ao longo de anos – ao ponto de sentar
todos os dias e, ainda que não alcance nenhum resultado satisfatório,
continuar diante da máquina e: se há o que dizer, bom, se não há, melhor. Com Rogério, o processo era diferente. Ele sentava quando se sentia impulsionado (ou pressionado), com a mão coçando, e despejava seu vomito como se dele dependesse o pão de cada dia que não precisava ganhar.
De certa forma, eu precisava da amizade de Rogério. Conheci
uma caralhada de gente desde meu sepulcro goianio. Entre fezes e humanos, com
algum rigor esnobe, só havia Rogério em minha lista de contatos possíveis.
Setenta por cento do tempo, discutíamos literatura. O que escrever, o que fora
escrito, o que ler, o que fora lido, e todo o tipo de resenha que literatos
bêbados e desconhecidos tomam pra si.
Rogério se achava um grande conquistador, muito embora a
barriguinha proeminente e a boina de Pablo Neruda e sua inseparável bolsa
repleta de papeis e anotações – o que lhe conferia uma imagem de professor de História. Como conquistador, devia grande parte de seu
sucesso à mentira, ao mais sórdido e cambaleante jogo de mentiras. Se por um
lado era o solitário ranzinza e fazia questão de sê-lo, por outro implorava e
rastejava como um buldogue babão pela atenção e olhares alheios.
“A obrigação do escritor é com a verdade”, eu achava. Eu
dizia. Eu praticava. Eu firulava. Eu... estava enganado. Como quase sempre,
diga-se. A obrigação de todo escritor, faça chuva ou sol, é com a mentira.
Mentir é a forma de exercer dignidade do escritor. Talvez a única. É seu escudo e sua lança. Mentir
enquanto os outros sofrem. Mentir enquanto as missas são rezadas. Mentir
enquanto os epiléticos enceram o chão. Mentir enquanto os homens esmagam outros
homens. Se Blake acreditava em chegar ao paraíso através do inferno, é bem
possível que se possa alcançar a verdade através dela... da mentira. Porquanto,
nunca simpatizei com os mentirosos. Invejava-os, isso sim. E a inveja me
distanciava de todos eles. A inveja, diferente da mentira, é imprestável. Não
há utilidade para ela. Talvez por isso, aos doze, treze anos, minha primeira
admiração literária fora pelos confessionais. É possível dizer que quando um
leitor acredita que tudo dentro de um livro é verdade, pura e simples verdade, escritor e leitor adquirem uma proximidade só possível em momentos de inestimável
cumplicidade humana. Todavia, não é assim que é escrito um relato ficcional.
Não é assim, aliás, que nada é escrito. Está para nascer o homem habilitado a
nos transmitir a verdade, a verdade
de qualquer espécie – e não será ele um messias, tampouco um grande
escritor. Será preciso que surja uma nova linguagem para que nos entreguemos
sem estilo, sem métrica, sem razoabilidade, sem convenções, sem medo e
principalmente sem ambição. Uma linguagem divina e demoníaca. Talvez a
linguagem telepática de Rimbaud. Assim, quem sabe, quando esse dia chegar, quem
sabe uma alma interessada e estudiosa não tenha esses rascunhos em mãos e diga:
“Eis mais um esforço fracassado de nossos antepassados!”
Pode soar ridículo (tomara que soe!), mas eu sou um bom
espírita. Preocupo-me um bocado com meus amigos ateus. Só os tenho! Amigos
religiosos, nunca soube fazê-los. Ou são chatos em excesso ou concordam
excessivamente comigo – o que me aborrece fodidamente. Como disse, preocupo-me
com meus amigos ateus. Não é uma preocupação de vê-los condenados, não!... se
Deus for um cara realmente justo, haverá de convidá-los para uma show do Jimmy
Hendrix, não para um tribunal. Minha preocupação é quanto ao modo que meus
amigos deixarão seus corpos. Uma vez vi o mesmo do George pro Lennon, quando
dos cinco balaços. O George Harrison estava preocupado com o modo que o Lennon
deixou o corpo. Mas não vem ao caso. Preocupo-me, sim, com a forma que meus
amigos debutarão na nova vida. Sim, sou um homem da “nova vida”. Criado onde
fui criado, não haveria de ser diferente.
– Façamos apenas um jogo psicológico, Rogério. Imagina aí se
você morre e sua alma, segundos depois, sai andando pra fora dele, recomeçando,
assim, uma vida nova, uma nova gama de sensações e existência. E aí, o que você
faz?
– Não sei.
– Como não sabe? É só uma representação.
– De verdade, não sei.
– Larga de ser idiota. Apenas imagine a cena. Você está fora
do seu corpo e acaba de perceber que está morto. Ou melhor: que a vida não era
só a boa merda que você imaginava. E aí?
– Acho que vou sentar na esquina e ficar observando as
coisas. Não sei mesmo.
– Por que você não larga o cu de medroso e responde de uma
vez?
– Sei lá, cara. É muita fantasia pro meu gosto.
– Porra, é só um exercício. Não precisa fazer primeira
comunhão e entrar pra seita, feladaputa.
– Eu acho a morte um lugar excepcional para se viver. Ainda
mais se for uma soneca eterna.
– Qualquer pesadelo é melhor que o sono eterno.
– Sabe o que eu sinto falta? Eu sinto falta de antes de
nascer. Sacou? Eu queria saber o que eu era antes de nascer.
Poupei-lhe minhas duzentas páginas de teoria da reencarnação
e finalizei a confecção do bequi. Acendi e passei. Ele tragou e passou de
volta. Baforei e toquei novamente. Ele arrematou e devolveu a pelota. Estávamos
chapados. Se alguma vez eu lhe fiz um favor, foi apresentá-lo decentemente à
maconha. De prima, desprezou a chapação. Dizia que tudo o que a maconha fazia
com ele era sono, e sono, e sono. Depois, pegou gosto pela coisa. Já bem
chapados, sentamos no sofá (o sofá possuía um furo de cigarro que eu deixara
numa visita anterior) e discutimos Nietzsche, bucetas passadas, futebol, seu
irmão mais velho que assumira o lugar do pai e nunca lhe demonstrou o menor
afeto sempre lhe interrogando com a voz cheia “RO-GE-RIO”, e meu irmão mais
novo que é como um filho para mim até porque eu estava no dia do seu nascimento
e em todo o resto onde eu lhe vi sofrer e crescer desordenadamente como só
crescemos na infância sem que eu pudesse fazer nada para reter o meu irmão
próximo a mim, e mais bucetas passadas, e nossas bucetas atuais, minha mulher
escritora histérica e sua mulher atleta calma e fumamos mais um pouco.
Rogério adormeceu no sofá e eu continuei mais algum tempo de
bico pra cima encarando o teto. Sou bastante paranoico, e a maconha tem me
tirado de tempo ultimamente. Nada muito grave, apenas alguns furos de bala em
minha cabecinha de ficcionista too high.
Olhei o céu estrelado e porra! essa cidade esse apartamento estão precisamente
2038 quilômetros de distancia da minha solar e dolorosa Natal, a cidade de meu
enterro...
Pensar que estou distante de casa me anima... e muito. É uma satisfação, uma liberdade que, ultimamente, tem morrido aos poucos, mas que ainda me é útil. Chamei um táxi. Levantei-me e aquele pedaço gordo desabado sobre o sofá me
lembrava, em parte, meu irmão mais velho. Uma forma diferente de irmão mais
velho; um irmão mais velho que precise tanto de mim quanto pode me oferecer.
Nesses momentos dou conta que quase todos os meus amigos são versões repensadas
de meus dois irmãos. Correlaciono-os deliberadamente. Na vida, não há nada mais
valioso que o tempo. Sendo assim, se você passa muito tempo ao lado de uma
pessoa, bem ou mal, parte de sua vida fica com ela.
Sacudo-lhe para dizer que estou de saída. Rogério Medice
está derrubado. Maconha e saquê. No fundo, Aldir Blanc canta uma melodia rota e
sem muita importância a essa hora da madrugada.
– Rogério, Rogério...
Não há quem faça acordá-lo. Deixo-lhe entregue a morte, ou
ao sono profundo, que é como sonha a morte. Só de sacanagem, dou-lhe um soco no
estômago, para ver se acorda. Sem reação. Seu pai, se não me engano, morreu aos
quarenta e cinco. Em pouco tempo, eu penso, esse homem terá a idade do pai
morto. Superará a si e ao pai, numa matemática da vida que separa criador e
criação para todo sempre, até que o criador se esqueça da criatura e a criatura
já não saiba de onde veio.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
A última luta de boxe da humanidade
Durante
três ou quatro anos as lutas do Tyson foram uma religião lá em casa. Meu
pai colocava o despertador pra apitar, levantava meia hora antes da luta e
acordava meu irmão mais velho, João Maria. Meu irmão se incumbia de fazer o
café e passar manteiga nas torradinhas duras e velhas, porque alguma coisa
haveríamos de comer. Delicadamente, meu irmão mais velho me acordava. Era uma
situação importante, que exigia sigilo e concentração. De tão eufórico, eu
vencia o sono. Inegavelmente, Tyson faria o mesmo. Meu pai e meu irmão
regurgitavam de ódio, torpor. Por amor a eles, eu também regurgitava de ódio,
torpor.
A maior madrugada de todas fora a de junho de 97.
– Será que o Tyson consegue o cinturão de volta, pai?
– João Maria perguntou.
– Mas é claro! Esse negão Hollywood não é o campeão
de direito, porra. Vai ser preciso matar o Tyson pra ser o campeão de direito.
Concorda comigo?
– Sim, pai, sim. Vai ser preciso matar o Tyson. –
meu irmão concordou.
Só de sacanagem, meu pai chamava o Holyfield de
Hollywood. Meu pai nunca gostou do Holyfield. Gostava, sim, do Tyson, que era
todo talento e fúria. Gostava do Tyson que dizia o que precisava em apenas um
round. Gostava do Tyson que era seco e rápido. Gostava do Tyson que não se
fazia de Deus, nem se imaginava ungido por Deus a fim de realizar uma grande
missão divina (como a maioria dos lutadores), muito embora meu pai fosse o
“ungido”, fosse o cara da missão divina.
A luta começou e o Tyson mais parecia uma múmia.
Apático, lento, desgovernado. Meu pai apostara um engradado de cerveja com não
sei quem que o Tyson acabava a luta no primeiro round. O primeiro round se foi
e o Tyson continuou parado, incapaz sequer de ultrapassar a linha de cintura.
Meu pai e meu irmão fizeram cara de cu, embasbacados. Era um milagre às
avessas. Um milagre do demônio contra as forças do bem, contra o Tyson. Holyfield
acertou um direto na barriga do Tyson. Tyson avançou e caiu nos braços do
Holyfield. Evander Holyfield, então, passou a desferir cabeçadas na testa do
Tyson. O narrador da luta parecia, também, não acreditar no que estava
narrando. Era como se Jesus Cristo retornasse à terra e acabasse mais uma vez
derrotado na cruz, duvidando de si e do próprio pai.
– Eu já sei, eu já sei! – meu pai gritou. – O Tyson
está a usar de uma estratégia arriscada. Ele vai cansar o Hollywood, que nem o
Ali contra o Foreman, e depois vai acabar com a raça desse preto miserável.
Feladaputa! Larga ele, Tyson, puta! Larga e come o queixo desse corno! Tá vendo
como o Hollywood deixa o queixo exposto? Feladaputa! Não se faz isso contra o
Mike Tyson, cara, não se faz.
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