segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O vício do Sol em Prozac

Foi tão difícil visitar àquela cidade quanto abandoná-la. Há mais reverencia e medo – ao menos de minha parte – em voltar ao velho do que em zarpar todo cheio de esperança em direção ao novo. Fatidicamente, estavam todos lá... fantasmas de um passado revisited, de um passado nada esquecido. Parentes, amigos, conhecidos... espetacularmente misturados em esquinas, ruas, avenidas... Meu primeiro impulso foi fugir. Esquecer tudo novamente no mesmo baú de alguns minutos atrás. Todavia, era tarde demais para escapar, dar um passo atrás e pegar o primeiro avião meia-volta-volver. O que eu demorei três anos em estado de fuga tentando conquistar, perdi em dez minutos... se muito. Entreguei-me às lágrimas como um garoto entorpecido, entre a cruz e a espada: entre o menino calado que um dia eu encarnei e o adolescente histérico mais interessado no êxtase que na sabedoria furreca (como são e devem ser os adolescentes, diga-se). De alguma forma estranha e insensata, ainda sou/era o menino e o adolescente. Mas não era esse o espetáculo que Eles queriam. Eles queriam, exatamente, conhecer o novo André, o André que partiu e estava de volta... melhorado, modernizado, experiente... O André fodidaço de histórias, novidades, previsões, dores, piadas... Encabulado, dei-lhes histórias, novidades, previsões nem tão confiáveis assim, dores e, sobretudo, piadas. Piadas aos montes. Descobri, irremediavelmente, que eu não mudara porra nenhuma – e se mudara, tratava-se de uma mudança deslocada, correndo o sério risco de retroceder ao mínimo contato com o antigo, o velho, o esquecido. Não deu outra: retrocedi. Desejei, por um segundo, nunca ter fugido ou nunca ter voltado. Ademais, era preciso aparentar uma grande mudança para que não me tomassem como um impostor. Do lado deles, sem que pudessem sequer suspeitar, embora se tratasse de uma constatação muito simples, estavam todos naufragados no mesmo passado que, silenciosamente, recriminavam em mim. Calei. Bebi cachaça. Acendi um cigarro no outro. Fiz caras e bocas. Abraços burocráticos e beijocas secas. Gargalharam, eu gargalhei, satisfizeram-se, e então o dia amanheceu, brega e melodramático como só o nascer-do-sol... em Natal. Os poucos amigos que aguentaram bêbados e corajosos até o começo do dia se foram e levaram consigo meio litro de uísque. Os de minha casa caíram no sono e eu estava, enfim, novamente a sós com minha cidade. De todos, o reencontro mais aguardado: Eu, A solidão e O mar. Chutei os sapatos gastos e desci à praia. As ondas dançaram escorregadiamente e os primeiros pássaros do sol sobrevoaram o oceano pálido em absoluta harmonia. Constatei que sim, sim, eles estão certos, não há como refugiar-se naquilo que já não existe. Definitivamente, como diz a canção, o novo sempre vence. As coisas morrem, ou no mínimo envelhecem. Deitei na areia fofa da praia e quase adormeci. 

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