quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A última luta de boxe da humanidade

Durante três ou quatro anos as lutas do Tyson foram uma religião lá em casa. Meu pai colocava o despertador pra apitar, levantava meia hora antes da luta e acordava meu irmão mais velho, João Maria. Meu irmão se incumbia de fazer o café e passar manteiga nas torradinhas duras e velhas, porque alguma coisa haveríamos de comer. Delicadamente, meu irmão mais velho me acordava. Era uma situação importante, que exigia sigilo e concentração. De tão eufórico, eu vencia o sono. Inegavelmente, Tyson faria o mesmo. Meu pai e meu irmão regurgitavam de ódio, torpor. Por amor a eles, eu também regurgitava de ódio, torpor.

A maior madrugada de todas fora a de junho de 97.

– Será que o Tyson consegue o cinturão de volta, pai? – João Maria perguntou.

– Mas é claro! Esse negão Hollywood não é o campeão de direito, porra. Vai ser preciso matar o Tyson pra ser o campeão de direito. Concorda comigo?

– Sim, pai, sim. Vai ser preciso matar o Tyson. – meu irmão concordou.

Só de sacanagem, meu pai chamava o Holyfield de Hollywood. Meu pai nunca gostou do Holyfield. Gostava, sim, do Tyson, que era todo talento e fúria. Gostava do Tyson que dizia o que precisava em apenas um round. Gostava do Tyson que era seco e rápido. Gostava do Tyson que não se fazia de Deus, nem se imaginava ungido por Deus a fim de realizar uma grande missão divina (como a maioria dos lutadores), muito embora meu pai fosse o “ungido”, fosse o cara da missão divina.

A luta começou e o Tyson mais parecia uma múmia. Apático, lento, desgovernado. Meu pai apostara um engradado de cerveja com não sei quem que o Tyson acabava a luta no primeiro round. O primeiro round se foi e o Tyson continuou parado, incapaz sequer de ultrapassar a linha de cintura. Meu pai e meu irmão fizeram cara de cu, embasbacados. Era um milagre às avessas. Um milagre do demônio contra as forças do bem, contra o Tyson. Holyfield acertou um direto na barriga do Tyson. Tyson avançou e caiu nos braços do Holyfield. Evander Holyfield, então, passou a desferir cabeçadas na testa do Tyson. O narrador da luta parecia, também, não acreditar no que estava narrando. Era como se Jesus Cristo retornasse à terra e acabasse mais uma vez derrotado na cruz, duvidando de si e do próprio pai.

– Eu já sei, eu já sei! – meu pai gritou. – O Tyson está a usar de uma estratégia arriscada. Ele vai cansar o Hollywood, que nem o Ali contra o Foreman, e depois vai acabar com a raça desse preto miserável. Feladaputa! Larga ele, Tyson, puta! Larga e come o queixo desse corno! Tá vendo como o Hollywood deixa o queixo exposto? Feladaputa! Não se faz isso contra o Mike Tyson, cara, não se faz.  

Mal meu pai fechou a boca, o grande Mike Tyson abocanhou a orelha do canalha Evander Holyfield. O sangue jorrou como de uma cascata. Tyson, transtornado, era um touro enfurecido num mundo vermelho e desordenado, não um homem. Um mar de gente invadiu o ringue. Curiosos, fãs, jornalistas, apostadores. Evander Holyfield parecia ofendido, e com certeza alguns milhões mais rico. Meu irmão e meu pai, pálidos, abriram a porta da cozinha e se recolheram ao quintal. Meu pai acendeu um cigarro e meu irmão bebeu o último gole de café da garrafa térmica. Eu estava com frio, muito frio, e não conseguia entender como meu pai, o grande médium, apostara no lutador errado. 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O vício do Sol em Prozac

Foi tão difícil visitar aquela cidade quanto abandoná-la. Há mais reverencia e medo – ao menos de minha parte – em voltar ao velho do que em zarpar todo cheio de esperança em direção ao novo. Fatidicamente, estavam todos lá... fantasmas de um passado revisited, de um passado nada esquecido. Parentes, amigos, conhecidos... espetacularmente misturados em esquinas, ruas, avenidas... Meu primeiro impulso foi fugir. Esquecer tudo novamente no mesmo baú de alguns minutos atrás. Todavia, era tarde demais para escapar, dar um passo atrás e pegar o primeiro avião meia-volta-volver. O que eu demorei três anos em estado de fuga tentando conquistar, perdi em dez minutos... se muito. Entreguei-me às lágrimas como um garoto entorpecido, entre a cruz e a espada: entre o menino calado que um dia eu encarnei e o adolescente histérico mais interessado no êxtase que na sabedoria furreca (como são e devem ser os adolescentes, diga-se). De alguma forma estranha e insensata, ainda sou/era o menino e o adolescente. Mas não era esse o espetáculo que Eles queriam. Eles queriam, exatamente, conhecer o novo André, o André que partiu e estava de volta... melhorado, modernizado, experiente... O André fodidaço de histórias, novidades, previsões, dores, piadas... Encabulado, dei-lhes histórias, novidades, previsões nem tão confiáveis assim, dores e, sobretudo, piadas. Piadas aos montes. Descobri, irremediavelmente, que eu não mudara porra nenhuma – e se mudara, tratava-se de uma mudança deslocada, correndo o sério risco de retroceder ao mínimo contato com o antigo, o velho, o esquecido. Não deu outra: retrocedi. Desejei, por um segundo, nunca ter fugido ou nunca ter voltado. Ademais, era preciso aparentar uma grande mudança para que não me tomassem como um impostor. Do lado deles, sem que pudessem sequer suspeitar, embora se tratasse de uma constatação muito simples, estavam todos naufragados no mesmo passado que, silenciosamente, recriminavam em mim. Calei. Bebi cachaça. Acendi um cigarro no outro. Fiz caras e bocas. Abraços burocráticos e beijocas secas. Gargalharam, eu gargalhei, satisfizeram-se, e então o dia amanheceu, brega e melodramático como só o nascer-do-sol... em Natal. Os poucos amigos que aguentaram bêbados e corajosos até o começo do dia se foram e levaram consigo meio litro de uísque. Os de minha casa caíram no sono e eu estava, enfim, novamente a sós com minha cidade. De todos, o reencontro mais aguardado: Eu, A solidão e O mar. Chutei os sapatos gastos e desci à praia. As ondas dançaram escorregadiamente e os primeiros pássaros do sol sobrevoaram o oceano pálido em absoluta harmonia. Constatei que sim, sim, eles estão certos, não há como refugiar-se naquilo que já não existe. Definitivamente, como diz a canção, o novo sempre vence. As coisas morrem, ou no mínimo envelhecem. Deitei na areia fofa da praia e quase adormeci. 

sábado, 7 de dezembro de 2013

O místico doce da morte



A noite perde a virgindade todos os dias. Sempre que o sol nasce como um grito encoleirado de dor... uma máscara inviolável de luz que a tudo cobre e abicha. Nuvens alaranjadas. Arranha-céus lambidos pela luz. Vira-latas mancos à cata do primeiro saco de lixo do dia. O sol é a lua sem charme... uma tangerina gigante... uma bola de futebol na marca do pênalti. São estúpidas as metáforas sobre o sol... rigorosamente, são estúpidas todas as metáforas. Como um bom estúpido, faço-as com gosto.

Todavia, antes do sol, a noite é virgem. Dentro da noite residem os animais velozes... os animais voadores.... os animais que me interessam... os trabalhadores estropiados e exaustos... os garçons de suor congelado... os alcoólatras paranoicos... os lixeiros maratonistas... os mendigos depauperados... as putas de calçada com suas pernas e seios a mostra... os lobisomens de sinaleiro... e uma porção de viciados fodidos e insanos. Não há paternidade, nem maternidade dentro da noite. Há, sim, um barulho de rádio ligado que ninguém sabe de onde veio nem para onde vai. Há os carros que passam em disparada como relâmpagos na imaginação de um cego. A vida dentro da noite engatinha silenciosa e sufocada. Ninguém, nem por um minuto, arrisca dizer que um dia a noite acabará. O sol é um presságio, and no more.

Durante muito tempo... só escrevia à noite. Apoiado em xícaras de café, contando os cigarros como um fazendeiro conta suas vacas. Meus pais dormiam no quarto ao lado, e eu lhes ouvia a respiração agitada. No meu quarto, o batuque das teclas emperradas do computador e o assobio gelatinoso do mar. Raramente eu escrevia à máquina. O barulho da máquina despertava meu pai, que logo começava a tossir. Meu pai tinha – não sei se ainda tem – o sono leve e sensível. Quando o computador estava enguiçado, o que era quase sempre, algum problema fodido com o software ou hardware, eu escrevia à mão, o que era quase nunca. Detesto escrever à mão. Quando escrevo à mão o tempo parece um adversário, e não um aliado. A redação não acompanha o pensamento, o que é um problema seríssimo. Outros escritores já se queixaram disso.

Em Natal, Rio Grande do Norte, o sol nasce todos os dias pela primeira vez na América do Sul. Do lado de cá do Equador, ninguém vê o sol antes do Rio Grande do Norte. O barulho dos ônibus antes do nascer do dia é o sinal de que logo a vida cotidiana despertará para o monstruoso caos, o genuíno caos, o triunfante caos. O que acontece à noite não é o caos, mas o substrato do verdadeiro caos. O mundo está de pé. Os vendedores de picolé. Os padeiros. As caixas de supermercado. Meus pais, irmãos e vizinhos. Ouvia-os tomar café. Ouvia-os disputar uma vaga no banheiro. Ouvia-os defecar a primeira cagada da segunda-feira sun shine – e não sem prazer eu os ouvia voltar à vida. Lentamente, fechava a janela do quarto, ligava o ventilador Arno apoiado num tamborete de metal em frente à cama e... dormia. Estava contente por ter trabalhado duro a noite inteira. Apesar da fama de vagabundo, apesar da ideia de ser um vagabundo me excitar como nenhuma outra, não era assim que eu me via. Escrevia e escrevia. Relia o trabalho de uma noite inteira pouco antes de dormir. Ainda que eu não gostasse do resultado, meu corpo relaxava e eu podia, enfim, descansar.

O mundo lá fora só fazia sentido para mim se desabitado, ou mal e porcamente habitado. As ruas de meu bairro, pela manhã, se enchiam de carros estacionados. O entra e sai de carros me colocava paranoico, aluado mesmo. Se um único carro desfilando pela avenida é um consolo imaginário, uma centena deles é sinal de que a vida está inchada e podre. À noite, por outro lado, a rua me seduzia como um rato se deixa seduzir por um bueiro. Os lixeiros árabes com suas camisas plantadas na cabeça como burcas. Os travestis turbinados que, por segurança, só andam em bando. Os maconheiros magricelas em roupas de verão e bonés em busca de uma vitamina mais forte, engatinhando no mundo da cocaína.

Há gente de verdade nos antros de sofrimento, e uma incrível fonte de prazer e aprendizado quando se é um visitante nesses lugares sombrios e esquecidos.

Meu melhor amigo na infância chamava-se Fernão. Minha mãe e a mãe dele também eram amigas de infância, e davam aula juntas num colégio publico formador de aberrações. Eu sentia Fernão mais próximo de mim do que meus próprios irmãos. O que não me faltam são irmãos. Tenho sete. Dois do primeiro casamento de meu pai, e outros cinco entre meu santíssimo pai e diviníssima mãe. Nunca tive uma relação suficientemente intima e sincera com nenhum de meus irmãos. Nenhum deles nunca dividiu comigo as primeiras porradas da vida. Fernão, entretanto, me tinha no bolso. Salvara-me tantas vezes que se sentia à vontade em me sugar de todas as formas possíveis. Eu me sentia à vontade em ser sugado de todas as formas possíveis. Ele não tinha pai, e sua mãe, a tal amiga de minha mãe, não passava de uma puta viciada em machos etílicos e surras etílicas. Fernão é o que a sociedade moderna chama de “garoto transtornado”, criado sem pai, entregue às loucuras melodramáticas e à indiferença da mãe ninfomaníaca.  

Engendramos na maconha aos treze, quatorze. Quando demos o primeiro passo para cocaína, Fernão se empolgou. Achara a resposta de uma vida. O êxtase e a felicidade que lhes fora subtraído na infância. Diferente de Fernão, não me empolguei o suficiente. Completei um curto período de dependência, e só. Apenas um susto. Não tenho colhões o suficiente para me viciar, e se tenho, me falta dedicação.

Sempre me foi bastante claro o custo benefício da cocaína. Se cheirava duas, três horinhas – quarenta, cinquenta pilas de pó –, havia outras cinco, seis longas horas de exausta depressão. Sem contar a insônia que se iniciava à boca da madrugada e atravessava comigo o resto do dia. Isso desde a primeira vez que mandei um raiozinho. Não havia diversão o suficiente nessa porra para me fisgar. Se não fosse a depressão, é possível que caísse com gosto. Já Fernão estava tão acostumado com a merda que uma simples sessão depressiva não lhe fazia nem cócegas.

Foi nesse período que perdemos o contato diário. Ele arrumou uns parças narigudos do centro da cidade, e cheirava todas as noites, sem exceção. O problema da cocaína está no comportamento depressivo prolongado pós-ação, que é o meu caso, ou na falta de dinheiro, caso de Fernão. A falta de dinheiro é o maior dos toletes. Quando se cheira oito, noves noites seguidas, as próximas oito ou noves noites sem cocaína transformam-se num inferninho privativo e desempolgado. Fernão devia aquilo não ao vício, mas a si. Sem dinheiro, virava-se como podia. Lavava carros e assaltava os toca-fitas dos carros que lavava. Pastorava carros e metia os toca-fitas dos carros que pastorava. Ou só estourava o vidro de um carro qualquer e fugia com o toca-fitas. Especializou-se em toca-fitas. E havia, claro, a fonte clássica de dinheiro dos cacainômanos: a bolsa da mama.

Certa tarde, a mãe de Fernão apareceu lá em casa. Estava de short jeans, blusa cavada e descalça. Tinha uma enorme mancha roxa na bochecha. Transtornada, atirou-se nos braços de minha mãe e chorou como uma garotinha. Minha mãe chorou junto. As duas pareciam amigas, amigas de verdade. Encostei a orelha e ouvi como pude o que elas conversavam. Fernão, óbvio, atacou a mãe. Roubou-lhe o salário do mês. Minha mãe chamou meu pai, que estava na cozinha, torrando o saco trabalhador de cachaça. Meu pai fez um cheque e a mãe de Fernão recuperou-se como se tocada por Cristo. Dinheiro emprestado tem esse poder nas pessoas. Ainda mais quando elas sabem que não precisam saldar o empréstimo tão cedo.

Passamos a andar em grupos diferentes. Fernão pertencia à patota viciada, aos “quebra-nozes”, como eram conhecidos os nariguebas sem um puto. Eu frequentava os maconheiros do centrão, “jamaicoboys”, como nós (eles) erámos chamados. Nunca tive lá grande sentimento corporativista, muito menos quando se trata de maco-clubismo. Mas andar com os jamaicoboys facilitava a vida de qualquer maconheiro. É fumo que não acaba mais. De todas as qualidades e sabores. Maconha se reparte. Se um está sem maconha, o outro cobre. Se o outro tá em baixa, o um cobre. Maconha se divide. Maconha é a mais Franciscana de todas as drogas. Os maconheiros nutrem aquilo que chamo de bequi-da-compaixão. Ao passo que com a cocaína não acontece da mesma forma, nem poderia. Aquela porra custa uma nota e quanto mais se tem, mais se quer. Não há ponto de estafa na cocaína – e se há, é um ponto demasiado alto e perigoso para que se consiga vivê-lo.

Fernão não podia mais voltar para casa. Se voltasse, o atual comedor da mama, um PM aposentado fã de um uisquinho, foder-lhe-ia no tabefe. Sem contar que a mãe lhe queria pelas costas. Foi morar na Praça André de Albuquerque, a Woodstock a céu aberto dos junkies natalenses. Juntou-se a crème de la créme dos viciados entregues à miséria.

Certa noite, Fernão apareceu lá em casa. Quando o interfone tocou, eram três da madruga. Eu trabalhava naquilo que seria meu segundo livro, um romance perdido num HD queimado. Um livro em primeira pessoa que narrava a vida de um cara criado dentro de um cabaré. Criado pelas putas, assim como Mogli fora criado pelos ursos, ou lobos, vai se saber. Havia acabado de lançar meu primeiro livro, O Oxum da rua de trás, um livro de contos, e me julgava, sem sacanagem, um grande escritor. Eu era um pobre-diabo, mas essa informação ainda me era desconhecida. Morava com meus pais, tinha dezessete anos e já um livro. Imaginava-me Rimbaud, para dizer o mínimo. Estava com o cu cheio de grana. Cheio de grana que eu digo são dois mil, dois mil e quinhentos reais. Uma graninha nada mal para quem tem dezessete anos e está a vinte minutos da orla mais cara do litoral Nordestino.

Desci ao encontro de Fernão. Ele estava na calçada. Pés e mãos enferrujadas. Não tomava um banho há dias. O cabelo parecia um capacete, de tão duro e impermeável. Fernão sorriu, como se tivesse numa boa. Sorri de volta. Abriu os braços e lançou-me a possibilidade de um abraço. Foda-se, eu pensei, se não abraçá-lo agora o sujo sou eu. Abraçamo-nos. Perguntou como eu estava. Respondi que estava muito bem, obrigado. Escrevendo como nunca. Por falar nisso, tenho umas histórias que você poderia escrever, ele retrucou. Aposto que sim, eu falei, e perguntei como ele estava, como se não soubesse o tipo de merda que ele estava passando. Respondeu com um sorriso, timidamente. Disse estar com pressa. Uma pressa fodida. Pediu-me cem reais. Precisava pagar um trafica. O trafica chamava-se Olho Seco. Olho Seco era um pé-de-chinelo, mas um chinelo perigoso. Há traficantes que só trabalham com a high. Passam para os playbas e vivem de carrão topeteando na zona litorânea. Há, por outro lado, os traficas do centro, que circundam as sombras da madrugada e são como macacos de galho em galho, rua em rua, avenida em avenida. Olho Seco era desses. Olho Seco nasceu com apenas um olho, daí o apelido. Fernão sorria. Esplendorosamente sorria. Um riso cínico, desinteressado. Parecia alheio ao mundo e ao vento frio que soprava do mar, o que naturalmente não passava de uma grandessíssima simulação. Sorri de volta. Sorri e menti. Disse que não, não tenho um puto, Fernão. Pensei que se arranjasse o dinheiro agora, ele viria amanhã, e depois, e depois. Não importaria quantos nãos eu lhe desse, ele continuaria vindo. Os viciados em cocaína tem pouquíssima imaginação e memória curtíssima. Esquecem ou inventam seus problemas ao bel prazer.

Não, foi minha resposta. Fernão sabia que eu estava mentindo. Repetiu o pedido, como se um novo pedido demovesse-me da ideia. Respondi que... Se eu tivesse, brother, estaria em suas mãos, você sabe. Ele não acreditou, mas continuou sorrindo. Despedimo-nos com um aperto de mão. Daqueles que terminam em soquinho. Deu as costas e desapareceu dentro do barulho neurótico que faz o vento do Atlântico nas costelas dos prédios descascados da grande cidade de Natal.


***


Fernão e eu tínhamos um leva de amigos em comuns. Entre eles, Derico. Derico tinha esse apelido porque era careca e sustentava um rabo-de-cavalo ridículo da nuca até quase a bunda. Parecia o Derico, saxofonista do programa do Jô. Apareceu lá em casa como se de posse de uma grande novidade. Havia um morto estendido no calçadão da Praia do Meio.

– Adivinha quem é?

Como assim, eu perguntei.

– Fernão, porra. Todo furado de faca. Dizem que os caras passaram o coitado por uma merreca de trinta pilas.

Foi uma questão de tempo até a mãe de Fernão pintar lá em casa. Queria dinheiro para o funeral. Parecia ainda menos chocada que da última vez. Pelo contrário, estava até aliviada. Mas precisava do dinheiro, então fez uma ceninha rápida, conseguiu outro cheque e picou a mula.

Derico sentou-se em minha cama, apoiou o violão na perna e tirou um solinho estúpido do Pink Floyd que ele estava treinando. Time, se não me engano. Tinha uma banda, como a maioria dos retardados maconheiros de minha laia. Enquanto solava, descreveu o corpo de Fernão:

– Disseram que o estômago dele tava todo na calçada, acredita, bicho? E o cadáver todo cagado. Eu queria saber só se ele cagou antes ou depois das facadas.

Eu não estava surpreso. Estava, sim, um pouco tonto. Anestesiado com a ideia. A morte ainda não me era familiar. Derico, pelo contrário, parecia tranquilo com a presença da morte. Tranquilo ao ponto de reclamar da primeira corda desafinada do violão. Ou simplesmente estivesse cagando e andando, o que era bem possível.

Minha mãe veio me ver. Abraçou-me. Chorou tentando imaginar a dor da amiga em si. A dor oca de perder um filho. Enxugou as lágrimas com as costas enrugadas da mão e perguntou se eu não queria um terno de meu pai, um daqueles pretos com listras, e quem sabe uma gravata vermelha, sugeriu.

– Pode ser, respondi.

Derico disse que não iria ao enterro. Não tinha roupa para esse tipo de ocasião importante, e nem de cemitério gostava. E havia ensaio da banda. Estúdio novo, sabecomé, batera novo, um mundo de novidades entra dia sai dia, é foda. Guardou o violão e conferiu o relógio... estava na hora. Atravessara a cidade apenas para me dar a notícia... apenas. Lamentou-se, sabia que Fernão e eu éramos próximos, quase irmãos. Usou exatamente essas palavras... "quase irmãos".  

– Ah, continuou, você não tem um pedacinho aí que me salve? Tô de baixa, bicho. Ensaiar de cara é mau, né?

Fui até a última gaveta da escrivaninha, dei-lhe um pedaço de maconha, cheirou o fumo, seus olhos incharam de felicidade e guardou a rapadura prensada dentro da cueca. Deu no pé, sem cerimônia.


***


Não houve velório. O cheque de meu pai chegou para o enterro e mais nada. O enterro aconteceu às dez da matina do dia seguinte, debaixo de um solzão tórrido. A mãe e o padrasto estavam de óculos escuros, um pouco enfadados, apoiados numa lápide escura de mármore. Não mais que vinte, trinta pessoas... igualmente enfadadas. Entre eles, minha mãe e eu.

Uma velha gorda e suada, não sei se parente ou conhecida da família, ameaçou desmaiar e foi levada às pressas até o banco traseiro de um Fiat Uno azul estacionado a poucos metros da sepultura. Minha mãe e eu cumprimentamos a mãe de Fernão, que sacou os óculos e os pendurou no decote da blusa negra. As pessoas não usam óculos para esconder a dor, mas a falta dela. Perguntou-me a idade. Embasbacado, não respondi. Minha mãe respondeu por mim: 


– Dezessete. 
– Uma criança, meu Deus, uma criança... igualzinho meu Fernão.

O caixão desceu. As pessoas bateram palmas. Os coveiros lacraram a cova com cimento. As pessoas fugiram atazanadas do sol. Já não havia mais caixão. 


Minha mãe chamou um táxi. Enquanto esperávamos o táxi à entrada do cemitério, alisou-me os cabelos com seus dedos finos e pontiagudos e disse o quanto o tempo passa depressa, que a vida é hoje e não é amanhã, que Deus há de ser bondoso com Fernão, meu Deus, há de ser, há de ser, e disse também que nada acontece por acaso. Estava contente em não ser ela a mãe a chorar o filho morto. Obviamente, eu também estava contente em não ser o filho morto.

– É sempre bom tomar um banho depois de ir ao cemitério, André – advertiu-me.

Sentei no banco da frente. O taxista perguntou para onde. Minha mãe lhe passou o endereço e o taxista retrucou se havia algum caminho de nossa preferência, uma avenida, um bairro, pelo viaduto ou pela orla, senhora? Minha mãe respondeu não importa, o senhor que sabe, e o taxista escolheu o caminho mais longo e engarrafado possível. 



quarta-feira, 26 de junho de 2013

Crítica - Como Elefantes ao Mar



Diego, narrador de Como Elefantes Ao Mar (Rodrigo Machado Freire, Editora Patuá, 2013), é convidado a trabalhar num prostíbulo. Aí começa sua estória, sua utilidade: pôr a Black House de pé; articular, junto às instituições esfrangalhadas, burocráticas e paupérrimas, um alvará de funcionamento. O alvará, aos olhos de Júmandi, empreendedor do sexo, validará sua aventura abstrusa e limpinha. Diego acaba porteiro do inferninho, consigliere das garotas da casa, alvo fácil dos acontecimentos que rolam aos seus olhos entregues como um vulcão sonolento – desintegrando-se pouco a pouco, lance a lance...

Agarrado ao mar, Diego atravessa seu relato, a aventura putarenga, infiltrando-se psicologicamente a ideia brutal do mar. O oceano caudaloso, incomensurável. Dentro dele, até os Elefantes tornam-se pequenos. Situa-seirremediavelmente ensimesmado, preso aos andrajos de seus desejos e esperanças avacalhadas – diante do mar. Diante do mar como de um estado santo, impermeável. Debate-se, esfomeado, como se se fosse possível catalogar o destino, enamorar-se dele, ainda que sorrateiramente. Nesse tabuleiro: sorte, destino ou livre-arbítrio tornam-se parte do mesmo jogo severo e estúpido.

Naufragado na rotina estonteante do sexo, não fode nenhuma das putas. A rotina das mulheres que se dão herculeamente aos seres mais rotos e podres, liquidando-se como produtos de uma prateleira. Passa batido pela dispensa de bocetas e paixonites forjadas que ele ajuda a organizar. Não há, em Diego, que não é anti-herói, tampouco herói, qualquer olhar discriminador, qualquer impossibilidade senão as circunstâncias doentias. Júmandi é o único, ele, o dono da casa e da grana, autorizado a desfilar seu cacete jumental, cruamente, em todas as garotas. É o cliente de si mesmo.

Em lugar disso, Diego cobiça Julia, noiva de Júmandi. Se o caminho viável e prudente para a doença do sexo amortecia tatuado no lombo à mostra das garotas do prostíbulo... Diego prefere Julia. Prefere o equívoco, prefere a traição em lugar da romanesca e remunerada foda. A paudurice que lhe vale à pena está condicionada a podridão mais obscena e irrefreável. Obsceno, a ele, não é o desbunde de putas nuas, maquiadas, menstruadas. Obsceno é a noiva do amigo, a noiva do patrão, a xana açucarada e sentimentalmente machucada. Podre, purifica-se... Se é que ambiciona qualquer espécie de purificação. Assim a vida se apresenta, como biscoitinhos caseiros queimados, porém comestíveis. Homens e mulheres desfilam – sobretudo as mulheres – qual aberrações comezinhas. Aberrações que mudam, se tanto, o nome e o endereço, o cumprimento dos corpos e os caminhos percorridos até o inferno rotativo de Petróleo... Dólares... – mas que, invariavelmente, acabam tragadas pela desgraça que alimentam dentro de si como animaizinhos de estimação.

Fundidos a merda envernizada do habitat e das relações que levam, despem-se do pudor em nome de algo maior. Esse ‘algo maior’ é, talvez, indefinível senão a vista dos próprios personagens. Ele próprio, verborrágico, é uma aberração comezinha. Uma aberração que, todavia, lançada ao mar, dilui-se em paraísos naturais e insonhados. Tudo, absolutamente tudo, não passa de um zoológico sem grades. Um zoológico construído dentro do mar. Interpretam, dubiamente, os papeis de animais e visitantes.

Obstinado, nada no mar das plataformas de petróleo que, teoricamente, alimentariam de grana o prostíbulo. O dinheiro abençoado batizando num ritual pagão a vida dessas criaturinhas sem GPS: putas, crentes, bocetinhas virtuais, fregueses... Ele, Diego. Circunda, num esforço selvagem e desmedido, as boias da praia. Nada como se seu corpo vulnerável de humano tivesse sido forjado para água, não para terra.

Ainda não é ele, Diego, o escritor, o artista – artista como cada uma das putas lançadas no abismo colorido de paus e calcinhas encharcadas. Mas é o que, segundo ele, diz coisas que ninguém compreende. Por não compreendê-las, fazem vista grossa. É o contador, o porteiro, o nadador, o índio canibalesco de sotaque carioca.

Não está em busca de si. Sequer especula que há uma busca nomeável em torno da consciência, do ego, do tesãozinho arrefecido. É, literalmente, o que se adapta. Adaptado, torna-se o amiguinho de todos. Torna-se o ‘ombro amigo’ porque é com indiferença débil e sarcástica que se deixa alvejar pelas caretas, frases, sons, situações... Como um elefante ao mar, afunda. Afunda e seu afogamento é a construção de um novo homem. 



Link para o livro: 


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012






Meus dias foram trocados pelo olhar corriqueiro e intruso do
garoto. Cabelos desgrenhados, face turva, quase alva – impressão de que seu
rosto, eternamente pálido, repetindo o visual escasso do fotograma, tinha em
mente elucubrações além do milionésimo de segundo registrado: a inspiração de
dez vidas em um suspiro. Livre das vicissitudes, do mundo e dos velhotes
entediados digladiando-se como ratos a espera do queijo, fornicadores das
lembranças mundanas pintadas em leve retrato. Seus olhos são seus escritos, a fúria
transcende as pálpebras semicerradas ou os punhos fechados enfiados no bolso da
calça larga cor de vinho.
Infinita é a glória dos que sangram em sinal de
contentamento. A prole desgrenhou-se e o pulsar do coração pode ser ouvido à
medida que avança o submarino dos loucos. Penteando girassóis aquáticos que se
alinham conforme as ondas nadam em direção à praia.
Pode-se ver as montanhas, a relva após a passagem da chuva.
Sentado, imaginando cacos de vidro em sua alma dilacerante, bancando metáforas
e redenções como o santo louco – nunca canonizado, desconhecido e desprovido de
banalidades, escrituras sagradas ou seios pequeninos murchando dentro da boca
molhada. Imagino a nuvem de inquietação pairando sobre o fotógrafo. Um homem
culto, rico, barbudo, ex-caixeiro e amante de uma bela escandinava nos
arredores de Marselha.
O jovem não mirou a lente. Em seu pensamento desvairado de
quem despertou do sono pungente de mil anos em companhia dos mortos em eterno
regozijo, produzir imagens assemelha-se ao artífice do louco; àquele que sonha
penumbras enquanto os modernos,
pobretões de boa aparência e demônios em transe se atrelam ao encardido
de penumbras tolas e pesadelos esperançosos. Têm as recordações do passado à
saída para a quimera do futuro. Às histórias que de boca em boca ganharam a
ilusão inverossímil do que não pode ser mudado e é chamado cortesmente de
lembrança.
Verossímil, sim, é a verdade desgrenhada do garoto, poeta ou
maníaco. Sonha tufões e fabrica brisas dormentes. É preciso saltar a ribanceira
e ter os braços igualmente dormentes como asas. O pássaro dourado. A queda será seca, rápida; então a caminhada. Os
outros não trazem notícias de nenhum novo mundo.
Ele, que voou e agora anda, tem a difícil missão de recordar
a queda. Transferir a frieza para o papiro. O olor e a queimação eterna na boca
do estômago para o coração dos que se mantiveram alvos toda a vida, avaros para
a contestação da descoberta.
Mais difícil contestar o presente de elucubrações
dissonantes, passadas a fio como verdades inabaláveis do que contê-las em seu
âmago viril.
Poderia ele percorrer o espaço de mil fotografias com o
mesmo olhar¿ Ah, nunca conseguimos ou conseguiremos o mesmo olhar. Por mais que
se repita a pose. Nem ontem, hoje ou nunca! Fatigados, aprisionados no porão do
navio fétido, latinos de danças prodigiosas, bisbilhotando velharias através do
binoculo gigantesco. O binoculo aponta para o velho mundo. Onde os profetas
emitiram suas cartas de partida e chegada – o novo mundo ainda é desconhecido,
para sempre desconhecido. O novo mundo faz-se em sentir o futuro enquanto o
presente passa ao som do borbulhar da água que habita vulcões em ilhas
desertas; tinta negra e espessa contornando o papel finíssimo. Bibelôs de aço e
anjos de prata circundarão a lua, e o sol far-se-á calmo ou forte. O humor do
sol mudará ao ritmo da fome dos novos profetas.
O eclipse das almas ganhará forma, divindades apodrecidas e
cansadas da eternidade invejarão o sóbrio pensamento de quem nada pede. Será a
sabedoria a castidade enlameada em ódio¿
A ventania espancando faces e membros descobertos dissipará
a ambição.
E estes homens de uma estirpe já conhecida serão distintos
como a fotografia do jovem. Ou desiludidos como o homem entre seus pares na
África, o cinturão de ouro pesando-lhe o estômago, em pose passageira, olhando gravemente
para a câmera. Todos, inclusive os que não possuem a convicção de salvar-se em
terra ou cantar a desgraça com o sorriso aparente de quem a experiência de outros
mundos e enlevos alcança à voz: impetrarão o aposento das manhãs edulcoradas e
o paraíso será a passagem por rios e mares.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Quando eu comi a noiva de Deus

Há pouco mais de dois anos eles estavam separados. Ela, Sônia, ele, Allan, o gênio, o grande escritor. O homem capaz de lutar a melhor luta em condições deploráveis. Ginga, coragem e um soco único. O autor de Não Fale de Cintia. Ele dera um pé na bunda de Sonia e desde então, segundo dizem, deixou de escrever. Vive em um cubículo em alguma favela paulista e leva uma dieta à base de churrasco de gato e vitamilho com salsicha. O grande escritor.

Reza a lenda que ele limpa a bunda com cadernos da Folha de São Paulo.

Ela tentou suicídio duas vezes e, claro, escapou. Carrega duas cicatrizes bregas no pulso que são um tesão à parte. Tudo e mais um pouco buscando compensar a falta de bunda.

Aí começa a minha história. Numa livraria, sentados lado a lado, lendo o mesmo livro: Não Fale de Cintia. Ela puxou assunto e me deixou de pau duro: vestia uma camisa do Red Hot Chili Peppers e já lera todo Dostoievski. Mas o seu preferido era Bataille. Ela me comprou A história do olho aquele dia. Imitou a assinatura do francês na contracapa e anotou seu telefone.

- Me liga, tá?

Saímos outras quatro vezes antes do primeiro motelzinho. As quatro vezes ela se queixou da menopausa e me contou a respeito do grande escritor. O dia em que Allan dormiu com gêmeas siamesas. O dia em que Allan vomitou no comissário de bordo e foi preso pela Interpol. O dia em que Allan brigou com cinco caras e fraturou a panturrilha. O dia em que Allan recusara um importante prêmio literário por capricho. O dia em que Allan a comeu sete vezes na mesma noite, sem camisinha e com manteiga em lugar de vaselina.

- Nunca trepo com camisinha, benhê.

Nesse ritmo de quarta-feira de cinzas, os trovões tomavam a cor de duas bolas azedas de sorvete de cajá. O mar parecia, a vista acostumada, um tabuleiro de xadrez. Nossa quarta saída fora pra tomar sorvete de cajá na praia. Em dia de chuva.

Dito isso, sua buceta tinha a força de Hamlet e seu monólogo aborrecido. Seu grelo gigantesco roçava a cabeça do meu pau e eu podia sentir o cheiro e a maciez do gozo de Deus em suas entranhas.

- Nunca trepo com camisinha, benhê.

A verdade nos parecia uma brincadeira estúpida para amadores. Ela citava Tom Jobim, enchíamos a banheira do motel e trepávamos duas vezes seguidas. Para trepar, deixávamos o rádio ligado e parecia que o Cristo e os radialistas analfabetos de Natal conspiravam a nosso favor e então era anunciado “Wave, Tom Jobim.”

Ela bebia Vodka com Guaraná e eu Whisky com Fanta.

“Agora, Amor meu grande Amor, Angela Rô Rô.”

Quando anoitecia conversávamos sentados no chão – dessa vez bebendo no gargalo e sem qualquer mistura. Fumávamos o mesmo cigarro. Ela tragava e me passava o cigarro, eu tragava e lhe passava o cigarro.

Ela me contava de sua infância. E dos três anos e meio em que foi a noiva do grande escritor.

Quando gozávamos eu pensava na buceta que um dia pertenceu a ele e ela pensava nele. Nossas faces coladas eram incapazes de enxergar o outro. Mudos, com a água da banheira a cobrir nossos corpos, fingíamos acreditar em-sabe-deus-o-quê e improvisávamos a melhor imagem possível para sair pela primeira tangente que encontrássemos: éramos donos de algumas alucinações, incluindo aí a culpa e o arrependimento de metê-lo, o grande escritor, Deus em pessoa (dilacerado em alguma favela paulista uma hora dessas, bebendo à merda do mundo e sua obra incompreendida), no meio de tanta trepada dissimulada e Vodka vagabunda. O trivial nos comia a alma e no caso de Sônia, a alma e o rabo.

Belchior era um santo remédio.

“Como nossos pais, Belchior.”

Ela cantava junto e sempre escorregava na hora do “das coisas que aprendi nos discos”. Sonia dizia “das coisas que aprendi e nos vimos.”

- O certó é “nos discos”, Sonia.

- Como?

- Deixa pra lá.

Certa vez eu citei Hemingway. Ela me disse que Hemingway era o preferido dele, o homem que ensinou Deus a andar.

- Ele deixou a barba crescer em homenagem ao Hemingway. Ele não peidava sem lembrar do Hemingway. Tanto que deixou a barba crescer, saca? Adora Hemingway. Deus do céu! Como aquele homem amava o merda do Hemingway!”

- Quem sabe eu também não faça o mesmo?”

- Não, não faça isso. Não venda sua alma como fez aquele cretino chupador de pica do Hemingway.”

Servi-a de mais um copo de vodka e fiz menção em encher a banheira.

- Quente ou morna?

- Ele só queria a minha buceta pra depois escrever sobre ela. Dissecar-me como o cadáver de suas frustrações de punheteiro poliglota!

- Não acha melhor ligar a Hidromassagem?

- Eu preferiria matar a beijar aquela boca de chupador de rola novamente!

“E agora, Valentia de um homem, Benito de Paula.”

- Você gosta de Benito?

- Que tal a gente ir pra banheira?

- Claro.

Ela se aproximou e tocou o meu pau. Automaticamente, bati continência. O relógio marcava duas horas da manhã e após cinco trepadas, meu pau ainda estava em alerta. Ela se ajoelhou e eu pensei em Não Fale de Cintia, o clássico do grande escritor, do ex-noivo comedor de vitamilho com salsicha... De Deus. Lembrei-me de Sergei Arinos, o personagem principal e cheguei mesmo a chorar. Chorei, mas gozei. Foda-se. Não deixei que ela reparasse.

Ela escovou os dentes e fez gargarejo com um pouco de Vodka. Sorrimos. Estava na hora. Mijei na banheira. Depois tomamos banho e ela pagou a conta. Comprei uma camisinha de chocolate no stand do motel.

- Que foi? Vai trepar com outra? Porque eu não trepo com camisinha, benhê, você sabe.

No estacionamento do motel ela ainda me contou duas ou três histórias. Algo relacionado a uma boneca que ela ganhou de aniversário de cinco anos. Isso em 1974. Presente de uma tia. Uma tia que era cafetina em Guarulhos e hoje mora no Recife. Devo ter sorrido da história.

Perguntei-me se ele, em busca de seu anseio nobre a respeito da vida e de todo o resto, sorriu quando ela lhe contou a mesma história pela primeira vez.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Atire e olhe o céu

Ou se entrega, ou vou te tratar que nem um burro, seu jegue, disse Cosme. Cosme era o meu tio. Morávamos na roça, numa cidadezinha chamada Ciunêto, colada à João Pessoa. Eu tinha seis anos de idade. Meus pais morreram afogados e eu vivia com meu tio e minha avó. Ciunêto era metade do mundo quando eu tinha seis anos, a outra metade era a cidade grande, “onde os bastardos vão para a cadeia”, segundo meu tio. O horizonte aberto de todas os pontos possíveis de Ciunêto, dois mil metros acima do nível do mar, ladeiras do começo do século XX interligando fazendas decadentes ao centro podre e deteriorado da cidade. Peças de carne expostas em arames a céu aberto, um batalhão de moscas decolando e pousando.

945 habitantes imundos, destituídos de uma cooperativa e sem educação, minha avó dizia, e logo depois me puxava para o alpendre da casa e contava histórias de Lobisomem e Caipora, até que eu me contentasse com as surras diurnas do meu tio e descobrisse o extraordinário: Que Deus era um tolo capaz de inventar Caiporas e Lobisomens.

A Caipora, ela continuou, faz um X nas costas de quem lhe nega fumo, e depois come com farinha as tripas das crianças pestilentas como você.

Meu tio chegou com o homem amarrado, banhado em sangue, socando a cara e chutando o rabo do infeliz.

Ou se entrega, ou vou te tratar que nem um burro, seu jegue.

Fecha a porta da cozinha, André.

Bati a porta da cozinha, meu tio reclamou do barulho e chutou o saco do infeliz. Agora o infeliz tinha nome. Emanuel. Toda vez que chutava seu saco, meu tio gritava “E agora, Emanuel, gozou? Não vai dizer?”

Meu tio não queira que minha avó, sua mãe, escutasse a discussão. Minha avó passava o dia inteiro deitada, dormindo ou rezando. À noite saía para o alpendre, contava suas histórias e falava mal dos habitantes de Ciunêto. Alguém que ela não via há dez ou doze anos.

A Marcelina, minha avó começava, que mora na rua setenta, é uma sirigaita. Enganou o marido e foi pega com aquela coisa que Deus condena na boca. Chupando o Pedro, golpistazinho fugido da capital, que mora ao lado do Padre Alcebíades, outro salafrário.

Marcelina estava morta e o padre Alcebíades não comandava a paróquia desde a década de setenta, quando foi eleito prefeito e quatro anos depois nomeado Bispo, com passagem só de ida para Florianópolis, onde uma casa com piscina, crucifixo e TV à cabo o esperava.

Vez ou outra alguém desmentia minha avó. Então ela encarava com profundo desgosto o horizonte de Ciunêto do alpendre e repetia todas as ofensas do mesmo modo. A Marcelina era puta, mulher da vida, o Padre Alcebíades um pederasta, verdadeira bicha de batina, e o Pedro um ladrãozinho de merda. De merda, e ainda mais fugitivo da capital, um pulha, ela fazia questão em repetir, noite após noite, eu lhe pedia a benção e ela se retirava, estava com sono.

***

Meu tio pegou o homem pelo pescoço e enfiou uma faca dentro do seu nariz. Além de ter um caminhão e as terras da fazenda, meu tio ganhava dinheiro mesmo com ouro. O Emanuel roubara duzentos gramas de ouro bruto e meu tio queria o ouro de volta, ou então mais uma morte para se gabar entre latinhas esmagadas de Kaiser e uma vitrola preta levando Wando, o colecionador de calcinhas e cantor preferido do meu tio.

Ele cortou um pedaço do nariz do Emanuel e atirou a carne para o cachorro, que também se chamava Wando.

Pra aprender, seu bosta. Anda, vomita logo, diz, porra, onde tá o ouro?

Em canto nenhum, em canto nenhum, ele agonizava.

André.

Oi, tio.

Quer chutar a cara dele?

Não, senhor.

Chuta.

Não, senhor.

Olha, chutar a cara de um homem é como... trepar. Você tem idade pra trepar? Não. Nem deve saber o que é buceta, bacalhau, passar a língua num grelo. O que é chupar buceta? Você sabe seu pirralho? Sabe? Então chuta a cara dele.

Meu tio deu um soco na barriga do homem, ele deitou de dor e eu chutei sua cara. Um chute fraco, eu tinha seis anos e meu tio me mandou dar outro chute. Chutei novamente e nada. Meu chute era fraco, uma vergonha. Tem que sair sangue, meu tio gritava. Chutei outra vez. Agora no nariz, onde meu tio arrancara um pedaço. Dessa vez um chute de verdade. Começou a jorrar sangue do rosto do homem, meu tio disse que o sangue saindo daquele jeito parecia um chafariz.

O que é chafariz, tio?

Passou a mão em minha cabeça e riu. Sacou o revolver e fez um sinal com a mão pra eu me afastar.

Quando eu atirar, vai fazer barulho. Cuidado pra não sair correndo. Criança tem mania de sair correndo quando escuta disparo de bala. Ainda mais pela primeira vez. Fica quieto, entendeu?

Você vai atirar agora, tio?

Cala a boca e escuta.

Tremi quando ouvi o barulho, meus dentes rangeram e eu quis correr. Meu tio acertou um balaço no joelho. Antes de matar o cara ele queria apavorá-lo com a idéia de ficar aleijado.

Entendeu, seu merda? Agora você é um aleijado. Aleijado é tudo come bosta. Vai virar esmole e tomar no cu. Vai se mudar pra cidade grande e morar em banco de praça, e cuspia na cara do sujeito.

Emanuel se contorcia em espasmos demorados, mas já não chorava. A cara parecia a de um alienígena com a areia grudada no sangue coagulado.

Fala, última chance, cadê a porra fodida desse ouro? Tá achando o quê, que Deus me criou perfeito?

Emanuel não tinha mais forças nem para dizer que não, não sou eu o ladrão e não tem ouro nenhum. Só cuspia. E pedia água. Pediu quatro vezes. Na terceira eu perguntei ao meu tio se era pra pegar água mesmo, e se quente ou da geladeira. Ele disse que só se eu fosse um maricas. Você é um maricas?

Não, tio.

Uma caminhonete entrou pelos fundos da fazenda, meu tio deu com a mão para o sujeito que dirigia e começou a tirar a roupa do Emanuel.

Emanuel... Emanuel... você é um merda mesmo, meu tio dizia. O ouro vai morrer com o teu corpo, seu come bosta.

Emanuel começou a ter uma convulsão. O homem na caminhonete desceu do carro e acendeu um cigarro. Perguntou por mim, que pivete é esse, se não tinha problema.

Meu sobrinho. Tem sangue de carniceiro.

E se o garoto der nos dentes?

Relaxa a piriquita, porra, é o meu sobrinho.

Meu tio encontrou um baseado no bolso da calça do Emanuel.

Olha, Fernandes, o filhodaputa é maconheiro ainda por cima.

Meu tio levou o cigarro de maconha à boca e acendeu riscando um fósforo na barra do sapato. Ele tinha amarrado um pedaço de caixa de fósforo no sapato. Foi a solução que ele aprendeu para andar como o Sartana. A Volta de Sartana, O Justiceiro, único filme que tio assistira no cinema.
André, tá vendo isso?

O que, tio?

É maconha. Se você fumar maconha um dia eu te meto a porrada.

Ele terminou o baseado e deu um tapão na minha cara. Eu rolei na areia e levantei, segurando o choro, achando ruim o cheiro da erva que ele baforava na minha cara.

Ouviu? Se fumar essa merda eu te arrebento, e cuspia a fumaça na minha cara.

Dois minutos depois, Emanuel parou com a convulsão, desmaiado, soluçando com a boca aberta. Meu tio puxou o revolver e descarregou as balas no corpo estirado.

Não tem graça quando eles não sentem o impacto do tiro, meu tio disse.

Ele e o homem arremessaram o corpo na parte de trás de caminhonete e meu tio reclamou do sol, da maconha que não presta pra esse tipo de coisa, tira toda a emoção e elogiou o carburador da caminhonete.

É um carburador pau pra toda obra. Gastei duzentos semana passada no reparo da caixa de marcha.

Caixa de marcha quando quebra é foda.

Bota foda nisso.

Meu tio e o homem entraram no carro, acenderam outro baseado e deram no pé. Eu fiquei sentado no quintal, admirando a mancha de sangue, querendo saber para onde o homem tinha ido agora que ele estava morto. Emanuel o nome dele. Escrevi e apaguei uma centena de vezes o nome Emanuel na areia. Emanuel.

Minha avó abriu a porta, perguntou se tinha chegado carta. Nunca chegava carta, mas minha avó queria saber todos os dias.

Eu disse que nada, não vi nada, vó.

Correios e telégrafos de merda, ela esbravejou.

Não tá na hora do chá, vó? O tio disse pra eu não esquecer o chá da senhora.
Correios e telégrafos de merda, e cuspiu outra vez.

Entramos, minha avó colocou a chaleira pra esquentar e sentou à mesa de carvalho da cozinha.
Arfou de cansaço, pôs o terço em volta do pescoço e olhou para o telhado velho, caindo aos pedaços.

Ela é feia e louca e velha, eu pensei.

Voltei ao quintal, fiquei de pé em frente à nódoa de sangue e atirei mirando a parte da mancha que eu imaginava ser a cabeça do Emanuel. Atirei usando minha mão esquerda como pistola, fazendo o som dos disparos com a boca. Atirei cinco vezes.