terça-feira, 22 de novembro de 2011

Atire e olhe o céu

Ou se entrega, ou vou te tratar que nem um burro, seu jegue, disse Cosme. Cosme era o meu tio. Morávamos na roça, numa cidadezinha chamada Ciunêto, colada à João Pessoa. Eu tinha seis anos de idade. Meus pais morreram afogados e eu vivia com meu tio e minha avó. Ciunêto era metade do mundo quando eu tinha seis anos, a outra metade era a cidade grande, “onde os bastardos vão para a cadeia”, segundo meu tio. O horizonte aberto de todas os pontos possíveis de Ciunêto, dois mil metros acima do nível do mar, ladeiras do começo do século XX interligando fazendas decadentes ao centro podre e deteriorado da cidade. Peças de carne expostas em arames a céu aberto, um batalhão de moscas decolando e pousando.

945 habitantes imundos, destituídos de uma cooperativa e sem educação, minha avó dizia, e logo depois me puxava para o alpendre da casa e contava histórias de Lobisomem e Caipora, até que eu me contentasse com as surras diurnas do meu tio e descobrisse o extraordinário: Que Deus era um tolo capaz de inventar Caiporas e Lobisomens.

A Caipora, ela continuou, faz um X nas costas de quem lhe nega fumo, e depois come com farinha as tripas das crianças pestilentas como você.

Meu tio chegou com o homem amarrado, banhado em sangue, socando a cara e chutando o rabo do infeliz.

Ou se entrega, ou vou te tratar que nem um burro, seu jegue.

Fecha a porta da cozinha, André.

Bati a porta da cozinha, meu tio reclamou do barulho e chutou o saco do infeliz. Agora o infeliz tinha nome. Emanuel. Toda vez que chutava seu saco, meu tio gritava “E agora, Emanuel, gozou? Não vai dizer?”

Meu tio não queira que minha avó, sua mãe, escutasse a discussão. Minha avó passava o dia inteiro deitada, dormindo ou rezando. À noite saía para o alpendre, contava suas histórias e falava mal dos habitantes de Ciunêto. Alguém que ela não via há dez ou doze anos.

A Marcelina, minha avó começava, que mora na rua setenta, é uma sirigaita. Enganou o marido e foi pega com aquela coisa que Deus condena na boca. Chupando o Pedro, golpistazinho fugido da capital, que mora ao lado do Padre Alcebíades, outro salafrário.

Marcelina estava morta e o padre Alcebíades não comandava a paróquia desde a década de setenta, quando foi eleito prefeito e quatro anos depois nomeado Bispo, com passagem só de ida para Florianópolis, onde uma casa com piscina, crucifixo e TV à cabo o esperava.

Vez ou outra alguém desmentia minha avó. Então ela encarava com profundo desgosto o horizonte de Ciunêto do alpendre e repetia todas as ofensas do mesmo modo. A Marcelina era puta, mulher da vida, o Padre Alcebíades um pederasta, verdadeira bicha de batina, e o Pedro um ladrãozinho de merda. De merda, e ainda mais fugitivo da capital, um pulha, ela fazia questão em repetir, noite após noite, eu lhe pedia a benção e ela se retirava, estava com sono.

***

Meu tio pegou o homem pelo pescoço e enfiou uma faca dentro do seu nariz. Além de ter um caminhão e as terras da fazenda, meu tio ganhava dinheiro mesmo com ouro. O Emanuel roubara duzentos gramas de ouro bruto e meu tio queria o ouro de volta, ou então mais uma morte para se gabar entre latinhas esmagadas de Kaiser e uma vitrola preta levando Wando, o colecionador de calcinhas e cantor preferido do meu tio.

Ele cortou um pedaço do nariz do Emanuel e atirou a carne para o cachorro, que também se chamava Wando.

Pra aprender, seu bosta. Anda, vomita logo, diz, porra, onde tá o ouro?

Em canto nenhum, em canto nenhum, ele agonizava.

André.

Oi, tio.

Quer chutar a cara dele?

Não, senhor.

Chuta.

Não, senhor.

Olha, chutar a cara de um homem é como... trepar. Você tem idade pra trepar? Não. Nem deve saber o que é buceta, bacalhau, passar a língua num grelo. O que é chupar buceta? Você sabe seu pirralho? Sabe? Então chuta a cara dele.

Meu tio deu um soco na barriga do homem, ele deitou de dor e eu chutei sua cara. Um chute fraco, eu tinha seis anos e meu tio me mandou dar outro chute. Chutei novamente e nada. Meu chute era fraco, uma vergonha. Tem que sair sangue, meu tio gritava. Chutei outra vez. Agora no nariz, onde meu tio arrancara um pedaço. Dessa vez um chute de verdade. Começou a jorrar sangue do rosto do homem, meu tio disse que o sangue saindo daquele jeito parecia um chafariz.

O que é chafariz, tio?

Passou a mão em minha cabeça e riu. Sacou o revolver e fez um sinal com a mão pra eu me afastar.

Quando eu atirar, vai fazer barulho. Cuidado pra não sair correndo. Criança tem mania de sair correndo quando escuta disparo de bala. Ainda mais pela primeira vez. Fica quieto, entendeu?

Você vai atirar agora, tio?

Cala a boca e escuta.

Tremi quando ouvi o barulho, meus dentes rangeram e eu quis correr. Meu tio acertou um balaço no joelho. Antes de matar o cara ele queria apavorá-lo com a idéia de ficar aleijado.

Entendeu, seu merda? Agora você é um aleijado. Aleijado é tudo come bosta. Vai virar esmole e tomar no cu. Vai se mudar pra cidade grande e morar em banco de praça, e cuspia na cara do sujeito.

Emanuel se contorcia em espasmos demorados, mas já não chorava. A cara parecia a de um alienígena com a areia grudada no sangue coagulado.

Fala, última chance, cadê a porra fodida desse ouro? Tá achando o quê, que Deus me criou perfeito?

Emanuel não tinha mais forças nem para dizer que não, não sou eu o ladrão e não tem ouro nenhum. Só cuspia. E pedia água. Pediu quatro vezes. Na terceira eu perguntei ao meu tio se era pra pegar água mesmo, e se quente ou da geladeira. Ele disse que só se eu fosse um maricas. Você é um maricas?

Não, tio.

Uma caminhonete entrou pelos fundos da fazenda, meu tio deu com a mão para o sujeito que dirigia e começou a tirar a roupa do Emanuel.

Emanuel... Emanuel... você é um merda mesmo, meu tio dizia. O ouro vai morrer com o teu corpo, seu come bosta.

Emanuel começou a ter uma convulsão. O homem na caminhonete desceu do carro e acendeu um cigarro. Perguntou por mim, que pivete é esse, se não tinha problema.

Meu sobrinho. Tem sangue de carniceiro.

E se o garoto der nos dentes?

Relaxa a piriquita, porra, é o meu sobrinho.

Meu tio encontrou um baseado no bolso da calça do Emanuel.

Olha, Fernandes, o filhodaputa é maconheiro ainda por cima.

Meu tio levou o cigarro de maconha à boca e acendeu riscando um fósforo na barra do sapato. Ele tinha amarrado um pedaço de caixa de fósforo no sapato. Foi a solução que ele aprendeu para andar como o Sartana. A Volta de Sartana, O Justiceiro, único filme que tio assistira no cinema.
André, tá vendo isso?

O que, tio?

É maconha. Se você fumar maconha um dia eu te meto a porrada.

Ele terminou o baseado e deu um tapão na minha cara. Eu rolei na areia e levantei, segurando o choro, achando ruim o cheiro da erva que ele baforava na minha cara.

Ouviu? Se fumar essa merda eu te arrebento, e cuspia a fumaça na minha cara.

Dois minutos depois, Emanuel parou com a convulsão, desmaiado, soluçando com a boca aberta. Meu tio puxou o revolver e descarregou as balas no corpo estirado.

Não tem graça quando eles não sentem o impacto do tiro, meu tio disse.

Ele e o homem arremessaram o corpo na parte de trás de caminhonete e meu tio reclamou do sol, da maconha que não presta pra esse tipo de coisa, tira toda a emoção e elogiou o carburador da caminhonete.

É um carburador pau pra toda obra. Gastei duzentos semana passada no reparo da caixa de marcha.

Caixa de marcha quando quebra é foda.

Bota foda nisso.

Meu tio e o homem entraram no carro, acenderam outro baseado e deram no pé. Eu fiquei sentado no quintal, admirando a mancha de sangue, querendo saber para onde o homem tinha ido agora que ele estava morto. Emanuel o nome dele. Escrevi e apaguei uma centena de vezes o nome Emanuel na areia. Emanuel.

Minha avó abriu a porta, perguntou se tinha chegado carta. Nunca chegava carta, mas minha avó queria saber todos os dias.

Eu disse que nada, não vi nada, vó.

Correios e telégrafos de merda, ela esbravejou.

Não tá na hora do chá, vó? O tio disse pra eu não esquecer o chá da senhora.
Correios e telégrafos de merda, e cuspiu outra vez.

Entramos, minha avó colocou a chaleira pra esquentar e sentou à mesa de carvalho da cozinha.
Arfou de cansaço, pôs o terço em volta do pescoço e olhou para o telhado velho, caindo aos pedaços.

Ela é feia e louca e velha, eu pensei.

Voltei ao quintal, fiquei de pé em frente à nódoa de sangue e atirei mirando a parte da mancha que eu imaginava ser a cabeça do Emanuel. Atirei usando minha mão esquerda como pistola, fazendo o som dos disparos com a boca. Atirei cinco vezes.

3 comentários:

  1. Meu amor, como você é grande. O melhor. Eu tenho orgulho de cada palavra tua.

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  2. Esperando o livro o "Oxum da rua de trás."

    rodrigomachadofreire@hotmail.com

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  3. romulogarcias@yahoo.com.br5 de março de 2012 07:20

    tinha ciume do Paulo Cesar Pinheiro que escreveu Viagem aos 14 anos....Agora terei do André que escreveu este belo conto aos 19?

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