domingo, 9 de março de 2014

Cap. 07 -

Lá com meus treze anos... estava pronto pra sair da prisão. Por “pronto” entendam despreparado. E por “prisão” leiam a única forma de vida que eu conhecia. Tinha vida e mal tinha pentelhos. De todo modo, as portas se escancararam... Naturalmente. É assim com todo mundo. Eu não precisaria fazer um só minuto de esforço. Mas fiz.

Como uma história de liberdade brasileira, o colonizador seria o libertador.

Já estava cheio, por aqui de crendices. Entalado. Não sentia em mim um simples estalo de vida verdadeira. Apenas tédio, ilusão, superstições... Esturricado de superstições. Obviamente, eu estava errado. Errado, sim, ao pensar que tudo o que vivera até então não era vida, mas uma subvida, uma existência regateada. Indigesta porque me enfiaram o alimento goela abaixo. De fato, a indigestão não era outra coisa senão vida. O que fiz? Ofereci-me ao mundo... De bandeja. Meu cabeção como o cabeção de um santo. Servido numa bandeja de prata. Um santo sem milagres. Um santo só de pecados. Um santo afundado em culpa. Um santo que conheceu Deus tão de perto a ponto de se desencantar. Bobou-se o que era doce. Sentia, sem nenhum drama estúpido, que a existência inteira, do mindinho torto do pé às utopias construídas de pano remendado, não passava de uma miragem. Eu estava cansado. Qualquer outro, um pouco mais imbecil, mergulharia ainda mais fundo no rio de lama. Faria da miragem insuportável uma quimera dócil. Do cão raivoso um pequinês que ladra... mas não morde. A ponto de bala, eu disse: “Não acredito em Deus. Que se foda, ele e o maldito Vaticano onde nasci.” No fundo, ainda acreditava. E como acreditava! Como não acreditar? Minha fé, agora, tinha outro repertório, cantava outros sambas desengonçados de quinta: a blasfêmia.

Espalhei aos quatro cantos do universo, ou melhor, aos quatro cantos do bairro: “Deus é uma farsa, Deus é uma aberração.” Mas era da boca pra fora. Estupidamente, da boca pra fora. A sete chaves, fiz um esforço especial pra não acreditar; tentei, a todo custo, crer na ideia de que tudo fora um pesadelo. Um pesadelo dispendioso, inverossímil. Um pesadelo concebido numa noite quente à beira mar. A única maneira possível de não meter Deus no limiar dos acontecimentos seria esquecê-lo. Evitá-lo. Mas como esquecê-lo, se marcava reunião lá em casa, um cômodo ao lado, com seus macaquinhos, terça, quinta e domingo? E como desfazer-me dos macaquinhos se eu mesmo urrava, comia banana e coçava o cu como um chimpanzé? Era impossível me desvencilhar da perdigueira de milagres... Das duas mil horas de voo a cabo do sobrenatural. Deus, sim, esse me perseguiu. Não porque tentasse me colocar de volta ao rebanho, não por zelo de criador... Mas por galhofa, fastio mesmo. Não sei. É provável que tivesse outros cinco bilhões de pessoas aglutinadas no planeta sob sua supervisão. Gerente de um empreendimento falido. Ou melhor: pensei, bastante convicto certo tempo, que Deus inventara um sistema com vida própria capaz de mover as engrenagens do mundo por si só. Autossuficiente. Que não precisasse de seu auxílio. Também carecia, ora, O pobre general, O maestro inolvidável, de dias santos, pontos facultativos, feriadões... É provável que tenha dado vida à vida. Está pouco se fodendo pro destino dos homens. Que os “filhotes” cresçam débeis e alucinados, viciados em crack, caixas de supermercado, banqueiros, marxistas, fascistas, nordestinos, gaúchos, pindamonhangabenses. Eles que façam o próprio destino. Que modelem no vazio quixotesco da carne a felicidade e a miséria. A infelicidade e a riqueza. Que aprendam a escrever por si. Contudo, há uma mão invisível acendendo e apagando as luzes. Apertando os torniquetes e decepando as cabeças. Uma mão sem cor ou cheiro que construiu toda a matéria e luz num lance de solidão. E a solidão é o presente dos que se atrevem a entender. São poucos, mas existem. Deus é O Liberalismo em pessoa: pouca intervenção do estado, livre mercado, direito a propriedade privada, etc. Que os homens regulem a economia de suas vidinhas michas. Que os homens forjem seus heróis e lendas à sombra da eternidade. De uma eternidade pedante. De uma eternidade que é o como o som de um foguete desintegrando-se em direção à Júpiter, Saturno, Urano, Plutão. Mas eu sou A Lei. Eu sou o protótipo. Eu sou Deus, Dios, Gott, God...

Pensando com meus botões... se houvesse criado o universo, da maconha ao salaminho, do maoísmo às chicas paraguaias, faria igualzinho. Sem tirar nem pôr. Melhor: seria um pouquinho mais egoísta. Seria, por sua vez, Grego, não Hebreu. Aristóteles, não Moisés. Confundiria meu sangue com o sangue de belíssimas espécimes. Brancas Gordurosas, Helenas de Tróia, Rainhas Egípcias, Índias Piauienses, Escravas Angolanas, Mulatas do Salgueiro, Ninfetinhas do Youtube. Imaginação, creio, é um passatempo que não faz mal a ninguém. Quem dirá aos Deuses, que vivem disso.

Aos onze anos, comecei a ler qualquer coisa que me caísse às mãos. O que pintasse eu lia. Li Álbum de Família, Nelson Rodrigues. Saí maravilhado com a podridão dos personagens. De queixo caído, roçando os calcanhares. Então é possível? Ser fraco, vil, néscio, avacalhado, profundo, e ainda alcançar a verdade sem culpa... Despreocupadamente? Escrevo a palavra “verdade” e quase tenho um acesso de riso. Gargalho... Pronto, já foi. Contenho-me. Preciso continuar a escrever. O que eu sabia de verdadeiro? Merda nenhuma. Não mais que um babuíno. Muito embora me dispusesse em mentiras, invencionices, a verdade, já aquela época, tinha um gostinho especial. Em outras palavras: a verdade era uma puta inatingível, uma mulher que eu esperaria um tempo mais pra comer.

Ademais, é um encontro inevitável. O homem babuíno com sua verdade. Se eu fugisse dela, no final das contas, não encontraria outro monstro senão minha face descabelada esculpida no espelho embaçado. Não encontraria outro monstro senão... eu. 

Na biblioteca do colégio – isso numa cidade estorricada, litorânea, Natal quente, Natal de sunga – na biblioteca do colégio o mundo parecia feito de uma substância em total diferente daquela que eu abandonava minutos antes de cruzar o corredor lacônico, girar a maçaneta de prata da porta antiga imensa de madeira esculpida com um cartaz escrito “Não faça barulho, grato. Ass: A direção”... Pra então encontrar um paraíso silencioso e frio. Um paraíso de prateleiras. Longas mesas envernizadas. Livros antigos com o carimbo do Gustavo Capanema, ministro do Getúlio. A biblioteca era gigante, e quanto maior a biblioteca, mais despovoada. Numa prateleira escura, tropecei em Gaia Ciência. Em três aulas cabuladas, matei o volume. Conseguinte, O Anticristo e Zaratustra. Nietzsche me ensinou muito. Tinha o que dizer. E disse, o que é mais importante do que apenas tê-lo a dizer. Pus na cachola: só vale a pena se houver algo a ser dito. Eu não fazia ideia do que dizer. No entanto, far-se-ia necessário abrir a boca. Empunhar a pena bamba, escorregadia. Ser um escritor. Agir como um escritor. E o mais importante: agir em silêncio como um escritor. O silêncio não era de todo ruim. Naturalmente, um livro me levou a outro. 

Certa vez, roubei um exemplar da poesia completa do Garcia Lorca enfiado dentro da cueca. Ainda no pátio do colégio, enfureci-me de vida, êxtase, fascinado com os saiotes que iam e viam movimentando anarquicamente as pernoquinhas luzidias. Lorca em minha cabeçola tocando a dispneia do prazer. Na contracapa, dizia que era viado, maricon. Paris é uma festa: talvez o punhal mais profundo daqueles dias de umidade bibliotecária. Paris, Paris! O que havia naquela cidade que homem nenhum encontraria fora dela? Hemingway disse: conte sua história. Sim, contarei minha história. Mas que história, se o que tinha era uma história incompleta? Eu já era um escritor. Lia e escrevia todos os dias. Arranjei um diário. Enchi o peito: “Quando a ânsia surgir em mim, como um maremoto arrastando casas, sento e escrevo.” Sentar e escrever, ponto. Não abri o jogo pra ninguém. Fiz-me de imbecil. Pra passar melhor, claro. Escondi o tal diário debaixo da cama como se fosse uma magazine pornô. Quando a tal ânsia surgia, que nem um espírito epilético ansioso por se comunicar, eu sentava e mandava brasa. Inventava uma história sem pé nem cabeça. Deixava minha impressão sobre as histórias de outros escritores, geralmente o que havia lido pela manhã. Narrava, tão somente, o aspecto físico das pessoas que me rodeavam, sobretudo as mulheres. Eternamente as mulheres. Em geral, era mais um pintor do que um escritor. Descrevia o estado bruto das coisas, não as ideias.  

Meu discurso de garotão, então, uma colcha de retalhos. Recitava, imitava, plagiava os figurões que lia a ponto de sabê-los de cor – à noite, dormia com o pensamento no que leria no dia seguinte... Pensando, também, numa história inédita, uma história que nenhum outro homem jamais escreveu. Pus na cabeça... meio zureta: Uma história original. Preciso de uma história original.

Exasperado, entre a esperança e o torpor... Eu escrevia. Abandonava-me à insônia. Sentava no chão frio. Apoiava o caderno na cama amarrotada. Em transe, escrevia uma, duas, três horas. Por fim, relia o primeiro parágrafo. Achava tudo bastante descartável. Uma bela bosta. Como quem dá aquela olhadinha de soslaio na merda que acaba de soltar e puxa a descarga. Reler o primeiro parágrafo era o bastante. Rasgava o que havia escrito e dormia em paz. 

Um comentário:

  1. Cem mil elogios à loucura de um empreendimento como escrever e ao comentar digo apenas: maravilhoso. Ponto. Não sei ir muito além disso. Ponto. Incapacidade da língua. Sim os adjetivos exatos, o ritmo impecável como sempre, "pernoquinhas luzidias" um must nos lábios da mente, mas atenho-me ao que posso dizer como leitora distante e burra, - nunca escreverei algo assim - todos os leitores são burros? Não se pode participar do que já está pronto, mas sim, maravilhoso, mon amour, maravilhoso como todas as palavras que escorrem de seus dedos. Amo você.

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