sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Noite de Ano

(LIVRO)
Escreva amanhã de manhã como se fosse a última vez, meu amor, ela cochicha. Beba, fume, coma, cante como se o mundo estivesse para morrer. Até porque hora ou outra um viaduto de impossibilidades desabará sobre nossas cabeças e você só se dará conta do atoleiro que se meteu quando for tarde demais, e é sempre tarde demais, eu tô cansada de saber disso. Tarde demais para que, eu pergunto, e ela responde Tarde demais para dar o fora de tudo, mas que se dane, hoje eu só quero relaxar e ver os fogos explodirem no céu, você sabe o quanto amo fogos de artifício, você sabe que eu me amarro em tudo quanto é artificial nesse mundo,  e estou para nascer hoje à noite uma vez mais, uma vez mais e não pela última vez.  

Ela ameaça chorar, porque quando bêbada ela arranja um motivo duro e impossível para chorar, e aí se debate, grita, e duas doses depois já está feliz e acesa novamente, mas dessa vez ela não chora, e nós nos sentamos no sofá branco rasgado de três anos de uso e fodas e sintonizamos Cartola como uma britadeira sacolejando as paredes do apartamento, e também para que as pessoas lá fora saibam que hoje estamos felizes, ou pelo menos que maquiamos um clima qualquer de felicidade – e as luzinhas de Natal ainda piscam amarradas a árvore de palitinhos e pano dourado que ela mesma confeccionou.

A champanhota vagabunda não chega para onde planejamos ir, e logo passamos para Vodka com Pepsi, torramos um quarto-zagueiro, daí para Vodka pura um pulo, e de Cartola para Elis Regina e de Elis para Bob Dylan, sempre ele, o mesmo Dylan que cantou Like a Rolling Stone também disse Leave your stepping stones behind, something calls for you, forget the dead you've left, they will not follow you. Que em tradução aleatória para o português vulgaris quer dizer Deixe suas pedras para trás, alguém o chama, esqueça os mortos que você abandonou, eles não o seguirão.

O mundo, ela me diz enquanto levanta o terceiro copo de Absolut, o mundo vive uma merda de decadência romântica, e o que as pessoas são em suas socialnetworks de araque é muito do piegas, chato, pedante, malcheiroso, e aí ligamos a TV para conferir o sorteio da mega-sena e definitivamente não estamos milionários. Rasgamos os bilhetes de loteria, atiramos o papel picado pela janela e ainda da nossa janela, nono andar, Rua 18, Centro de Goiânia, são dez e dez da noite e podemos ver um mar de gente pobre e calcinada rasgando a Araguaia em direção à Praça Cívica, onde o show de fogos acontecerá, e todas elas tão solitárias de si, gente desse solo arruinado do virtuoso Estado de Goiás, essa terra ondulada e louca que eu aprendi a amar – e é impossível não pensar que faltam apenas quinze dias para eu me mandar daqui.

Não é fácil abandonar três anos juntos vivendo sob o mesmo teto, dividindo a cama, a alucinação incoercível a par de todas as iguarias possíveis, a dor, o tédio, a dança e, claro, as contas. Não é fácil abandonar e por isso mesmo, por não se tratar de uma tarefa fácil, é que vale à pena. Bem, cresci numa casa de nordestinos pegajosos e nunca lidei verdadeiramente com a solidão. Quer dizer, sempre fui um solitário, mas nunca estive só. Agora, é uma questão de tempo. Basta sentar e esperar.

Descemos a Av. Araguaia, falta precisamente um minuto para o ano novo estourar na consciência das pessoas e os fogos de artificio pintarem o céu sem estrelas da capital do pequi, estamos abraçados, eu com uma garrafa escorregadia de espumante na mão e ela tentando ligar para os pais antes que o ano novo seja oficialmente decretado pelas autoridades do mundo, mas ela não consegue falar com os pais e a garrafa gela em minhas mãos, faltam agora alguns segundos, nos olhamos, nos beijamos, e vivemos a cena que ao longo da vida assistimos duas mil vezes repetida no cinema – o locutor do espetáculo puxa a contagem regressiva, dez, nove... cinco, quatro... três, dois, um... e o ano novo chega – ah, pobres dos que  tem consciência do fim ou do começo de qualquer coisa – a esses chamamos profetas e merecem todos, sem exceção, a fogueira, a guilhotina e por que não um caso de amor fracassado? Onde está o cotidiano, ela me pergunta, onde está o cotidiano a essa hora da vida para nos salvar do fim, amor?

Sim, meu bem, não pude e/ou consegui dizer antes, mas o faço agora: o cotidiano não existe, o que há é a inércia dos nossos sonhos ultrapassados, o convite para viver a vida que não planejamos – pois nenhuma vida é digna o suficiente para ser planejada. Improvisemos, meu amor, improvisemos como o comediante que esqueceu o fim da piada, improvisemos porque a vida é uma anedota velha, gasta, sem graça, improvisemos porque viver é essencialmente sofrer, e porra, uai! não foi você quem me apresentou toneladas de livros budistas e indianos e teorias do amor impermanente e tântrico e cósmico e a putaqueopariu na esperança de que a ressaca não nos encontrasse na manhã seguinte?

Dentro do taxi, rumo à festa de ano novo de um amigo em sua casa nova, quintal gigantesco, bebida e carne, e as mesmas velhas pessoas que abraçaremos como se fossem outras, Ana é só alegria, sorri baratinada para a cidade da janela do carro e eu me contorço todo de êxtase movido pelo álcool, pelo clima, situação, hora, data, local, tudo, e damos a mão enquanto o taxista toma o caminho mais longo e confuso – e o que seria de mim se não fosse enganado uma vez mais pela vida, agora condignamente representada pelo taxista em sua odisseia contínua com o taxímetro?

O taxímetro aponta trinta e quatro reais e já estamos no Jardim América, Viviane nos recebe, abraço Rodrigo e saco o charuto cubano Romeo y Julieta que comprei para ele, ele me dá uma caneca do Corinthians que aliás esqueci em sua casa após nove ou dez doses de vodka com energético, e sentamos na última mesa vaga da festa, em frente à churrasqueira comandada por um carioca amigo de Rodrigo que teve o pai fuzilado por cinco tiros de tauros na porta de casa, ele faz questão de dizer, cinco tiros de P.T., meu pai morto sem chance, e ele, o carioca comandante da churrasqueira, o filho do pai morto, esteve em Natal, sim, esteve e adorou a cidade e nunca viu coisa mais bela, assim são os turistas no buraco solar onde nasci, e ele me chama de Potiguar e eu me sinto verdadeiramente lisonjeado, afinal o Rio Grande do Norte é praticamente a capital do Brasil, e conversamos sobre a praia de Genipabu, dromedários e passeios de Bugre, e a vodka corre, corre solta em meu sangue coalhado, Ana reclama da areia molhada do quintal que manchou seu salto de camurça bege, minha família liga e eu choro e grito e xingo, falo com minhas três sobrinhas que ainda não sabem porra nenhuma da vida – e é por isso que as adoro, por não saberem porra nenhuma da vida –, falo com meu irmão mais novo que é como o filho que eu não quero ter, e a festa segue, segue com a banda de Rodrigo no palco armado no começo do alpendre gigantesco e eles executam sutilmente: “Se alguém por mim perguntar, diga que só vou voltar, depois que me encontrar.”

As coisas mudam de lugar, mas Cartola continua o mesmo. Cartola que aos cinquenta anos lavava carros em Ipanema. E aos cinquenta, meu amor, onde estaremos? Em quais ruas tristes e salgadas lavaremos nossos carros? Se disser que espero estar morto, minto. Não é de hoje que só digo mentiras a respeito da morte. No entanto, não interessa. Há sempre uma muleta ao alcance de todos e as minhas estão na prateleira, e hoje, primeiro de janeiro, minha muleta é Rimbaud, que longe de Deus pode anunciar: “Na imensa mansão de vidros ainda gotejantes, meninos de luto admiram imagens maravilhosas (...) Tudo é um tédio! E a Rainha, a Feiticeira que acende sua brasa num pote de barro, não vai querer jamais nos contar tudo o que sabe, e que nós ignoramos.”

Em frente à churrasqueira, Ana e eu nos reconciliados com o mundo. Por um instante, ela lembra que eu estou indo embora e chora (o que, ultimamente, tem acontecido a cada dez minutos), balbucia como pode que me ama e chora novamente. A maquiagem que ela demorou meia hora em frente ao espelho bolando já foi para o beleléu. Escorre como água suja de seus olhos manchados. É esquisito pensar que se dormimos quinze noites separados ao longo de três anos, foi muito. Se passamos um único dia sem nos falar, foi demasiado. E agora planejamos a ausência total um do outro. Ela com nosso apartamento que será só seu. Eu com minha vida que agora será só minha – só minha até que Deus me anistie do compromisso de consciência e sofrimento e humildade tacanha que fantasio para mim.

O dia chega às sete da matina, estamos nós dois e mais cinco pessoas de uma festa de quarenta na última mesa de sobreviventes de vodka, uísque e cerveja quente, e Ana já cantou no improviso Ovelha Negra, Levava uma vida sosseeeeeegada, gostava de sombra e água frescaaaaaa, Meu Deus, quanto tempo eu passeeeeei sem saber,  e eu Tudo Outra Vez, Até parece que foi ontem minhaaaa mocidade, com diploma de sofrer de outra universidadeeeee, minha fala nordestina, quero esquecer o francês...

Dizer o que se pensa é uma arte fácil – ainda que não seja grande coisa. Basta falar instintivamente, utilizar-se das palavras como companhias indistintas a vontade e ao pensamento. Dizer o que se pensa é a arte do homem que não tem nada a perder – e se tivesse, de que adiantaria manter o que se tem em nome de uma falcatrua impossível?

Voltamos pra casa levados novamente por um taxista que prefere o caminho mais difícil. Ah, longe de mim me queixar dos caminhos que os outros escolhem em meu nome. Antes do banho, fodemos a primeira foda do ano que é sempre a melhor. Cansada, desaba ainda vestida na cama e esquece o chuveiro. Linda, irresistivelmente linda.

Me sinto revigorado e atônito da vida que me espera como uma cortesã mascarada – não me esqueço do banho e vou para ele com uma taça de vinho passado que encontro na geladeira. A água está fria. O sol já alto me lembra que há vida lá fora, vida desconhecida nas avenidas, ruas, becos, vida que continuará aconteça o que acontecer comigo, com Ana, com os amigos que há tempos não encontro e tão cedo não reencontrarei – inclusive convosco, leitor, inclusive convosco que é como um fantasma camuflado na luz evanescida do mundo. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Meus dias em Goiânia estão chegando ao fim. Escrevi, reescrevi e trescrevi esse mesmo lero ao longo das ultimas semanas. Exaustivamente, reproduzo cenas, abraços, despedidas, imagens, frases, sons, impressões que dizem mais do passado que do futuro-provável. A única história que me interessa é a minha em Goiânia. Em minha cabeça só há espaço para o turbilhão que essa cidade foi e o que ela será para mim depois de minha partida. Que as coisas continuam com ou sem nossa presença, que as pessoas seguem adiante e as paisagens e os carros, é o óbvio e será sempre assim. O importante é como o passado nos possui, ainda de sua distancia. 

Prestes a deixar a prisão, penso-a como nunca dantes. Alcatraz é Goiânia. Não possuo estômago, nem disposição para correr atrás de outro assunto. É assim na vida, é assim na escrita. O que significa que dando no pé ou não é sobre isso que escreverei... fatidicamente. É incrível que durante dois anos e meio acoplado aos arranha-céus GYNianos e à noite pura e selvagem e às pessoas... eu tenha escrito, essencialmente, pouquíssimas páginas sobre o que se passou comigo aqui. Comigo fumado da cabeça aos pés. Comigo com o bolso cheio. Comigo repleto de impressões. Comigo ao lado de Ana. Comigo estorricado de sol. Comigo paranoico. Comigo fodido e mal pago... Meu olhar estava sempre voltado para a ficção, para o passado (em breve, lá estará minha exuberante e caustica Goiânia), para o que, então, eu considerava inalienável.

Sinceramente, me pergunto: com o que me preocupo mais: A vida ou a escrita? Viver para escrever, como  disse o outro? Escrever para continuar de pé, atento, desengonçadamente preparado? Viver para que, uma vez escravo da vida, ela forneça ao escritor material verdadeiro e autêntico? Escrever para que a vida não se amofine como um vira-lata cansado de comer do lixo? Penso que é impossível separar uma da outra, lalalá. Mas são duas coisas distintas, por mais que tentemos juntá-las como irmãs siamesas que comem do mesmo prato. 

A vida, quando passada aqui no papel, quase nunca é insuportável. Os acontecimentos adquirem novos ritmos, as sombras ganham corpo, os olhos alcançam o que raramente percebemos quando em ação. Ao passo que Ao Vivo, só para manjar Belchior, é muito pior. Sofrimento e felicidade andam de mãos dadas, o mesmo instinto impulsivo trabalhando sobre os homens... Amando-os, fodendo-os indiscriminadamente, arquitetando-os insustentáveis, para que um dia acabem todos vítimas do mesmo carrasco. E nada é uma questão de sorte... nada.

domingo, 9 de março de 2014

Cap. 07 -

Lá com meus treze anos... estava pronto pra sair da prisão. Por “pronto” entendam despreparado. E por “prisão” leiam a única forma de vida que eu conhecia. Como uma história brasileira de liberdade, o colonizador seria o libertador. 

Já estava cheio, por aqui de crendices. Entalado. Não sentia em mim um simples estalo de vida verdadeira. Apenas tédio, ilusão, superstições... Esturricado de superstições. Obviamente, eu estava errado. Errado, sim, ao pensar que tudo o que vivera até então não era vida, mas uma subvida, uma existência regateada. Indigesta porque me enfiaram o alimento goela abaixo. De fato, a indigestão não era outra coisa senão vida. O que fiz? Declarei guerra aos deuses de minha casa. Eu estava enfadado. Cansado do Deus dos outros. Cansado de cantar a canção que escolheram pra mim. Toda minha existência me parecia uma grande farsa. Qualquer outro, um pouco mais imbecil, mergulharia ainda mais fundo no rio de merda. Faria do desencanto uma dócil quimera. Do cão raivoso um pequinês que ladra... mas não morde. Naquelas de tacar fogo no circo, eu disse: “Não acredito em Deus. Que se foda, ele e o maldito Vaticano onde nasci.” No fundo, ainda acreditava. Como não acreditar? A blasfêmia é a oração da desesperança - ainda assim, uma oração.

Todo domingo a família se reunia na casa de minha avó. O Deus deles ensinava que a família é uma entidade sagrada.  Invariavelmente alguém dava um jeito de por Deus na conversa. Mezzo Nietzsche, mezzo Pedro de Lara, entre uma garfada ou outra de salpicão, eu atravessava: “Deus é uma farsa, Deus é uma aberração.” Mas era da boca pra fora. Estupidamente, da boca pra fora. Tentei, a todo custo, crer na ideia de que Deus não passava de um pesadelo coletivo. Um pesadelo dispendioso, inverossímil. Um pesadelo concebido numa noite escura de medo e ignorância. A única maneira possível de não meter Deus no limiar dos acontecimentos seria esquecê-lo. Evitá-lo. Mas como esquecê-lo, se marcava reunião lá em casa, no cômodo ao lado, com seus macaquinhos, terça, quinta e domingo? E como desfazer-me dos macaquinhos se eu mesmo urrava, comia banana e coçava o cu como um chimpanzé? Era impossível me desvencilhar da perdigueira de milagres... Das duas mil horas de voo a cabo do sobrenatural. Deus, sim, esse me perseguiu. Não porque tentasse me devolver ao rebanho, não por zelo de criador... Mas por galhofa, fastio mesmo. Não sei. É provável que tivesse outros cinco bilhões de pessoas aglutinadas no planeta sob sua supervisão. Gerente de um empreendimento falido. Ou melhor: pensei, bastante convicto certo tempo, que Deus inventara um sistema com vida própria capaz de mover as engrenagens do mundo por si só. Autossuficiente. Que não precisasse de seu auxílio. Também carecia, ora, O pobre general, O maestro inolvidável, de dias santos, pontos facultativos, feriados religiosos... É provável que tenha dado vida à vida. Está pouco se fodendo pro destino dos homens. Que os “filhotes” cresçam débeis e alucinados, viciados em crack, caixas de supermercado, banqueiros, marxistas, fascistas, nordestinos, gaúchos, pindamonhangabenses. Eles que façam o próprio destino. Que modelem no vazio quixotesco da carne a felicidade e a miséria. A infelicidade e a riqueza. Que aprendam a escrever no próprio idioma. Contudo, há uma mão invisível acendendo e apagando as luzes. Apertando os torniquetes e decepando as cabeças. Uma mão sem cor ou cheiro que construiu toda a matéria e luz num lance de solidão. E a solidão é o presente dos que se atrevem a entender.

Pensando com meus botões... se houvesse criado o universo, da maconha ao salaminho, do maoísmo às chicas paraguaias, faria igualzinho. Melhor: seria um pouquinho mais egoísta. Seria, por sua vez, Grego, não Hebreu. Aristóteles, não Moisés. Confundiria meu sangue com o sangue de belíssimas espécimes. Brancas Gordurosas, Helenas de Tróia, Rainhas Egípcias, Índias Piauienses, Escravas Angolanas, Mulatas do Salgueiro, Ninfetinhas do Youtube. Imaginação, creio, é um passatempo que não faz mal a ninguém. Que dirá aos Deuses, que vivem disso.

Aos onze anos, comecei a ler qualquer coisa que me caísse às mãos. O que pintasse eu lia. Li Álbum de Família, Nelson Rodrigues. Saí maravilhado com a podridão dos personagens. De queixo caído, roçando os calcanhares. Então é possível? Ser fraco, vil, néscio, avacalhado, profundo, e ainda alcançar a verdade sem culpa... Despreocupadamente? Escrevo a palavra “verdade” e quase tenho um acesso de riso. Gargalho... Pronto, já foi. Contenho-me. Preciso continuar a escrever. O que eu sabia de verdadeiro? Merda nenhuma. Não mais que um babuíno. Muito embora me dispusesse em mentiras, invencionices, a verdade, já aquela época, tinha um gostinho especial. Em outras palavras: a verdade era uma puta inatingível, uma mulher que eu esperaria um tempo mais pra comer.

Ademais, é um encontro inevitável. O homem babuíno com sua verdade. Se eu fugisse dela, no final das contas, não encontraria outro monstro senão minha face descabelada esculpida no espelho embaçado. Não encontraria outro monstro senão... eu. 

Na biblioteca do colégio – isso numa cidade estorricada, litorânea, Natal quente, Natal de sunga – na biblioteca do colégio o mundo parecia feito de uma substância em total diferente daquela que eu abandonava minutos antes de cruzar o corredor lacônico, girar a maçaneta de prata da porta antiga imensa de madeira esculpida com um cartaz escrito “Não faça barulho, grato. Ass: A direção”... Pra então encontrar um paraíso silencioso e frio. Um paraíso de prateleiras. Longas mesas envernizadas. Livros antigos com o carimbo do Gustavo Capanema, ministro do Getúlio. A biblioteca era gigante, e quanto maior a biblioteca, mais despovoada. Numa prateleira escura, tropecei em Gaia Ciência. Em três aulas cabuladas, matei o volume. Conseguinte, O Anticristo e Zaratustra. Nietzsche me ensinou muito. Tinha o que dizer. E disse, o que é mais importante do que apenas tê-lo a dizer. Pus na cachola: só vale a pena se houver algo a ser dito. Eu não fazia ideia do que dizer. No entanto, far-se-ia necessário abrir a boca. Empunhar a pena bamba, escorregadia. Ser um escritor. Agir como um escritor. E o mais importante: agir em silêncio como um escritor. O silêncio não era de todo ruim. Naturalmente, um livro me levou a outro. 

Certa vez, roubei um exemplar da poesia completa do Garcia Lorca enfiado dentro da cueca. Ainda no pátio do colégio, enfureci-me de vida, êxtase, fascinado com os saiotes que iam e viam movimentando anarquicamente as pernoquinhas luzidias. Lorca em minha cabeçola tocando a dispneia do prazer. Na contracapa, dizia que era viado, maricon. Paris é uma festa: talvez o punhal mais profundo daqueles dias de umidade bibliotecária. Paris, Paris! O que havia naquela cidade que homem nenhum encontraria fora dela? Hemingway disse: conte sua história. Sim, contarei minha história. Mas que história, se o que tinha era uma história incompleta? Eu já era um escritor. Lia e escrevia todos os dias. Arranjei um diário. Enchi o peito: “Quando a ânsia surgir em mim, como um maremoto arrastando casas, sento e escrevo.” Sentar e escrever, ponto. Não abri o jogo pra ninguém. Fiz-me de imbecil. Pra passar melhor, claro. Escondi o tal diário debaixo da cama como se fosse uma magazine pornô. Quando a tal ânsia surgia, que nem um espírito epilético ansioso por se comunicar, eu sentava e mandava brasa. Inventava uma história sem pé nem cabeça. Deixava minha impressão sobre as histórias de outros escritores, geralmente o que havia lido pela manhã. Narrava, tão somente, o aspecto físico das pessoas que me rodeavam, sobretudo as mulheres. Eternamente as mulheres. Em geral, era mais um pintor do que um escritor. Descrevia o estado bruto das coisas, não as ideias.  

Meu discurso de garotão, então, uma colcha de retalhos. Recitava, imitava, plagiava os figurões que lia a ponto de sabê-los de cor – à noite, dormia com o pensamento no que leria no dia seguinte... Pensando, também, numa história inédita, uma história que nenhum outro homem jamais escreveu. Pus na cabeça... meio zureta: Uma história original. Preciso de uma história original.

Exasperado, entre a esperança e o torpor... Eu escrevia. Abandonava-me à insônia. Sentava no chão frio. Apoiava o caderno na cama amarrotada. Em transe, escrevia uma, duas, três horas. Por fim, relia o primeiro parágrafo. Achava tudo bastante descartável. Uma bela bosta. Como quem dá aquela olhadinha de soslaio na merda que acaba de soltar e puxa a descarga. Reler o primeiro parágrafo era o bastante. Rasgava o que havia escrito e dormia em paz. 

terça-feira, 4 de março de 2014

Os cadáveres estão na prisão, e a prisão é foda



"Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais..."
Belchior


O que nos aproximou foi a escrita, a vontade em comum que tínhamos (não sei se ainda temos, ou pelo menos se eu ainda tenho) de escrever e ver toda uma vida lúgubre e salgada alforriada pela escrita. Um escritor, quando não é um completo covarde, é alguém que injeta em si doses de coragem infantil e estúpida. Infantilizado, está disposto a morrer. Não está preparado para morrer, mas, digamos... disposto. Antes da morte, o escritor sonha com o sacrifício. Como um selvagem ruim, sacrifica os “pilares” do mundo ordinário e obrigatório. Família, dinheiro, amor, religião. E por que o faz? O faz com um olho na glória, outro em si. O faz por medo da asfixia.

Acredito que o verdadeiro escritor – uma espécie de ser humano que ainda não existe, ou que existe somente no imaginário heroico dos leitores – é aquele que está a todo instante prestes a se suicidar ou ser assassinado. Não digo que morrerá assim ou assado – pouco me importa a situação que um homem é apresentado ao coveiro. Digo que há uma ferrugem, uma dor psicótica, uma felicidade alcantilada, uma paranoia corriqueira alojando-se sobre a terra e sob nós. É uma realidade que cresce da terra, e não dos céus.

Por hora, há um distante gosto de morte em tudo quanto é vida. Não é um gosto ruim, mas incomodo. Não é um presente dos Deuses, mas uma benção da carne.

Ele, meu amigo escritor, Rogério Medice, foi o mais infantil dos homens que conheci. Comportava-se, literalmente, como uma criança aparelhada de uma inteligência fora do comum, excepcional. Se sorria, sorria pelos mesmos motivos que levam uma criança a sorrir. Se esperneava, esperneava como uma criança insatisfeita e bêbada. Se era um homem consciente? Claro, como não? Consciente e auspicioso, como são os bons escritores; mas seu talento também era o talento da criança que não sabe onde pisa.

Antes de Rogério Medice, tive alguns amigos “artistas”. Sobretudo escritores. Enojei-me de todos. Enojei-me porque: ou eram chiques e refinados, ou faltava talento na negociação. Talento essencial para falar, talento para beber, talento para andar, talento até para fracassar. Quer dizer, sempre preferi gente de verdade. Gente que não tem a obrigação espiritualeba de ser profunda, de aparentar e distribuir profundidade – profundidade, em poder desses asnos, é confete. Gente que não está preocupada com o individualismo Kierkegaardiano nem está a par da história de nada. Em resumo: me dou muitíssimo com os ignorantes, os idiotas assumidos, as bestas feras. Quer dizer, nem tanto ao sul nem tanto ao norte. Sem dúvida há mais sabedoria nos manicômios que nas universidades. Nos bares silenciosos que em toda música do universo. Nas cidades arrasadas pelo tédio que nas metrópoles conquistadas. O que eu não suporto nesses homens da arte é o mesmo que não suporto em mim: uma superioridade estoica, virtuosa, forjada em aço. Uma superioridade que é como uma droga aborrecida. Que é como o mel para abelhas diabéticas.

Quando nos conhecemos, eu era o cara da comparação. Comparava-me a tudo, do reles ao espetacular: “Será que essa cara escreve melhor do que eu? Será que é pior?” Desejava-lhe, claro, que fosse um milhão de vezes pior. Um milhão de vezes mais detestável e abominável... como escritor e como homem. Tentei acertá-lo na mosca, analisá-lo, mas não era um tipo qualquer. Esquartejado, verborrágico, mentiroso, dúbio, torpe... capaz mesmo do mais crédulo e tenro afeto... quando lhe convinha, claro. Em parte pelo que escrevia, em parte pelo mise-en-scéne que praticava na mesa de bar, não era uma análise fácil.

Há um infinito de tipos e variedades de escritores. Há os buchas, que sugam tudo de outros escritores, amputados de uma mísera ideia original. Há os fracassados, que sonham objetivamente com a vitória. Há os desgraçados, que só tem olhos para a lama e se alimentam bravamente dela. Há, em menor escala, claro, os dinheiristas, que fariam Shopenhauer levantar do túmulo para uma longa cagada. Há, inclusive, os que escrevem simplesmente para dormir em paz. Que tipo de escritor eu sou? Só o esquecimento dirá. Alegra-me saber que seremos todos esquecidos. Desgraçadamente esquecidos. É um pensamento legal que eu tenho... esse do esquecimento. Dure um ano ou um século, seremos esquecidos. Irremediavelmente apagados da lembrança, do consciente dos homens. Ainda que algo de nós permaneça fincado no solo ruim da eternidade, uma imagem que seja, será essa uma imagem mentirosa, borrada, deturpada. Já sonhei o bastante para saber que os sonhos afastam o homem do conhecimento, da vida propriamente dita. Se sonho com o conhecimento?... É possível.  

Dizia que a escrita nos aproximou. Bem, as almas de verdade estavam todas na prateleira. Ainda estão, posso garantir. Não tive uma infância triste, mas inusitada. Não tive uma adolescência claustrofóbica, mas desengonçada e ufanista. Banquei o mini-Dionísio oitenta e cinco por cento do tempo dopado, viciado, louco pacas. O que me aproximou dos livros? A sede de despertar. Despertar da vida ou para vida? Tão insuficiente quanto a vida... são as respostas que arranjamos para justificá-la. O artista é aquele que começa do zero e começar do zero implica numa série de tratativas e especulações galácticas que podem enlouquecer ou desabilitar o mais consciente dos homens. Começar do zero implica em: danação, angustia, catarse... Ademais, há um brilho de felicidade lunática nessa merda que vale o esforço. Ah! Tempos de insurgente metafísica! Tempos de Álvaro de Campos! Tempos de naufrágio, dor e alegria desmotivada! É como se a vida, reinventada, ainda que por um curto período, adquirisse contorno e ritmo e sentido – por mais patética. Não faço a mínima como vive o homem incapaz de vida intelectual. Incapaz de comover-se diante da arte – e é justamente com esse tipo de nego que eu convivo todos os dias. Eles, Os incapazes, são meus seres humanos de estimação: talvez eu também seja o deles, o cachorrinho que escreve, o filho pródigo, o vizinho cabeludo, o rapaz sentado ao lado no ônibus apinhado.  

Acredito em Deus, sem dúvida. Enrolei-me pra burro com o Deus inquisidor dos homens que me apresentaram a Deus. Por fim, criei meu próprio Deus. Dei-lhe regras, tábuas... fiz dele minha imagem e semelhança. Hoje, ele e eu conseguimos ocupar o mesmo quarto, o mesmo horizonte perverso. Rimbaud, o homem do “Ela foi encontrada! Quem? A eternidade. É o mar misturado ao sol”, ouviu, certa vez, de um padre, que ele tinha “a maior fé já vista em um homem. Uma fé lúcida e corajosa.” Quis, durante muito tempo, a fé rimbaudiana. A fé que não é cega, mas que vive envolta em delírios. Quis essa fé antes mesmo da leitura dos grandes poetas e antes da invenção de meu próprio Deus justo e sábio – justo e sábio aos meus olhos, claro. A fé genuína e a grande arte, assim acredito, são a mesma coisa. Ocupam o mesmo pedaço devastado de terra. Dividem a cama como prostitutas companheiras de quarto após uma noite de trabalho estafante.
 
Porra, chega de enrolação. O melhor, sempre, é ir direto ao ponto: A escrita nos aproximou, sim. Eu era um escritor. Ele, outro. Éramos dispares e no entanto alimentávamos a mesma insegurança, a mesma ideia mutante de ganhar o mundo e com ele os... leitores? (sic). “Os leitores, meu amigo, não existem”, eu disse. Respondeu-me “Não escrevo para eles, escrevo para mim.” Eu tinha vinte e um. Ele, trinta e três – acho. Crescemos em gerações aberrações diferentes. Ideias e bitolações diferentes. O artilheiro da minha infância fora o Romário. A copa perdida de 94. O artilheiro de sua infância: Zico. A copa vencida de 82. Ele viveu um bocado cego em torno de almas negras e esfumaçadas. Eu vivi um bocado de olhos abertos entre espíritos de luz inefável e Deuses abastados. Ele cresceu numa casa sem pai, de mãe carola e irmãos neuróticos e autocentrados. Eu, numa casa de kardecistitas positivistas, numa família de trezentos anos e trezentos habitantes. Ele, carioca de cidade dormitório. Eu, nordestino litorâneo. Em comum, o mar. A presença equidistante do mar. A presença aniquiladora do Atlântico azulado e suas ondinhas de balada do Tim Maia – o tal infinito indo e vindo. As praias docemente negadas. As bucetas estrondosamente abertas para o conhecimento de si, e sim, sim, sim! Porque é nelas que começamos a longa jornada desértica de miragens: a jornada da perdição. Primeiro, perdemos um pouco de si; depois, perdemo-las para todo sempre até que nova buceta apareça. É no outro (bucetas, cus e caralhos, vai do gosto) que ambicionamos, pela primeira vez, nos enxergamos de relance. No outro está uma parte de nós que nem toda solidão e iluminação monástica podem alcançar. Dentro de uma caixinha dourada, muitíssimo bem escondida dentro do outro, está A parte que nos cabe. Ao abrir a caixinha, encontramos pouco, ou quase nada. No entanto, se não se abre a tal caixinha, corre-se o risco de passar o resto da vida curioso para saber o que há dentro dela. 

Éramos escritores... já disse isso? Em pior das hipóteses: nos comportávamos como escritores. Bocejávamos e bebíamos como escritores. Durante algum tempo, elogiávamos um ao outro, porque, em geral, é esse o passaporte da amizade literária: o elogio mútuo, o intercambio de bajulação para que ambas as alminhas prossigam sem nenhum sobressalto. Escritores no País das Maravilhas. Como bons animais de rua, exibimo-nos, contamo-nos, inventamo-nos... senão para despertar a atenção um do outro, ao menos para nos aceitarmos primariamente.   

Trombamos em Goiânia, palco de nossas cruzadas particulares, palco da dança sem música. Indissociavelmente, estávamos nessa (Goiânia sertaneja de baixa umidade) por conta e causa de mulheres. Ele com a dele que o sustentava. Eu com a minha que eu ambicionava sustentar.

– Quer dizer que André, o escritor, acredita em Deus? – foi, precisamente, a terceira coisa que me perguntou. As duas primeiras não interessam. Rogério achava Deus um utensilio dispensável. Não concordava que em meio a criação de um mundo espetacular de livre-arbítrio Deus desencadeara a dor e a derrota.  

– Criado onde eu fui criado, só assim, cara – eu disse, mostrando-lhe a medalhinha de São Jorge e o anel de prata com a estrela de Davi.

Era minha segunda semana em Goiânia.

Coincidentemente, eu estava de malas prontas para Goiânia quando Médice, através do Correios & Telégrafos de nosso tempo, a internet, pediu-me um exemplar de O Oxum da rua de trás (livro que havia acabado de lançar) e papo vai, papo vem, ficamos de nos encontrar quando de minha chegada à terra dos planaltos depauperados, a terra da meleca seca.

Sentamos no primeiro pé sujo que encontramos, entre a 3 e a Araguaia. O sujeito foi logo falando de concursos e isso e aquilo e “em breve ganharei um concurso literário e lavarei o cu com a grana, bicho, grana boa, grana publica, grana que interessa.” Eu lhe disse que minha ambição era escrever um grande livro de verdade e para provar minha real ambição improvisei umas palavrinhas bonitas como é de costume e assim, através dos falsos sonhos irrealizáveis... apresentamo-nos. Estávamos, cada um, no limiar de si. Encruzilhados pela vida e suas circunstancias. A vida, estrepitosamente, nos carregava, cada um a sua maneira, à escrita, ao encontro inadiável com a própria voz. A própria voz que para um escritor é como a descoberta de um Deus justo e sábio entre um milhão de Deuses sortidos. Um escritor só consegue a própria voz após um longo período imerso em rouquidão. Após gritar como um desiludido e após digerir um furacão. Havíamos gritado o suficiente? Habitava um furacão adormecido em nossos estômagos calejados? O certo é que estávamos próximos... próximos o suficiente para nos julgarmos conscientes, hábeis...  

O que não esperávamos – nem de longe, acho – é que essa mesma escrita redentora, essa capacidade de analisar a tudo e emitir opiniões e estilos, essa droga exaustiva e sem volta, desempenhasse também o papel de carrasco. Não digo que nos executaram – ou que ela nos executou. Não digo porque ainda demorará pacas até que saibamos os pormenores de nossa própria gran execução.

Toda história é um prólogo do passado verdadeiro, ou da impressão do passado. É impossível que a escrita, por mais confessional, reproduza absolutamente a verdade dos fatos, as vozes, as ideias. Também não é essa sua função. Que tipo de imbecil confiaria cegamente na verdade? Antes, em lugar da lucidez do mensageiro, me fosse confiado o dom hipnótico dos videntes. Meu pai foi um grande vidente, e isso não chega a ser uma novidade. Vivo a espalhá-la por onde passo. Meu pai nunca foi flor que se cheire. Todavia, o velho me ensinou o que significa realmente santidade. Santidade falsa, debochada, egoísta, mas santidade. Santidade que mais tarde mostrou-se nitidamente falsa, debochada e egoísta. Quando percebi o buraco de rato que meu pai se meteu, apaixonei-me duplamente. Pelo santo... e pelo demônio que havia nele. Inegavelmente, a hora e a vez do buraco de rato de qualquer homem é questão de tempo. 

Passamos a nos ver diariamente. Certo tempo, encontrava-o quatro, cinco vezes por semana. Sobretudo em minha época de vadiagem goiana. Vivia com o pouco que restava de minha vida de jogador de pôquer e com o que minha família depositava na conta. O suficiente – não mais.

Embora dissesse o contrário, Rogério era um homem de sorte. Era um escritor em guerra contra o mundo, embora o mundo não fosse sequer um adversário difícil de bater, mas um lutador que se recusava a lutar.

– Cara, eu não sinto saudade de nada – ele começava. – Eu só acho que a vida podia ser menos parada. Às vezes eu até consigo alcançar isso... esse movimento... sabe? Mas todo movimento estanca. Eu não preciso batalhar nada. Eu tenho tudo na porra das mãos. Talvez seja isso boa parte do tédio que habita a merda desse décimo sétimo andar. Se eu quero salmão, eu vou lá e compro. Se eu quero beber um uísque caro, eu vou lá e bebo. Dinheiro não é problema. Se dinheiro fosse problema, quem sabe eu fosse mais feliz. Mas não é essa a questão. Eu já fui um cara feliz, um cara normalzão. Eu me pego imaginando o tempo que eu trabalhava no escritório de contabilidade e eu até acreditava que aquele escritório iria pra frente. Você tá me entendendo? Eu acreditava, cara, seja lá no que fosse! Eu acreditava na vida comum, eu acreditava que fosse possível viver. Mas o foda é que eu não vivia. Chegou um tempo em que cansei de tudo. Dos amigos, da família, da cocaína, do trabalho, da cidade, e tudo pesou sobre mim como se eu fosse uma barata suportando o peso de um elefante de aço. Eu chegava em casa de manhã travadaço de pó e via minha mãe, minha irmã e minha sobrinha tomando café, e era como se eu houvesse chegado de uma guerra estúpida. Eu não queria nada, exceto distancia daquilo. À noite, eu me trancava no quarto e a guerra continuava. O barulho era terrível! Você tem ideia do barulho que faz uma guerra? Ainda mais uma guerra imaginária?

Eu lhe observava grunhir & grunhir e sua voz era o gemido bêbado de um gárgula no topo de uma igreja em ruínas, no topo de uma igreja em ruínas numa cidade abandonada, no topo de uma igreja em ruínas numa cidade abandonada presa a uma Era fria e esquecida da vida humana.

Chegara a Goiânia em petição de miséria. Viciado, esfolado, sem um puto no bolso, abanando o próprio rabo. Desembarcara para o matrimonio com Virginia – que por sinal era sua prima –, boa e solitária o suficiente para lhe receber de braços e bolsos abertos. Estabilizado em Goiânia, conquistou dos céus o que a vida, por vezes, demora a ofertar a maioria dos homens: tempo para escrever, uma mulher para deitar e o anonimato numa cidade desconhecida e parada. Não havia do que se queixar. Mas ainda era um náufrago achafundando numa civilização aquém de seus anseios.

Estava a escrever um livro, um diário de arabescos, sobre o completo e absurdo tédio: Parlamintite. Queria, entre outras coisas, reproduzir o silêncio da vida comum, porque acreditava ter descoberto a causa de todos os abismos do mundo: a banalidade, o cotidiano... esse massacre a céu aberto repetido a exaustão todos os dias da terra. Era um apaixonado pelas engrenagens da vida comum, ordinária. Afinal, era essa a vida que levava. Engaiolado no apartamento. Aturdido às três e meia da tarde no bar da esquina. Lendo seus Dostoievskis e maldizendo a si, ao mundo, a esperança e tudo mais que soasse convencional e, segundo ele, “a tudo que um dia tentou me destruir”. Em lugar de ser destruído por outros, destruía-se ele mesmo. Uma escolha sábia para quem tinha 33 e nenhum patrimônio. Nem carro, casa, moto, uma bicicleta que fosse. Em seus grandes momentos de insatisfação, fascinava-se com a vida na rua:

– Se a Virginia um dia me largar, eu vou morar na rua. Eu penso muito nisso, cara. Viver na rua, não sei fazendo o quê. Dormindo em praça, catando papelão, não sei. Mas a rua é a melhor opção. Você acha que eu tenho jeito pra voltar pra casa da minha mãe? Morar com minha irmã? Só a rua pode me absorver. Ou você acha que eu não sei me virar? – perguntava-me como se eu duvidasse de toda merda encalacrada que ele viveu até ser abduzido pelo vidão goiano.

Virginia lhe dera mais que estabilidade e um teto. Dera-lhe a chance de mergulhar na escrita, de escrever pra valer. Uma cadeira, lápis e papel. Material para embrutecer um Deus e comida o bastante para engordá-lo como um porco rosa e peludo. Por outro lado, Virginia não lhe cobrava “resultado”. Não lhe cobrava que fizesse às vezes de escritor, que vomitasse o que tivesse de vomitar e ganhasse logo o tal concurso literário. Pelo contrário, deixava-o em paz com o tédio, com as vacas, com os arranha-céus goianos. No fundo, ela queria o amor. Queria, também, a sanidade de uma vida a dois. Não era uma mecenas, mas uma amante cega e satisfeita. De certo, acreditava que cedo ou tarde ganharia algum crédito pelas grandes obras do primo-marido. Acreditava nele como se acredita num santo louco e histérico a anunciar o fim de todos os mistérios.

– Eu amo Virginía, cara. Mas, acima de tudo, eu não acredito no amor. O amor é exigir muito do outro. É possuir e eu não gosto de posses, meu camarada.

– Você ama e não acredita no amor?

– Porra, aquele que pertence ao outro é muito pouco de si. Enfim...

Arregimentamos alguns fracassos em comum. Planejamos montar uma peça. Fracasso. Depois, gravamos um curta-metragem que deveria ter três minutos e acabou em dezessete minutos e quarenta segundos, com Rogério desesperado e dramático a reclamar da edição. Por fim, a grande cagada: montamos um jornal alternativo. O jornal até que começou bem. Ideias, ideias, ideias. Mas, entre outras coisas, Rogério Medice é o maior perito em autosabotagem da face da terra. Após um chilique de insatisfação homérica com todos os colaboradores do jornal, da fotografa ao diagramador, Rogério e eu chegamos a conclusão que, juntos, somos bem piores do que separados. Largamos mão de projetos, ambições, gentalharada em comum e etc. Passamos uns bons meses sem nos encontrar, em rigoroso voto de silêncio.

Por puro acaso, meses depois, nos batemos numa locadora de filmes. Quando o avistei, perdi a voz. Cheguei muito próximo dele e gaguejei algumas palavras incompreensíveis: 

– E aí, preciso te falar uma coisa urgente – eu disse. Não havia coisa urgente porra nenhuma, mas foi o que me veio a cabeça. Tiramos de lá pro bar mais próximo. No bar, o de sempre: enchemos a cara, regurgitamos e entre piadas e filosofias de refugiados, reconciliamo-nos de um distanciamento que nunca aconteceu de fato. De um distanciamento que nunca aconteceu e que acontecerá – porque é assim que as coisas são... simplesmente.

Por vezes, acusava-me de perseguir a escrita: – Diferente de você, eu só escrevo quando preciso. Só escrevo quando há essa cinza incontrolável querendo sair de mim. Diferente de você, eu não quero nem sou um escritor, eu apenas escrevo. Eu não sei como você consegue sentar todos os dias e escrever, escrever ainda que não tenha nada a dizer.

Disciplinei-me – isso ao longo de anos – ao ponto de sentar todos os dias e, ainda que não alcance nenhum resultado satisfatório, continuar diante da máquina e: se há o que dizer, bom, se não há, melhor. Com Rogério, o processo era diferente. Ele sentava quando se sentia impulsionado (ou pressionado), com a mão coçando, e despejava seu vomito como se dele dependesse o pão de cada dia que não precisava ganhar.

De certa forma, eu precisava da amizade de Rogério. Conheci uma caralhada de gente desde meu sepulcro goianio. Entre fezes e humanos, com algum rigor esnobe, só havia Rogério em minha lista de contatos possíveis. Setenta por cento do tempo, discutíamos literatura. O que escrever, o que fora escrito, o que ler, o que fora lido, e todo o tipo de resenha que literatos bêbados e desconhecidos tomam pra si.

Rogério se achava um grande conquistador, muito embora a barriguinha proeminente e a boina de Pablo Neruda e sua inseparável bolsa repleta de papeis e anotações – o que lhe conferia uma imagem de professor de História. Como conquistador, devia grande parte de seu sucesso à mentira, ao mais sórdido e cambaleante jogo de mentiras. Se por um lado era o solitário ranzinza e fazia questão de sê-lo, por outro implorava e rastejava como um buldogue babão pela atenção e olhares alheios.


“A obrigação do escritor é com a verdade”, eu achava. Eu dizia. Eu praticava. Eu firulava. Eu... estava enganado. Como quase sempre, diga-se. A obrigação de todo escritor, faça chuva ou sol, é com a mentira. Mentir é a forma de exercer dignidade do escritor. Talvez a única. É seu escudo e sua lança. Mentir enquanto os outros sofrem. Mentir enquanto as missas são rezadas. Mentir enquanto os epiléticos enceram o chão. Mentir enquanto os homens esmagam outros homens. Se Blake acreditava em chegar ao paraíso através do inferno, é bem possível que se possa alcançar a verdade através dela... da mentira. Porquanto, nunca simpatizei com os mentirosos. Invejava-os, isso sim. E a inveja me distanciava de todos eles. A inveja, diferente da mentira, é imprestável. Não há utilidade para ela. Talvez por isso, aos doze, treze anos, minha primeira admiração literária fora pelos confessionais. É possível dizer que quando um leitor acredita que tudo dentro de um livro é verdade, pura e simples verdade, escritor e leitor adquirem uma proximidade só possível em momentos de inestimável cumplicidade humana. Todavia, não é assim que é escrito um relato ficcional. Não é assim, aliás, que nada é escrito. Está para nascer o homem habilitado a nos transmitir a verdade, a verdade de qualquer espécie – e não será ele um messias, tampouco um grande escritor. Será preciso que surja uma nova linguagem para que nos entreguemos sem estilo, sem métrica, sem razoabilidade, sem convenções, sem medo e principalmente sem ambição. Uma linguagem divina e demoníaca. Talvez a linguagem telepática de Rimbaud. Assim, quem sabe, quando esse dia chegar, quem sabe uma alma interessada e estudiosa não tenha esses rascunhos em mãos e diga: “Eis mais um esforço fracassado de nossos antepassados!”

Pode soar ridículo (tomara que soe!), mas eu sou um bom espírita. Preocupo-me um bocado com meus amigos ateus. Só os tenho! Amigos religiosos, nunca soube fazê-los. Ou são chatos em excesso ou concordam excessivamente comigo – o que me aborrece fodidamente. Como disse, preocupo-me com meus amigos ateus. Não é uma preocupação de vê-los condenados, não!... se Deus for um cara realmente justo, haverá de convidá-los para uma show do Jimmy Hendrix, não para um tribunal. Minha preocupação é quanto ao modo que meus amigos deixarão seus corpos. Uma vez vi o mesmo do George pro Lennon, quando dos cinco balaços. O George Harrison estava preocupado com o modo que o Lennon deixou o corpo. Mas não vem ao caso. Preocupo-me, sim, com a forma que meus amigos debutarão na nova vida. Sim, sou um homem da “nova vida”. Criado onde fui criado, não haveria de ser diferente.

– Façamos apenas um jogo psicológico, Rogério. Imagina aí se você morre e sua alma, segundos depois, sai andando pra fora dele, recomeçando, assim, uma vida nova, uma nova gama de sensações e existência. E aí, o que você faz?

– Não sei.

– Como não sabe? É só uma representação.

– De verdade, não sei.

– Larga de ser idiota. Apenas imagine a cena. Você está fora do seu corpo e acaba de perceber que está morto. Ou melhor: que a vida não era só a boa merda que você imaginava. E aí?

– Acho que vou sentar na esquina e ficar observando as coisas. Não sei mesmo.

– Por que você não larga o cu de medroso e responde de uma vez?

– Sei lá, cara. É muita fantasia pro meu gosto.

– Porra, é só um exercício. Não precisa fazer primeira comunhão e entrar pra seita, feladaputa.

– Eu acho a morte um lugar excepcional para se viver. Ainda mais se for uma soneca eterna.

– Qualquer pesadelo é melhor que o sono eterno.

– Sabe o que eu sinto falta? Eu sinto falta de antes de nascer. Sacou? Eu queria saber o que eu era antes de nascer.

Poupei-lhe minhas duzentas páginas de teoria da reencarnação e finalizei a confecção do bequi. Acendi e passei. Ele tragou e passou de volta. Baforei e toquei novamente. Ele arrematou e devolveu a pelota. Estávamos chapados. Se alguma vez eu lhe fiz um favor, foi apresentá-lo decentemente à maconha. De prima, desprezou a chapação. Dizia que tudo o que a maconha fazia com ele era sono, e sono, e sono. Depois, pegou gosto pela coisa. Já bem chapados, sentamos no sofá (o sofá possuía um furo de cigarro que eu deixara numa visita anterior) e discutimos Nietzsche, bucetas passadas, futebol, seu irmão mais velho que assumira o lugar do pai e nunca lhe demonstrou o menor afeto sempre lhe interrogando com a voz cheia “RO-GE-RIO”, e meu irmão mais novo que é como um filho para mim até porque eu estava no dia do seu nascimento e em todo o resto onde eu lhe vi sofrer e crescer desordenadamente como só crescemos na infância sem que eu pudesse fazer nada para reter o meu irmão próximo a mim, e mais bucetas passadas, e nossas bucetas atuais, minha mulher escritora histérica e sua mulher atleta calma e fumamos mais um pouco.

Rogério adormeceu no sofá e eu continuei mais algum tempo de bico pra cima encarando o teto. Sou bastante paranoico, e a maconha tem me tirado de tempo ultimamente. Nada muito grave, apenas alguns furos de bala em minha cabecinha de ficcionista too high. Olhei o céu estrelado e porra! essa cidade esse apartamento estão precisamente 2038 quilômetros de distancia da minha solar e dolorosa Natal, a cidade de meu enterro...

Pensar que estou distante de casa me anima... e muito. É uma satisfação, uma liberdade que, ultimamente, tem morrido aos poucos, mas que ainda me é útil. Chamei um táxi. Levantei-me e aquele pedaço gordo desabado sobre o sofá me lembrava, em parte, meu irmão mais velho. Uma forma diferente de irmão mais velho; um irmão mais velho que precise tanto de mim quanto pode me oferecer. Nesses momentos dou conta que quase todos os meus amigos são versões repensadas de meus dois irmãos. Correlaciono-os deliberadamente. Na vida, não há nada mais valioso que o tempo. Sendo assim, se você passa muito tempo ao lado de uma pessoa, bem ou mal, parte de sua vida fica com ela.

Sacudo-lhe para dizer que estou de saída. Rogério Medice está derrubado. Maconha e saquê. No fundo, Aldir Blanc canta uma melodia rota e sem muita importância a essa hora da madrugada.

– Rogério, Rogério...

Não há quem faça acordá-lo. Deixo-lhe entregue a morte, ou ao sono profundo, que é como sonha a morte. Só de sacanagem, dou-lhe um soco no estômago, para ver se acorda. Sem reação. Seu pai, se não me engano, morreu aos quarenta e cinco. Em pouco tempo, eu penso, esse homem terá a idade do pai morto. Superará a si e ao pai, numa matemática da vida que separa criador e criação para todo sempre, até que o criador se esqueça da criatura e a criatura já não saiba de onde veio.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A última luta de boxe da humanidade

Durante três ou quatro anos as lutas do Tyson foram uma religião lá em casa. Meu pai colocava o despertador pra apitar, levantava meia hora antes da luta e acordava meu irmão mais velho, João Maria. Meu irmão se incumbia de fazer o café e passar manteiga nas torradinhas duras e velhas, porque alguma coisa haveríamos de comer. Delicadamente, meu irmão mais velho me acordava. Era uma situação importante, que exigia sigilo e concentração. De tão eufórico, eu vencia o sono. Inegavelmente, Tyson faria o mesmo. Meu pai e meu irmão regurgitavam de ódio, torpor. Por amor a eles, eu também regurgitava de ódio, torpor.

A maior madrugada de todas fora a de junho de 97.

– Será que o Tyson consegue o cinturão de volta, pai? – João Maria perguntou.

– Mas é claro! Esse negão Hollywood não é o campeão de direito, porra. Vai ser preciso matar o Tyson pra ser o campeão de direito. Concorda comigo?

– Sim, pai, sim. Vai ser preciso matar o Tyson. – meu irmão concordou.

Só de sacanagem, meu pai chamava o Holyfield de Hollywood. Meu pai nunca gostou do Holyfield. Gostava, sim, do Tyson, que era todo talento e fúria. Gostava do Tyson que dizia o que precisava em apenas um round. Gostava do Tyson que era seco e rápido. Gostava do Tyson que não se fazia de Deus, nem se imaginava ungido por Deus a fim de realizar uma grande missão divina (como a maioria dos lutadores), muito embora meu pai fosse o “ungido”, fosse o cara da missão divina.

A luta começou e o Tyson mais parecia uma múmia. Apático, lento, desgovernado. Meu pai apostara um engradado de cerveja com não sei quem que o Tyson acabava a luta no primeiro round. O primeiro round se foi e o Tyson continuou parado, incapaz sequer de ultrapassar a linha de cintura. Meu pai e meu irmão fizeram cara de cu, embasbacados. Era um milagre às avessas. Um milagre do demônio contra as forças do bem, contra o Tyson. Holyfield acertou um direto na barriga do Tyson. Tyson avançou e caiu nos braços do Holyfield. Evander Holyfield, então, passou a desferir cabeçadas na testa do Tyson. O narrador da luta parecia, também, não acreditar no que estava narrando. Era como se Jesus Cristo retornasse à terra e acabasse mais uma vez derrotado na cruz, duvidando de si e do próprio pai.

– Eu já sei, eu já sei! – meu pai gritou. – O Tyson está a usar de uma estratégia arriscada. Ele vai cansar o Hollywood, que nem o Ali contra o Foreman, e depois vai acabar com a raça desse preto miserável. Feladaputa! Larga ele, Tyson, puta! Larga e come o queixo desse corno! Tá vendo como o Hollywood deixa o queixo exposto? Feladaputa! Não se faz isso contra o Mike Tyson, cara, não se faz.  

Mal meu pai fechou a boca, o grande Mike Tyson abocanhou a orelha do canalha Evander Holyfield. O sangue jorrou como de uma cascata. Tyson, transtornado, era um touro enfurecido num mundo vermelho e desordenado, não um homem. Um mar de gente invadiu o ringue. Curiosos, fãs, jornalistas, apostadores. Evander Holyfield parecia ofendido, e com certeza alguns milhões mais rico. Meu irmão e meu pai, pálidos, abriram a porta da cozinha e se recolheram ao quintal. Meu pai acendeu um cigarro e meu irmão bebeu o último gole de café da garrafa térmica. Eu estava com frio, muito frio, e não conseguia entender como meu pai, o grande médium, apostara no lutador errado. 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O vício do Sol em Prozac

Foi tão difícil visitar aquela cidade quanto abandoná-la. Há mais reverencia e medo – ao menos de minha parte – em voltar ao velho do que em zarpar todo cheio de esperança em direção ao novo. Fatidicamente, estavam todos lá... fantasmas de um passado revisited, de um passado nada esquecido. Parentes, amigos, conhecidos... espetacularmente misturados em esquinas, ruas, avenidas... Meu primeiro impulso foi fugir. Esquecer tudo novamente no mesmo baú de alguns minutos atrás. Todavia, era tarde demais para escapar, dar um passo atrás e pegar o primeiro avião meia-volta-volver. O que eu demorei três anos em estado de fuga tentando conquistar, perdi em dez minutos... se muito. Entreguei-me às lágrimas como um garoto entorpecido, entre a cruz e a espada: entre o menino calado que um dia eu encarnei e o adolescente histérico mais interessado no êxtase que na sabedoria furreca (como são e devem ser os adolescentes, diga-se). De alguma forma estranha e insensata, ainda sou/era o menino e o adolescente. Mas não era esse o espetáculo que Eles queriam. Eles queriam, exatamente, conhecer o novo André, o André que partiu e estava de volta... melhorado, modernizado, experiente... O André fodidaço de histórias, novidades, previsões, dores, piadas... Encabulado, dei-lhes histórias, novidades, previsões nem tão confiáveis assim, dores e, sobretudo, piadas. Piadas aos montes. Descobri, irremediavelmente, que eu não mudara porra nenhuma – e se mudara, tratava-se de uma mudança deslocada, correndo o sério risco de retroceder ao mínimo contato com o antigo, o velho, o esquecido. Não deu outra: retrocedi. Desejei, por um segundo, nunca ter fugido ou nunca ter voltado. Ademais, era preciso aparentar uma grande mudança para que não me tomassem como um impostor. Do lado deles, sem que pudessem sequer suspeitar, embora se tratasse de uma constatação muito simples, estavam todos naufragados no mesmo passado que, silenciosamente, recriminavam em mim. Calei. Bebi cachaça. Acendi um cigarro no outro. Fiz caras e bocas. Abraços burocráticos e beijocas secas. Gargalharam, eu gargalhei, satisfizeram-se, e então o dia amanheceu, brega e melodramático como só o nascer-do-sol... em Natal. Os poucos amigos que aguentaram bêbados e corajosos até o começo do dia se foram e levaram consigo meio litro de uísque. Os de minha casa caíram no sono e eu estava, enfim, novamente a sós com minha cidade. De todos, o reencontro mais aguardado: Eu, A solidão e O mar. Chutei os sapatos gastos e desci à praia. As ondas dançaram escorregadiamente e os primeiros pássaros do sol sobrevoaram o oceano pálido em absoluta harmonia. Constatei que sim, sim, eles estão certos, não há como refugiar-se naquilo que já não existe. Definitivamente, como diz a canção, o novo sempre vence. As coisas morrem, ou no mínimo envelhecem. Deitei na areia fofa da praia e quase adormeci. 

sábado, 7 de dezembro de 2013

O místico doce da morte



A noite perde a virgindade todos os dias. Sempre que o sol nasce como um grito encoleirado de dor... uma máscara inviolável de luz que a tudo cobre e abicha. Nuvens alaranjadas. Arranha-céus lambidos pela luz. Vira-latas mancos à cata do primeiro saco de lixo do dia. O sol é a lua sem charme... uma tangerina gigante... uma bola de futebol na marca do pênalti. São estúpidas as metáforas sobre o sol... rigorosamente, são estúpidas todas as metáforas. Como um bom estúpido, faço-as com gosto.

Todavia, antes do sol, a noite é virgem. Dentro da noite residem os animais velozes... os animais voadores.... os animais que me interessam... os trabalhadores estropiados e exaustos... os garçons de suor congelado... os alcoólatras paranoicos... os lixeiros maratonistas... os mendigos depauperados... as putas de calçada com suas pernas e seios a mostra... os lobisomens de sinaleiro... e uma porção de viciados fodidos e insanos. Não há paternidade, nem maternidade dentro da noite. Há, sim, um barulho de rádio ligado que ninguém sabe de onde veio nem para onde vai. Há os carros que passam em disparada como relâmpagos na imaginação de um cego. A vida dentro da noite engatinha silenciosa e sufocada. Ninguém, nem por um minuto, arrisca dizer que um dia a noite acabará. O sol é um presságio, and no more.

Durante muito tempo... só escrevia à noite. Apoiado em xícaras de café, contando os cigarros como um fazendeiro conta suas vacas. Meus pais dormiam no quarto ao lado, e eu lhes ouvia a respiração agitada. No meu quarto, o batuque das teclas emperradas do computador e o assobio gelatinoso do mar. Raramente eu escrevia à máquina. O barulho da máquina despertava meu pai, que logo começava a tossir. Meu pai tinha – não sei se ainda tem – o sono leve e sensível. Quando o computador estava enguiçado, o que era quase sempre, algum problema fodido com o software ou hardware, eu escrevia à mão, o que era quase nunca. Detesto escrever à mão. Quando escrevo à mão o tempo parece um adversário, e não um aliado. A redação não acompanha o pensamento, o que é um problema seríssimo. Outros escritores já se queixaram disso.

Em Natal, Rio Grande do Norte, o sol nasce todos os dias pela primeira vez na América do Sul. Do lado de cá do Equador, ninguém vê o sol antes do Rio Grande do Norte. O barulho dos ônibus antes do nascer do dia é o sinal de que logo a vida cotidiana despertará para o monstruoso caos, o genuíno caos, o triunfante caos. O que acontece à noite não é o caos, mas o substrato do verdadeiro caos. O mundo está de pé. Os vendedores de picolé. Os padeiros. As caixas de supermercado. Meus pais, irmãos e vizinhos. Ouvia-os tomar café. Ouvia-os disputar uma vaga no banheiro. Ouvia-os defecar a primeira cagada da segunda-feira sun shine – e não sem prazer eu os ouvia voltar à vida. Lentamente, fechava a janela do quarto, ligava o ventilador Arno apoiado num tamborete de metal em frente à cama e... dormia. Estava contente por ter trabalhado duro a noite inteira. Apesar da fama de vagabundo, apesar da ideia de ser um vagabundo me excitar como nenhuma outra, não era assim que eu me via. Escrevia e escrevia. Relia o trabalho de uma noite inteira pouco antes de dormir. Ainda que eu não gostasse do resultado, meu corpo relaxava e eu podia, enfim, descansar.

O mundo lá fora só fazia sentido para mim se desabitado, ou mal e porcamente habitado. As ruas de meu bairro, pela manhã, se enchiam de carros estacionados. O entra e sai de carros me colocava paranoico, aluado mesmo. Se um único carro desfilando pela avenida é um consolo imaginário, uma centena deles é sinal de que a vida está inchada e podre. À noite, por outro lado, a rua me seduzia como um rato se deixa seduzir por um bueiro. Os lixeiros árabes com suas camisas plantadas na cabeça como burcas. Os travestis turbinados que, por segurança, só andam em bando. Os maconheiros magricelas em roupas de verão e bonés em busca de uma vitamina mais forte, engatinhando no mundo da cocaína.

Há gente de verdade nos antros de sofrimento, e uma incrível fonte de prazer e aprendizado quando se é um visitante nesses lugares sombrios e esquecidos.

Meu melhor amigo na infância chamava-se Fernão. Minha mãe e a mãe dele também eram amigas de infância, e davam aula juntas num colégio publico formador de aberrações. Eu sentia Fernão mais próximo de mim do que meus próprios irmãos. O que não me faltam são irmãos. Tenho sete. Dois do primeiro casamento de meu pai, e outros cinco entre meu santíssimo pai e diviníssima mãe. Nunca tive uma relação suficientemente intima e sincera com nenhum de meus irmãos. Nenhum deles nunca dividiu comigo as primeiras porradas da vida. Fernão, entretanto, me tinha no bolso. Salvara-me tantas vezes que se sentia à vontade em me sugar de todas as formas possíveis. Eu me sentia à vontade em ser sugado de todas as formas possíveis. Ele não tinha pai, e sua mãe, a tal amiga de minha mãe, não passava de uma puta viciada em machos etílicos e surras etílicas. Fernão é o que a sociedade moderna chama de “garoto transtornado”, criado sem pai, entregue às loucuras melodramáticas e à indiferença da mãe ninfomaníaca.  

Engendramos na maconha aos treze, quatorze. Quando demos o primeiro passo para cocaína, Fernão se empolgou. Achara a resposta de uma vida. O êxtase e a felicidade que lhes fora subtraído na infância. Diferente de Fernão, não me empolguei o suficiente. Completei um curto período de dependência, e só. Apenas um susto. Não tenho colhões o suficiente para me viciar, e se tenho, me falta dedicação.

Sempre me foi bastante claro o custo benefício da cocaína. Se cheirava duas, três horinhas – quarenta, cinquenta pilas de pó –, havia outras cinco, seis longas horas de exausta depressão. Sem contar a insônia que se iniciava à boca da madrugada e atravessava comigo o resto do dia. Isso desde a primeira vez que mandei um raiozinho. Não havia diversão o suficiente nessa porra para me fisgar. Se não fosse a depressão, é possível que caísse com gosto. Já Fernão estava tão acostumado com a merda que uma simples sessão depressiva não lhe fazia nem cócegas.

Foi nesse período que perdemos o contato diário. Ele arrumou uns parças narigudos do centro da cidade, e cheirava todas as noites, sem exceção. O problema da cocaína está no comportamento depressivo prolongado pós-ação, que é o meu caso, ou na falta de dinheiro, caso de Fernão. A falta de dinheiro é o maior dos toletes. Quando se cheira oito, noves noites seguidas, as próximas oito ou noves noites sem cocaína transformam-se num inferninho privativo e desempolgado. Fernão devia aquilo não ao vício, mas a si. Sem dinheiro, virava-se como podia. Lavava carros e assaltava os toca-fitas dos carros que lavava. Pastorava carros e metia os toca-fitas dos carros que pastorava. Ou só estourava o vidro de um carro qualquer e fugia com o toca-fitas. Especializou-se em toca-fitas. E havia, claro, a fonte clássica de dinheiro dos cacainômanos: a bolsa da mama.

Certa tarde, a mãe de Fernão apareceu lá em casa. Estava de short jeans, blusa cavada e descalça. Tinha uma enorme mancha roxa na bochecha. Transtornada, atirou-se nos braços de minha mãe e chorou como uma garotinha. Minha mãe chorou junto. As duas pareciam amigas, amigas de verdade. Encostei a orelha e ouvi como pude o que elas conversavam. Fernão, óbvio, atacou a mãe. Roubou-lhe o salário do mês. Minha mãe chamou meu pai, que estava na cozinha, torrando o saco trabalhador de cachaça. Meu pai fez um cheque e a mãe de Fernão recuperou-se como se tocada por Cristo. Dinheiro emprestado tem esse poder nas pessoas. Ainda mais quando elas sabem que não precisam saldar o empréstimo tão cedo.

Passamos a andar em grupos diferentes. Fernão pertencia à patota viciada, aos “quebra-nozes”, como eram conhecidos os nariguebas sem um puto. Eu frequentava os maconheiros do centrão, “jamaicoboys”, como nós (eles) erámos chamados. Nunca tive lá grande sentimento corporativista, muito menos quando se trata de maco-clubismo. Mas andar com os jamaicoboys facilitava a vida de qualquer maconheiro. É fumo que não acaba mais. De todas as qualidades e sabores. Maconha se reparte. Se um está sem maconha, o outro cobre. Se o outro tá em baixa, o um cobre. Maconha se divide. Maconha é a mais Franciscana de todas as drogas. Os maconheiros nutrem aquilo que chamo de bequi-da-compaixão. Ao passo que com a cocaína não acontece da mesma forma, nem poderia. Aquela porra custa uma nota e quanto mais se tem, mais se quer. Não há ponto de estafa na cocaína – e se há, é um ponto demasiado alto e perigoso para que se consiga vivê-lo.

Fernão não podia mais voltar para casa. Se voltasse, o atual comedor da mama, um PM aposentado fã de um uisquinho, foder-lhe-ia no tabefe. Sem contar que a mãe lhe queria pelas costas. Foi morar na Praça André de Albuquerque, a Woodstock a céu aberto dos junkies natalenses. Juntou-se a crème de la créme dos viciados entregues à miséria.

Certa noite, Fernão apareceu lá em casa. Quando o interfone tocou, eram três da madruga. Eu trabalhava naquilo que seria meu segundo livro, um romance perdido num HD queimado. Um livro em primeira pessoa que narrava a vida de um cara criado dentro de um cabaré. Criado pelas putas, assim como Mogli fora criado pelos ursos, ou lobos, vai se saber. Havia acabado de lançar meu primeiro livro, O Oxum da rua de trás, um livro de contos, e me julgava, sem sacanagem, um grande escritor. Eu era um pobre-diabo, mas essa informação ainda me era desconhecida. Morava com meus pais, tinha dezessete anos e já um livro. Imaginava-me Rimbaud, para dizer o mínimo. Estava com o cu cheio de grana. Cheio de grana que eu digo são dois mil, dois mil e quinhentos reais. Uma graninha nada mal para quem tem dezessete anos e está a vinte minutos da orla mais cara do litoral Nordestino.

Desci ao encontro de Fernão. Ele estava na calçada. Pés e mãos enferrujadas. Não tomava um banho há dias. O cabelo parecia um capacete, de tão duro e impermeável. Fernão sorriu, como se tivesse numa boa. Sorri de volta. Abriu os braços e lançou-me a possibilidade de um abraço. Foda-se, eu pensei, se não abraçá-lo agora o sujo sou eu. Abraçamo-nos. Perguntou como eu estava. Respondi que estava muito bem, obrigado. Escrevendo como nunca. Por falar nisso, tenho umas histórias que você poderia escrever, ele retrucou. Aposto que sim, eu falei, e perguntei como ele estava, como se não soubesse o tipo de merda que ele estava passando. Respondeu com um sorriso, timidamente. Disse estar com pressa. Uma pressa fodida. Pediu-me cem reais. Precisava pagar um trafica. O trafica chamava-se Olho Seco. Olho Seco era um pé-de-chinelo, mas um chinelo perigoso. Há traficantes que só trabalham com a high. Passam para os playbas e vivem de carrão topeteando na zona litorânea. Há, por outro lado, os traficas do centro, que circundam as sombras da madrugada e são como macacos de galho em galho, rua em rua, avenida em avenida. Olho Seco era desses. Olho Seco nasceu com apenas um olho, daí o apelido. Fernão sorria. Esplendorosamente sorria. Um riso cínico, desinteressado. Parecia alheio ao mundo e ao vento frio que soprava do mar, o que naturalmente não passava de uma grandessíssima simulação. Sorri de volta. Sorri e menti. Disse que não, não tenho um puto, Fernão. Pensei que se arranjasse o dinheiro agora, ele viria amanhã, e depois, e depois. Não importaria quantos nãos eu lhe desse, ele continuaria vindo. Os viciados em cocaína tem pouquíssima imaginação e memória curtíssima. Esquecem ou inventam seus problemas ao bel prazer.

Não, foi minha resposta. Fernão sabia que eu estava mentindo. Repetiu o pedido, como se um novo pedido demovesse-me da ideia. Respondi que... Se eu tivesse, brother, estaria em suas mãos, você sabe. Ele não acreditou, mas continuou sorrindo. Despedimo-nos com um aperto de mão. Daqueles que terminam em soquinho. Deu as costas e desapareceu dentro do barulho neurótico que faz o vento do Atlântico nas costelas dos prédios descascados da grande cidade de Natal.


***


Fernão e eu tínhamos um leva de amigos em comuns. Entre eles, Derico. Derico tinha esse apelido porque era careca e sustentava um rabo-de-cavalo ridículo da nuca até quase a bunda. Parecia o Derico, saxofonista do programa do Jô. Apareceu lá em casa como se de posse de uma grande novidade. Havia um morto estendido no calçadão da Praia do Meio.

– Adivinha quem é?

Como assim, eu perguntei.

– Fernão, porra. Todo furado de faca. Dizem que os caras passaram o coitado por uma merreca de trinta pilas.

Foi uma questão de tempo até a mãe de Fernão pintar lá em casa. Queria dinheiro para o funeral. Parecia ainda menos chocada que da última vez. Pelo contrário, estava até aliviada. Mas precisava do dinheiro, então fez uma ceninha rápida, conseguiu outro cheque e picou a mula.

Derico sentou-se em minha cama, apoiou o violão na perna e tirou um solinho estúpido do Pink Floyd que ele estava treinando. Time, se não me engano. Tinha uma banda, como a maioria dos retardados maconheiros de minha laia. Enquanto solava, descreveu o corpo de Fernão:

– Disseram que o estômago dele tava todo na calçada, acredita, bicho? E o cadáver todo cagado. Eu queria saber só se ele cagou antes ou depois das facadas.

Eu não estava surpreso. Estava, sim, um pouco tonto. Anestesiado com a ideia. A morte ainda não me era familiar. Derico, pelo contrário, parecia tranquilo com a presença da morte. Tranquilo ao ponto de reclamar da primeira corda desafinada do violão. Ou simplesmente estivesse cagando e andando, o que era bem possível.

Minha mãe veio me ver. Abraçou-me. Chorou tentando imaginar a dor da amiga em si. A dor oca de perder um filho. Enxugou as lágrimas com as costas enrugadas da mão e perguntou se eu não queria um terno de meu pai, um daqueles pretos com listras, e quem sabe uma gravata vermelha, sugeriu.

– Pode ser, respondi.

Derico disse que não iria ao enterro. Não tinha roupa para esse tipo de ocasião importante, e nem de cemitério gostava. E havia ensaio da banda. Estúdio novo, sabecomé, batera novo, um mundo de novidades entra dia sai dia, é foda. Guardou o violão e conferiu o relógio... estava na hora. Atravessara a cidade apenas para me dar a notícia... apenas. Lamentou-se, sabia que Fernão e eu éramos próximos, quase irmãos. Usou exatamente essas palavras... "quase irmãos".  

– Ah, continuou, você não tem um pedacinho aí que me salve? Tô de baixa, bicho. Ensaiar de cara é mau, né?

Fui até a última gaveta da escrivaninha, dei-lhe um pedaço de maconha, cheirou o fumo, seus olhos incharam de felicidade e guardou a rapadura prensada dentro da cueca. Deu no pé, sem cerimônia.


***


Não houve velório. O cheque de meu pai chegou para o enterro e mais nada. O enterro aconteceu às dez da matina do dia seguinte, debaixo de um solzão tórrido. A mãe e o padrasto estavam de óculos escuros, um pouco enfadados, apoiados numa lápide escura de mármore. Não mais que vinte, trinta pessoas... igualmente enfadadas. Entre eles, minha mãe e eu.

Uma velha gorda e suada, não sei se parente ou conhecida da família, ameaçou desmaiar e foi levada às pressas até o banco traseiro de um Fiat Uno azul estacionado a poucos metros da sepultura. Minha mãe e eu cumprimentamos a mãe de Fernão, que sacou os óculos e os pendurou no decote da blusa negra. As pessoas não usam óculos para esconder a dor, mas a falta dela. Perguntou-me a idade. Embasbacado, não respondi. Minha mãe respondeu por mim: 


– Dezessete. 
– Uma criança, meu Deus, uma criança... igualzinho meu Fernão.

O caixão desceu. As pessoas bateram palmas. Os coveiros lacraram a cova com cimento. As pessoas fugiram atazanadas do sol. Já não havia mais caixão. 


Minha mãe chamou um táxi. Enquanto esperávamos o táxi à entrada do cemitério, alisou-me os cabelos com seus dedos finos e pontiagudos e disse o quanto o tempo passa depressa, que a vida é hoje e não é amanhã, que Deus há de ser bondoso com Fernão, meu Deus, há de ser, há de ser, e disse também que nada acontece por acaso. Estava contente em não ser ela a mãe a chorar o filho morto. Obviamente, eu também estava contente em não ser o filho morto.

– É sempre bom tomar um banho depois de ir ao cemitério, André – advertiu-me.

Sentei no banco da frente. O taxista perguntou para onde. Minha mãe lhe passou o endereço e o taxista retrucou se havia algum caminho de nossa preferência, uma avenida, um bairro, pelo viaduto ou pela orla, senhora? Minha mãe respondeu não importa, o senhor que sabe, e o taxista escolheu o caminho mais longo e engarrafado possível.